A dicotomia da fé, na ótica da cloroquina

Diogo Almeida Boy Barbosa *

“Aprendi com a Cloroquina que somos um povo com muita fé, mas pouco politizado quanto à proposição de formas conscientes de agir e pensar“

A pandemia tem exigido de nós alguns reposicionamentos. Entre o “seguir em frente ou parar”, sussurrando em nossos “acertos e erros”, e muito perto das nossas “perdas e ganhos”, a dicotomia me parecer ser uma das expressões que mais batem e rebatem em nossa tentativa de compreender como a dinâmica das coisas estão funcionando atualmente. Só para contextualização, “dicotomia” é quando vemos um todo em apenas duas partes: tudo pertence, ou a uma parte, ou a outra e de maneira exclusiva (nada pode pertencer simultaneamente a ambas as partes). Não é de se assustar que o pensar de modo dicotômico seja algo tão comum, pois já sabemos que o nosso comportamento é convencionado (desde criança) a sistemas sociais e morais que nos encucam a viver na identificação de “certo ou errado” o tempo inteiro... E normalmente é assim que a gente percebe que se transformou: quando o certo passa a ser errado, ou vice-versa.

Quem nunca sentiu dentro de si uma modificação assim? É nesse processo do pensar dicotômico que, de maneira bem sutil, entra a fé. Eu gosto muito da clássica definição para o termo proferida pelo Apóstolo Paulo (ou São Paulo): “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Vou me apegar a ela para dar um salto secular a um caso especial: o uso da Cloroquina como medicamento “pró-Covid19”.

Proibida pelo FDA para protocolos hospitalares nos EUA (o que fará um médico de lá pensar duas vezes antes de aplica-la em um receituário comum), esta droga obteve recentemente mais um atestado de ineficácia com a recente publicação (em 23 de julho recente) no New England Journal of Medicine pela "Coalizão Covid 19", formada pelos hospitais Albert Einstein, HCor, Sírio-Libanês, Moinhos de Vento, Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa de São Paulo, BCRI-Brazilian Clinical Research Institute e a Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva.

Não seria necessário lembrar que estas instituições são respeitadíssimas, e que são usadas tanto por nós (cidadãos comuns) quanto por celebridades, e até presidentes, como referência “padrão ouro” em casos crônicos de saúde.
Porém, considerando a chuva dos depoimentos pontuais de repetidos médicos dizendo (por experiência empírica) que a Cloroquina funciona, temos um contraponto dicotômico: Se os melhores rótulos hospitalares do nosso país, com ciência e estudo, apontam que o medicamento é ineficaz, por que ficamos em dúvida diante dos depoimentos pontuais, individuais e virais de alguns médicos, que circulam nas mídias sociais?

A minha percepção é de que o assunto virou uma questão de fé. Estamos cotando os dias para que a pandemia acabe, e enquanto isto não acontece, é natural que tenhamos necessidade de acreditar esperançosamente em alguma solução para aquilo que ainda não temos concretamente, e que tanto nos assola.

Por ter crescido entre práticas religiosas, sei bem que, quando “fé” é discutida maciçamente entre grupos sociais em postura de combate, o assunto passa a ser de ordem política: lados divergentes tentam sobrepor suas posições quanto à sua crença para estabelecer liderança, organização e direção das pessoas e grupos. Esta é uma questão dicotômica que ainda não acabará na política “enfezada” das sociedades (tomo o vocábulo para um novo sentido, como o que de algo cheio da “fé natural das pessoas”). Com isso não quero fazer juízo de valor sobre quem está certo ou errado, tão pouco desmoralizar espiritualidades e culturas, condutas de líderes sociais ou até mesmo de mandatários políticos. Apenas aponto para a direção pessoal de que, se a fé natural das pessoas aparece como combustível alternativo para decisões em elementos dicotômicos sociais, será inevitável que o tema assuma também uma conotação de cenário político, por causa do jogo pelo poder. Pare e pense um pouco no cenário de nosso país e em tudo o que leu aqui. Talvez você perceberá o mesmo que eu: aprendi com a Cloroquina que somos um povo com muita fé, mas pouco politizado quanto à proposição de formas conscientes de agir e pensar diante dos problemas reais da nossa tão dicotômica vida social... ou será o contrário?

* Professor corporativo e universitário, especialista em gestão pública e empresarial, engenharia e inovação.
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Comentários

Tião Aranha 01 de agosto, 2020 | 13:43
Sobre essa pandemia do Corona-, depois de 5 dias de febre pensando ser um resfriado ou uma gripezinha qualquer fui numa dessas UPAS aí de prefeitura, falou que tinha de esperar mais sete dias pro resultado, no mesmo dia desmaiei e fui parar no hospital indo direto pruma UTI com os pulmões já tomados de pneumonia. O que tá acontecendo é isso: quando chega no hospital já não tem mais nada o que fazer, principalmente quando se tem doença mórbida. Ao passo que, se 50% da população tivesse feito do teste de secreção do nariz, tal qual na China, tais complicações não aconteceriam, /doença que a medicina desconhece seu total desenvolvimento/. A Ciência está acima da Fé, ou qualquer ideologia política. Vamos tirar proveito de todas as aprendizagens.

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