03 de fevereiro, de 2021 | 14:36

Por que nos surpreendemos ao ver uma negra médica

João Paulo Xavier *


Semana passada, precisei ir ao hospital para uma consulta médica. Teria sido uma visita de rotina não fosse o ineditismo da situação que vivenciei. Em 30 anos, aquela foi a primeira vez que fui atendido por uma negra médica. Confesso que meu sorriso vazou por trás da máscara de proteção. A surpresa me pareceu, a princípio, muito boa e bem-vinda, mas vou te contar o porquê, na realidade, não era para ter sido. As informações que vou compartilhar com você foram extraídas da pesquisa intitulada ‘Demografia Médica no Brasil’ realizada pelo professor Mário Scheffer, que é doutor, médico e vinculado ao departamento de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP. Há no Brasil cerca de 452.801 médicos. Isto significa que existe 2,18 médicos para cada mil habitantes, um número razoável. A maioria deles é branca e tem renda familiar elevada.

Os médicos recém-graduados no Brasil, majoritariamente, são solteiros, não têm filhos, dependeram financeiramente dos pais durante a graduação e, ainda, moram com eles. Para a formação básica, ou seja, o ensino fundamental e médio, grande parte cursou o ensino médio em colégios particulares e/ou fez um cursinho pré-Enem/vestibular. Em contrapartida, o número de médicos negros não chega a um quinto, equivalendo a 17,6% do total, isto é, 79,690, aproximadamente.

Esses dados explicam muita coisa referente ao perfil dos profissionais que são formados e explicitam, também, um fato social muito grave e estrutural que temos buscado denunciar, debater e combater: o racismo. Essa desigualdade não é exclusiva da área médica e pode ser observada em outros segmentos. Dos pouco mais dos 180 mil servidores públicos estatutários e nas posições de diretores e gerentes, a maioria é branca, totalizando 64,1%. Os pretos e pardos são aproximadamente 34,8%. Entre os profissionais das áreas científicas e intelectuais (1.600.486 estatutários), a participação de negros beira os 37,6% e, os professores universitários não são um terço dessa cifra.
Entretanto, quando olhamos as ocupações de menor prestígio ou entre remuneração: os profissionais técnicos e de nível médio os negros são 44,5%; os empregados em ocupações elementares, o percentual era de 60,2%, aumentando para 70,2% entre os profissionais que trabalham com a coleta de lixo e de material reciclável.

“O fim do período legalmente escravocrata
no Brasil, em 1888, não garantiu às pessoas
negras os direitos humanos básicos”


O fim do período legalmente escravocrata no Brasil, em 1888, não garantiu às pessoas negras os direitos humanos básicos, acesso aos espaços antes restritos e a assistência do Estado para a população que por mais de 350 anos foi, impiedosamente, escravizada. Na realidade, o preconceito, a inferiorização e as agressões continuam, mesmo com o fim da escravidão-formal, em muitos lugares ao redor do mundo. Vamos lembrar, por exemplo, o regime político chamado Apartheid. Inaugurado em 1948, após a eleição geral na África do Sul, esse modelo segregava, isto é, separava os espaços urbanos, geográficos, sociais, acadêmicos e profissionais para negros e brancos.

Nessa época, eram proibidos, também, as relações afetivas e casamentos entre pessoas negras e brancas. As discriminações desse período duraram 46 anos e deixaram marcas profundas na sociedade sul-africana. No Brasil, a mentalidade colonial, ou seja, aquela trazida pelos invasores do Brasil, permanece até hoje. Recentemente, ficamos sabendo do chocante caso de Madalena Gordiano, de 46 anos, que foi mantida por 38 anos em condições de escravidão pela família de Dalton César Rigueira e Maria das Graças Rigueira.

Apesar desses 133 anos após a proibição da escravização vemos no Brasil uma sociedade dividida entre membros e semimembros-quase-livres, quase-da- família, quase-da-sociedade. Todas essas situações revelam como o racismo nos segue como uma sombra maldita que encobre diversas oportunidades, eclipsa a arte e a cultura negra e oculta nossa produção acadêmico-profissional. O Brasil é um país formado a partir da vinda de pessoas do continente africano e, atualmente, somos mais de 56% da população.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, dos 209,2 milhões de habitantes do país, 19,2 milhões se assumem como pretos, enquanto 89,7 milhões se declaram negros de pele clara, ou pardos. Apesar desse número alto, ainda, percebemos que existem lugares e profissões que estão, tacitamente, reservados ou que são ocupados majoritariamente por pessoas brancas ou não negras. Acredito que deveria nos causar estranheza que em uma sessão do Supremo Tribunal Federal, por exemplo, não haja nenhum homem ou mulher negro ou negra. Semelhantemente, o incômodo deveria ser brutal ao vermos que o mesmo ocorre em outros cargos importantes e que envolvem tomadas de decisões políticas.

O primeiro senador negro foi eleito apenas em 1991, Abdias do Nascimento, como suplente de Darcy Ribeiro. Abdias era professor, artistas plástico, escritor, teatrólogo e poeta. Pioneiro do Movimento Negro no Brasil e um dos maiores ativistas pelos Direitos Humanos.

“Quando nós nos surpreendemos ao
sermos atendidos por um negro médico,
mas nem percebemos ou achamos estranho
que atendentes ou diaristas sejam negras,
temos um apartheid social”


Em 1995, Benedita da Silva foi a primeira mulher negra eleita no senado brasileiro. Desde então, temos, hoje, 81 senadores dentre eles 3 pretos e 10 que se declaram pardos. Essa assimetria deveria te causar um enorme espanto e um profundo desejo por mudanças. Somos parte de uma sociedade em que as relações econômico-político-sociais de poder e dominação atravessam todos os aspectos de nossa vida. Há profundas marcas das desigualdades que foram estabelecidas e cultivadas ao longo de nossa história. Quando temos um grupo dominante que, nesta sociedade racializada em que estamos inseridos, dirige e estabelece as leis, as políticas e as prioridades, nós estamos vivendo, sem perceber, um tipo de apartheid.

Quando nós nos surpreendemos ao sermos atendidos por um negro médico, mas nem percebemos ou achamos estranho que todas as atendentes dos caixas de um supermercado ou as diaristas que encontramos sejam negras, temos um apartheid social. Quando ficamos chocados ao ver uma criança branca abandonada nas ruas ou uma pessoa branca em situação de rua, mas não sentimos o mesmo ao ver uma criança ou pessoa negra, nós temos um apartheid.
Ao entrarmos em um restaurante mais sofisticado e observarmos que ao nosso redor as pessoas que estão servindo às mesas, cuidando da segurança ou da limpeza são as pessoas negras e as que estão sendo servidas ou no comando são as brancas, temos um novo modelo de apartheid ocorrendo bem debaixo dos nossos narizes. Estamos atrasados nessa discussão e precisamos, urgentemente, lutar para que essas desigualdades sejam combatidas.

É inaceitável que continuemos a tolerar situações como essas. Vou exemplificar, imagine uma sala fechada e sem janelas. Lá dentro, há um peixe podre e fedorento sobre uma mesa. Retiramos o peixe e levamos para fora da sala, mas o cheiro permanece. Vamos chamar essa sala de Brasil, esse peixe de colonialismo e esse cheiro que permanece depois de ter sido levado para fora, ou seja, mesmo com o fim da colonização e escravização, de colonialidade.

Essa colonialidade é que nos faz esperar que os médicos, dentistas, pessoas no comando de cargos importantes, modelos de beleza, de cultura e até o conceito de paz sejam todos brancos. O sujeito branco universal. Essa colonialidade é tóxica e nutre o racismo que está estruturado de forma política, econômica, linguística, religiosa e estética. Confesso que ser atendido por uma médica negra alegrou meu dia, ao mesmo tempo que me entristeceu profundamente, pois precisamos nos levantar e agir para que essas desigualdades sejam contrabalanceadas. Não podemos aguardar até que a próxima geração faça algo sobre isso, denuncie ou se mobilize. Precisamos ser os agentes dessa mudança.

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E ‘esperança’ do verbo ‘esperar’ não é esperança, é espera. ‘Esperançar’ é se levantar, ‘esperançar’ é ir atrás, ‘esperançar’ é construir, ‘esperançar’ é não desistir!” Essa epígrafe de Paulo Freire traduz meu sentimento ao fim deste artigo. Eu esperanço por isso, pelo momento em que nós negros não seremos gatos pingados nos lugares de prestígio social e nas posições de comando e tomadas de decisão da vida social e política.

Esperanço pelo dia em que entraremos nos consultórios médicos, assistiremos às sessões do STF, acompanharemos os programas de televisão, moda, cultura e a pauta racial não será uma surpresa para nós. O espanto é não sermos a maioria em todos esses lugares e posições sociais. Afinal de contas, em um país com mais de 56% da população negra, ver um negro ou uma negra não deveria ser uma surpresa ou um acontecimento marcante em nenhuma esfera da sociedade.

* Doutor em Estudos Linguísticos – Pesquisador e Professor efetivo do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) e-mail: [email protected]
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