“Aprendi com a Cloroquina que somos um povo com muita fé, mas pouco politizado quanto à proposição de formas conscientes de agir e pensar“
A pandemia tem exigido de nós alguns reposicionamentos. Entre o “seguir em frente ou parar”, sussurrando em nossos “acertos e erros”, e muito perto das nossas “perdas e ganhos”, a dicotomia me parecer ser uma das expressões que mais batem e rebatem em nossa tentativa de compreender como a dinâmica das coisas estão funcionando atualmente. Só para contextualização, “dicotomia” é quando vemos um todo em apenas duas partes: tudo pertence, ou a uma parte, ou a outra e de maneira exclusiva (nada pode pertencer simultaneamente a ambas as partes). Não é de se assustar que o pensar de modo dicotômico seja algo tão comum, pois já sabemos que o nosso comportamento é convencionado (desde criança) a sistemas sociais e morais que nos encucam a viver na identificação de “certo ou errado” o tempo inteiro... E normalmente é assim que a gente percebe que se transformou: quando o certo passa a ser errado, ou vice-versa.
Quem nunca sentiu dentro de si uma modificação assim? É nesse processo do pensar dicotômico que, de maneira bem sutil, entra a fé. Eu gosto muito da clássica definição para o termo proferida pelo Apóstolo Paulo (ou São Paulo): “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Vou me apegar a ela para dar um salto secular a um caso especial: o uso da Cloroquina como medicamento “pró-Covid19”.
Proibida pelo FDA para protocolos hospitalares nos EUA (o que fará um médico de lá pensar duas vezes antes de aplica-la em um receituário comum), esta droga obteve recentemente mais um atestado de ineficácia com a recente publicação (em 23 de julho recente) no New England Journal of Medicine pela "Coalizão Covid 19", formada pelos hospitais Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa de São Paulo, BCRI-Brazilian Clinical Research Institute e a Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva.
Não seria necessário lembrar que estas instituições são respeitadíssimas, e que são usadas tanto por nós (cidadãos comuns) quanto por celebridades, e até presidentes, como referência “padrão ouro” em casos crônicos de saúde.
Porém, considerando a chuva dos depoimentos pontuais de repetidos médicos dizendo (por experiência empírica) que a Cloroquina funciona, temos um contraponto dicotômico: Se os melhores rótulos hospitalares do nosso país, com ciência e estudo, apontam que o medicamento é ineficaz, por que ficamos em dúvida diante dos depoimentos pontuais, individuais e virais de alguns médicos, que circulam nas mídias sociais?
A minha percepção é de que o assunto virou uma questão de fé. Estamos cotando os dias para que a pandemia acabe, e enquanto isto não acontece, é natural que tenhamos necessidade de acreditar esperançosamente em alguma solução para aquilo que ainda não temos concretamente, e que tanto nos assola.
Por ter crescido entre práticas religiosas, sei bem que, quando “fé” é discutida maciçamente entre grupos sociais em postura de combate, o assunto passa a ser de ordem política: lados divergentes tentam sobrepor suas posições quanto à sua crença para estabelecer liderança, organização e direção das pessoas e grupos. Esta é uma questão dicotômica que ainda não acabará na política “enfezada” das sociedades (tomo o vocábulo para um novo sentido, como o que de algo cheio da “fé natural das pessoas”). Com isso não quero fazer juízo de valor sobre quem está certo ou errado, tão pouco desmoralizar espiritualidades e culturas, condutas de líderes sociais ou até mesmo de mandatários políticos. Apenas aponto para a direção pessoal de que, se a fé natural das pessoas aparece como combustível alternativo para decisões em elementos dicotômicos sociais, será inevitável que o tema assuma também uma conotação de cenário político, por causa do jogo pelo poder. Pare e pense um pouco no cenário de nosso país e em tudo o que leu aqui. Talvez você perceberá o mesmo que eu: aprendi com a Cloroquina que somos um povo com muita fé, mas pouco politizado quanto à proposição de formas conscientes de agir e pensar diante dos problemas reais da nossa tão dicotômica vida social... ou será o contrário?
* Professor corporativo e universitário, especialista em gestão pública e empresarial, engenharia e inovação.