Precisamos de mentes sãs

Maria Inês Vasconcelos *

A era da tecnologia e das incertezas se tornou o grande palco da vida. Vivemos em um mar de novidades e fatos inesperados, de modo que, mais do que nunca, nossa vida está marcada pela necessidade de adaptação.

As empresas, por sua vez, deveriam acompanhar todas essas mudanças que vêm ocorrendo na sociedade, incorporando-as como fator estratégico em face das exigências do mercado cada vez mais competitivo. É preciso preservar a mão de obra. Os trabalhadores são as principais vítimas de todos esses percalços e sofrem ainda mais em face de sua vulnerabilidade econômica e social.

A realidade, no entanto, se apresenta diferente. As empresas tornaram-se impiedosas nesse período de pandemia e sem nenhuma harmonia entre a gestão e a esfera da humanidade têm largado em disparada na captura de resultados perdidos. O trabalhador, sem fôlego, tem que ser um maratonista nessa corrida desenfreada.

Ao contrário do que era de se esperar, a adaptação à nova realidade, que deveria ocorrer de forma gradativa, deveria incluir a mão de obra, afinal, o maior patrimônio da empresa são as pessoas e o conhecimento.

Contudo, não é isso que temos visto por aí. Completamente descompromissadas com a relação de trabalho - que, diga-se, sempre deve se pautar pela ética, dignidade e sustentabilidade -, as empresas promovem um verdadeiro massacre com a política de metas e recuperação de resultados, que se tornaram marca das políticas internas de grande parte das organizações.

Resultado disso é o maior número de empregados adoecendo em razão da sobrecarga psíquica imposta no ambiente de trabalho. O abalo psicológico é tão grande que se estabeleceu uma tribo de "psiquiatrizados". E, por incrível que pareça, os sintomas narrados por esses trabalhadores vão muito além da depressão ou Síndrome Burnout. A comorbidade certamente é enorme, e essas doenças "conversam entre si", como ocorre entre a ansiedade o Pânico e a depressão com o Burnout.

No entanto, há trabalhadores trazendo relatos de sintomas que não se encaixam nessas clássicas patologias, exigindo um grande empenho dos psiquiatras no tratamento. Não é um ou dois que vivem por aí com ideação suicida e que não reagem a tratamentos convencionais, o número é considerável dentro da sociedade brasileira.

Esse fenômeno reforça a necessidade de pensar nessas novas ondas, sejam elas tecnológica, pandêmica ou da própria crise do capital. Alguém decerto terá que pagar a conta, mas, repassar para os empregados todo custo e fracasso do capitalismo que já não encontra forças para reagir, não é a melhor solução. Ademais, a Reforma Trabalhista já ceifou direitos positivados e a previdenciária retardou a aposentadoria.

É por isso que urge a necessidade de repensar a qualidade do ambiente laborativo da contemporaneidade. As empresas precisam reagir, mas não podem dar saltos que sejam tão altos que colidam com o fator humano, os direitos da personalidade e que, sobretudo, provoquem lesões no aparato psicológico dos trabalhadores. A pressão não pode ser repassada com tanta intensidade para o colo daquele que, nesse momento, é o mais acossado. É preciso transcender a essa cultura rasa que nos impede de questionar os limites dessa posição estrutural adotada nas empresas.

A Constituição Federal aponta o primado do trabalho como base da Ordem Social (art. 193). Os valores sociais do trabalho, ao lado da dignidade da pessoa humana, representam um dos fundamentos do Estado democrático de direito em que se constitui o Brasil (CF, art. 1°, III e IV). A Carta Magna destaca, com ênfase, o conteúdo ético do trabalho humano. Ela não se limita a garantir o mínimo, que é justamente assegurar ao trabalhador benefícios de ordem material (art.7°), mas garante também os chamados direitos personalíssimos, subjetivos e imateriais e, sobretudo, o direito à vida, o maior de todos.

William Graham Sumner, já dizia que "a indústria pode ser republicana, entretanto, jamais será democrática". A submissão que leva à escravidão mental realmente é antidemocrática, é a posse da mente, talvez a pior das posses. Há realmente que se fazer uma parada, vivenciamos um fenômeno de enorme gravidade.

"Psiquiatrizar" trabalhadores e levá-los à exaustão mental é um verdadeiro crime, e uma diretriz empresarial, que por ação ou omissão, ultrapassa os limites do poder regulamentar do empregador e promove um atentado à liberdade, principalmente, do ponto de vista psicológico. Convém, ainda, destacar que, no fim das contas, o feitiço se voltará contra o feiticeiro, afinal não teremos somente sobrecargas no INSS, e sim carreiras ceifadas. Há muita gente competente e que atua estrategicamente nas soluções empresariais afastadas. Reter talentos e conhecimento é hoje o desafio. Conhecimento vale muito. E é por isso que precisamos de boas cabeças, sãs, e não o contrário.

* Advogada, especialista em direito do trabalho, professora universitária, escritora
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Comentários

Tião Aranha 11 de agosto, 2020 | 21:32
Corpus sanus in mena sana. Na questão jurídica versus sobrevivência humana falta visão maior de argumentação da nossa CF em relação a Constituição americana. O que exigirá muito do poder judiciario como vem ocorrendo. Hoje até os advogados principiantes necessitam acompanhamento psiquiátrico tamanha a pressão social que enfrentam. Porque o nosso processo de industrialização começou de maneira errada, o voto dos trabalhadores rurais não tem o mesmo peso político de cinquenta anos atrás. Falta reforma politica muito dependente da justiça eleitoral estritamente federal. O país gasta mais com funcionários públicos do que com a saúde. Faltam as reformas e controle da pandemia além de falta de saneamento básico e outras reformas. Questão de ordem cultural, política e social.

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