Arquivo pessoal
Jaqueline Tortora Dias relatou seus desafios durante trajetória acadêmica
(Tiago Araújo - Repórter do Diário do Aço)Sonhar e nunca desistir. Essa sempre foi a filosofia da fabricianense Jaqueline Tortora Dias, de 25 anos, ao longo de sua trajetória nos estudos. Formada em escola pública, em Coronel Fabriciano, Jaqueline conseguiu concluir recentemente o curso de Engenharia Civil do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que é considerado um dos melhores no país e reconhecido pelo seu grau de dificuldade elevado. A assinatura do diploma dela ocorreu no dia 20 deste mês e agora Jaqueline aguarda sua formatura. Atualmente, a fabricianense mora na capital paulista e trabalha em um banco.
Em entrevista ao Diário do Aço, Jaqueline Tortora relatou sua emoção após conseguir formar no ITA, localizado no município de São José dos Campos, em São Paulo. Ela também apontou os desafios enfrentados durante seu período de estudos, que foram muitos.
Alívio Conforme Jaqueline, ela concluiu o ensino médio da Escola Estadual Dr. Joaquim Gomes da Silveira Neto, localizada no bairro Caladinho de Cima, em Coronel Fabriciano, que foi fundamental em sua jornada. “Acho que a sensação de todo mundo ao se formar é de alívio e realização. Eu nasci e cresci no bairro Caladinho de Cima e não me lembro de conviver com ninguém que tivesse concluído um curso superior, exceto pelos meus professores da escola pública que eu frequentava. Mas sempre tive muita facilidade nos estudos, e mais que isso, eu adorava o ambiente escolar, porque na minha cabeça a escola sempre foi um refúgio do trabalho duro que enfrentava em casa”, afirmou.
Choque de realidade Na entrevista, a fabricianense relata que sua batalha para entrar em uma universidade pública começou quando chegou ao ensino médio e percebeu que não iria ser aprovada apenas com o conhecimento que tinha até então. “Infelizmente, há uma diferença gigantesca entre o conteúdo de uma escola particular e de uma pública, não por culpa dos professores, mas por causa de toda a dinâmica de ensino e estrutura”, afirmou.
CursinhoCiente que seria necessário estudar muito mais, para ter chance de ser aprovada em uma universidade pública, Jaqueline decidiu procurar um cursinho de pré-vestibular. “Fiz a prova de seleção de um cursinho de Ipatinga e consegui muito pouco desconto e, com isso, não tinha a menor condição de pagar um ano de cursinho. Então, peguei todas as minhas economias e paguei dois meses de estudos, já sabendo que teria que sair, mas por sorte tive bom desempenho e os donos do cursinho me deram a oportunidade de ser monitora de matemática em troca da mensalidade”, contou.
Desafios Apesar de conseguir um cursinho para estudar, a fabricianense explica que seus desafios estavam só começando. “Foi uma época bem complicada, porque eu estudava na escola Dr. Joaquim Gomes na parte da manhã, era monitora à tarde e assistia às aulas do cursinho à noite. Muitas vezes não tinha dinheiro para passagem de ônibus. E durante o meu terceiro ano do ensino médio, perdi minha mãe por causa de um câncer. Teve muitos dias que ia para escola, sentava na última cadeira e chorava a aula inteira. Eu sentia muita raiva de não ter condições financeiras de ajudar minha mãe e o pensamento de que faltava tudo em casa era muito forte na minha cabeça”, lembra.
PromessaApós a perda, Jaqueline Tortora decidiu que iria fazer qualquer coisa para ter melhores condições financeiras, sendo que já havia prometido para sua mãe que iria passar nas melhores faculdades do Brasil. “Durante o ano de cursinho em Ipatinga, comecei a me interessar muito pelos vestibulares militares por dois motivos: moradia e comida gratuita durante toda a graduação, o que já resolvia bem a minha vida. Além disso, recebe-se um salário para estudar durante o primeiro ano de faculdade. Dessa forma, me formei no ensino médio, em 2012, encerrei o cursinho que já fazia e fui em busca de outro voltado para os vestibulares militares”, contou.
Bolsa integral Com 17 anos, a fabricianense foi sozinha para o Rio de Janeiro fazer a prova de bolsa de um cursinho que é um dos que mais aprovam no ITA, e que tem as aulas ministradas em São José dos Campos (SP). “Consegui 90% de desconto na mensalidade, mas depois me deram a bolsa integral. Com isso, me mudei para São José dos Campos e comecei morando de favor em uma pensão. Depois tive uma amiga que me deixou morar no apartamento dela praticamente de graça, e depois morei na casa do meu namorado. Estudava mais de 60 horas por semana, fora a carga horária de aulas. A minha vida era o estudo. Além disso, tinha semana que passava com um único pacote de biscoito recheado e um pacote de macarrão instantâneo. Eu chorava de fome. Lembro de ligar para o meu pai e pedir R$ 50, mas muitas vezes ele não tinha. Foi uma época muito difícil, mas muita gente me ajudou”, relatou.
Aprovação e estudos Jaqueline lembra de uma vez em que um advogado do seu pai, que o ajudava em seu processo de aposentadoria (que até hoje não conseguiu), falou para ela que nunca iria passar no ITA. “Ele me disse que lá era lugar de gênio, mas mesmo assim, consegui ser aprovada no ITA e em outras faculdades de destaque. Das 160 vagas para o Brasil, com mais de 20 mil candidatos, uma das vagas foi a minha. Na minha turma do ITA, menos de 5% dos alunos eram de escola pública, como eu. E após ser aprovada, tive problemas com a administração por ser uma das poucas alunas que precisou trabalhar. Além disso, meu pai descobriu um câncer quando eu estava no meio da minha graduação. Tive que parar de estudar por um tempo para ajudá-lo em casa, e depois retornei com os estudos e consegui me formar”, afirmou.
Assinatura do diplomaNo dia 20 deste mês, Jaqueline Tortora assinou seu diploma de conclusão do curso de Engenharia Civil e se sentiu realizada. “Eu tremia, suava, ria e chorava muito. Foi um esforço descomunal. Em vários momentos tomei remédio para depressão e perdi boa parte do meu cabelo devido ao estresse intenso. Estudava muitas horas e enfrentei jornadas de trabalho intensas durante esse período acadêmico. No ITA não se pode ir mal em prova, porque é expulso. Tive muitos amigos que foram desligados do instituto. Portanto, não tenho palavras para descrever como foi sofrido esse diploma”, salientou.
FuturoAgora que está formada, Jaqueline conta que pretende ir para Nova Iorque, nos Estados Unidos, pois o banco americano em que trabalha, na capital paulista, oferece treinamento para todos os seus analistas de primeiro ano nos EUA. “No momento, acho que o único plano que tenho em mente é continuar me esforçando para dar para a minha família a vida que eu não tive. Pagar um plano de saúde que nunca tivemos. Tentar sempre ser uma pessoa melhor. Aprender muito e ajudar sempre que possível. Portanto, não adianta ficar se lamentando, tudo que você coloca o seu esforço, vai gerar resultados. A vida é uma batalha. Tem que continuar lutando sempre”, concluiu.