15 de novembro, de 2020 | 07:00

Em quem votarás?

Jorge Ferreira S. Filho *

"O eleitor cava seu futuro tormento, se contribuir para fazer chegar ao poder quem não é idôneo para representar interesses democráticos e republicanos do cidadão"

Meu voto tem valor quantitativo igual àquele dado pelo presidente da república, um gari ou um desempregado. Todavia, os votos não são iguais, sob o ponto de vista qualitativo. O ato jurídico de votar é muito mais que o cumprimento de obrigação legal, pois ele pode aprimorar, consolidar e fortalecer o sistema democrático, por meio da pessoa que selecionamos diante da urna eletrônica. Todavia, esse mesmo ato tem a aptidão para corroer, corromper, desacreditar e desmoralizar a própria democracia. Basta apenas votar em alguém descomprometido com os valores democráticos ou comprometido apenas com seus próprios interesses, ou vinculado com pretensões egoístas de determinados grupos, para comprometer o futuro democrático.

Às vezes, o número de um candidato selecionado na urna representará uma dose de veneno em prejuízo à saúde dos valores democráticos e uma conduta contra si próprio. O eleitor cava seu futuro tormento, se contribuir para fazer chegar ao poder quem não é idôneo para representar interesses democráticos e republicanos do cidadão.

Explico: uma pessoa que é beneficiada por uma milícia provavelmente votará num candidato miliciano, acreditando votar em quem representará seus interesses. Puro engano. O interesse individual do cidadão, somente tem valor democrático, se resultar também em benefícios para a comunidade da qual o eleitor faz parte.

Dizem que o voto deve ser consciente. De forma geral a escolha do candidato é consciente, pois se sabe previamente o seu nome e o número. Contudo, nem todo voto é responsável. Para assim ser, o eleitor deve se dar ao trabalho prévio de pesquisar a vida de cada candidato. Estudando a história e a estória de cada candidato, torna-se provável a boa qualidade do sufrágio.

Como proceder? Invista no futuro da sociedade brasileira aplicando um pouco do seu tempo nos sites oficiais da Justiça eleitoral. Pesquise a declaração de bens do candidato e conclua se a riqueza que ele tem é compatível com os ganhos anuais de sua profissão. Havendo suspeita de evolução patrimonial incompatível com a realidade do candidato, então, não arrisque. Pesquise com quem anda ou andou o candidato. Investigue nos portais da Justiça Estadual, Federal sobre a existência de ações. Pesquise se o candidato é devedor, pois, nesse caso, ele poderia estar buscando na vida pública, um caminho para resolver seus problemas particulares e, não, trabalhar no interesse da sociedade.

Não deposite seu voto numa pessoa por apenas ter um rosto bonito ou um corpo “sarado”, pois tais características podem não revelar a negritude da alma. Faça um debate com amigos sobre os planos de governo de cada candidato a prefeito. Trata-se de documento público. Quais são os planos? Eles atendem o interesse comunitário? São exequíveis ou apenas promessas retóricas? Não se pode esquecer do candidato potencialmente ficha-suja, porque, à frente, entregará o mandato.

A maior ameaça às conquistas da sociedade ocidental (liberdade, igualdade de oportunidades, igualdade de direitos, respeito às diferenças, convivência plural) reside no próprio processo do sufrágio universal. O corrupto e o antidemocrático aproveitam-se da fragilidade do cidadão que vota apenas porque o voto é obrigatório. Esse é presa fácil. Tal categoria de eleitor passa ao largo das questões relacionadas com a corrupção, idoneidade moral do candidato. Ele não vende o voto; joga fora o voto. Votar mal votado e cavar a própria sepultura.

* Advogado – Articulista. Professor da Fadipa
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