Setembro Amarelo, uma mobilização pela vida

Jorge Ferreira S. Filho *

Diversas entidades mineiras engajam-se na campanha contra o suicídio. Estamos no “Setembro Amarelo”. Uma elogiável mobilização pela vida. Nesse diapasão, o IAMG e o Centro Acadêmico Afonso Pena cerram fileiras no “combate à depressão e ao suicídio entre acadêmicos e profissionais do direito”.

Quem se compromete com tal missão é um ser humano que se propõe a lançar talvez o último clamor que será ouvido por alguém que pensa em acabar com a própria vida. Causa perplexidade saber que muitos jovens estudantes têm pensamentos suicidas e chegam ao ato final.

Estudos parecem indicar que o número de suicídios tem aumentado neste período de isolamento social. Estar somente consigo, às vezes, faz a pessoa bater à porta da casa da insuportabilidade da vida. Porém, estar só num mundo de redes sociais é um fenômeno verdadeiramente paradoxal.

Na modernidade, o suicídio de alguém eclode como uma derrota para as pessoas que gravitavam em torno daquele que se foi. Mergulham no desconfortável sentimento de culpa. A incompetência para resgatar alguém próximo, afundado da desesperança. Disse um psicólogo comportamental que o suicídio assemelha-se a um distrato com Deus, assim estruturado: Se Deus não me deu a vida que eu queria, então não quero a que ele me deu”. A teoria não satisfaz, porque a maioria não tem a vida que deseja.

Nossa era caracteriza-se pelo fato de esperarmos mais da tecnologia do que de outro ser humano. A informática nos causa a ilusória sensação de estarmos com muita gente. Ficamos conectados, mas estamos cada vez mais sós. Nas palavras do cientista do Sherry Turkle, do MIT, o infinito da conexão projeta amigos, amantes, parentes e crianças para uma nova, instável e desconhecida dimensão da solidão. A solidão deprime. A depressão é também um caminho que conduz ao suicídio.

Algo está errado. Pessoas que vivem sob uma ponte ou um viaduto não demonstram propensão ao autoextermínio. Doentes terminais lutam como tigres, sedentos por mais alguns minutos de vida, entretanto, jovens, cercados de todo um conforto e segurança de um lar, suicidam.

Há muitas perspectivas para o suicídio ao longo da história da civilização: um ato de coragem, uma forma de resgatar a honra da família, a preservação da honra militar, uma vergonha, um pecado ou um simples ato de desespero. A insuportabilidade do destino que se desenhara levou ao suicídio Cleópatra, Hitler e Getúlio Vargas, dentre muitos exemplos da história. Contudo, isso não explica a questão do suicídio de uma pessoa jovem.

O fenômeno foi abordado por Freud em vários escritos. Destaco o artigo publicado em 1910, em Viena, concernentes aos alunos da escola secundária, no qual o psicanalista diz:...a escola secundária toma o lugar dos traumas com que outros adolescente se defrontam em outras condições de vida. Mas uma escola secundária deve conseguir mais do que não impelir seus alunos ao suicídio. Ela deve lhes dar o desejo de viver e devia lhes oferecer apoio e amparo numa época a vida em que as condições de seu desenvolvimento os compelem a afrouxar seus vínculos com a casa dos pais e com a família”.

Acho que as nossas faculdades, hoje lugar de muitas pessoas jovens, também deveriam caminhar nesse mesmo sentido.

* Advogado - Articulista. Professor da Fadipa / professorjorge1@hotmail.com
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