15 de novembro, de 2020 | 06:00

Cooperar é possível?

João Luiz Teixeira Andrade *

“Aos eleitores do Vale do Aço, e principalmente aos vereadores e prefeitos que tomarão posse em 2021, fica a responsabilidade de não retroagir e dar continuidade no sentido da cooperação regional, que busca o benefício comum e não o protagonismo individualizado”

Em Timóteo, próximo à Ponte Velha, existe uma escultura que simboliza a união das três cidades irmãs do Vale do Aço: Coronel Fabriciano, Ipatinga e Timóteo. Sempre achei interessante a escultura, mesmo que soubesse pouco sobre o seu significado. Confesso que somente com o trabalho na Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana é que fui conhecer mais da história do Vale do Aço. Um dos pontos críticos mais recorrentes em meu trabalho são os inevitáveis questionamentos sobre como, de fato, fazer a consciência da região metropolitana ir além da mera conveniência dos discursos.

Obviamente, temos diversos exemplos da falta de espírito comum em todo o país e o Vale do Aço não seria diferente. Porém, acredito que 2020 trouxe alguns sinais de mudança.

Com a pandemia da covid-19, ao longo dos meses, a população do Vale do Aço pôde vivenciar as diferentes, e quase antagônicas, medidas de contenção da pandemia adotada pelos municípios. Apesar de parecerem conflituosas, e muitas vezes eram, havia um ponto de coordenação comum na condução das medidas. Este fato, talvez, pouca gente saiba.

Desde a primeira semana da pandemia, em março, a sala de reuniões da Agência Metropolitana já recebia a Superintendência Regional de Saúde de Coronel Fabriciano e os prefeitos municipais. O objetivo naquele momento era orientar uma padronização das medidas, o que surtiu efeito já nas primeiras semanas. Contudo, com o tempo cada prefeitura passou adotar as medidas que faziam sentido no cenário específico de cada município. Opção que deve ser respeitada em decorrência do pacto federativo brasileiro: os municípios têm autonomia.

Com o agravamento da disseminação do vírus, foi convocada para o dia 12 de junho deste ano uma reunião da Assembleia Metropolitana, órgão máximo de deliberação regional, com representação política dos Prefeitos e dos Presidentes das Câmaras Municipais, além de representantes do Governo do Estado. Essa reunião, sem dúvidas foi um marco, quase uma certidão de nascimento, para o amadurecimento do Vale do Aço como região metropolitana.

Embora não tenham sido unificados os protocolos de combate ao vírus, os municípios chegaram a uma importante conclusão: quando o indicador da Taxa de Contaminação atingisse determinado patamar considerado alto, todos os quatro prefeitos concordaram em fazer uma reunião para unificação dos protocolos, e até mesmo um lockdown, se assim fosse deliberado. Felizmente, não foi atingido o patamar definido, e os municípios prosseguiram definindo suas medidas de combate.

A meu ver, esta reunião da Assembleia Metropolitana foi um grande passo em nossa região metropolitana: houve maturidade política, com afastamento das divergências particulares, para que fosse possível uma decisão colegiada inédita que considerou a influência e impactos de cada cidade em uma malha urbana compartilhada. Desconheço decisão mais importante do que essa, tomada pela Assembleia Metropolitana desde a fundação da Agência em 2012. Foi um importante passo dado no sentido de uma amadurecimento político-regional.

Muitos podem pensar que é pouco, ou que foi lento, mas todos devem concordar que carrega um simbolismo ímpar na história do Vale do Aço. Quem ainda está aprendendo andar, não pode esperar correr uma maratona.

A lição que fica? Aos eleitores do Vale do Aço, e principalmente aos candidatos a vereadores e prefeitos que tomarão posse em 2021, fica a responsabilidade de não retroagir. Fica a responsabilidade de dar continuidade no sentido da cooperação regional, que busca o benefício comum e não o protagonismo individualizado.

Aos eleitos, desejo que lembrem da escultura das três irmãs, lá em Timóteo, que não se esqueçam da irmã caçula, Santana do Paraíso, e que busquem sempre a via do diálogo e da cooperação. Que se lembrem que o que torna o Vale do Aço tão exclusivo, é a grandiosa intensidade das relações entre nossas cidades, o que nos faz uma só. Somente a cooperação, mesmo em um contexto de diferenças, é que pode melhorar a vida das pessoas que não veem as fronteiras entre as cidades no dia a dia.

Aos cidadãos: consciência ao votar! Aos eleitos: disciplina para superar as tendências de uma visão míope, imediatista e bairrista.

* Diretor Geral da Agência de Desenvolvimento da Região Metropolitana do Vale do Aço. Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, formado em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e bacharel em Direito pela UFMG. Cidadão Metropolitano do Vale do Aço nascido em Coronel em Fabriciano, criado em Ipatinga.
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