Por que Rio e São Paulo já estão reabrindo, mas Minas não?

William Passos *

João Ferrão, um dos maiores geógrafos portugueses, afirma que a disseminação do novo coronavírus depende do grau de exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade dos territórios. Essas diferenças explicariam porque países, regiões dentro de cada país e continentes têm sido atingidos de maneira diferenciada pelo Sars-CoV-2. A África, por exemplo, tem registrado baixíssimos casos de contaminação e uma das explicações é exatamente a elevada pobreza, que faz com que o continente seja o menor destino dos voos internacionais, justamente o principal vetor de transmissão da pandemia na etapa inicial. Todos devem se recordar da grande preocupação do governo federal, em janeiro, ao repatriar os brasileiros que ainda estavam em Wuhan, grande metrópole chinesa que havia se transformado no principal epicentro de transmissão da doença àquela altura.

A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, aponta que a disseminação dos contágios e o controle sobre o número de infectados e mortos dependem, fundamentalmente, da coordenação dos governos, da colaboração da população e da capacidade de absorção dos sistemas de saúde. Evidentemente, principalmente no caso dos países subdesenvolvidos, o acesso à assistência médico-hospitalar, à água potável e saneamento básico (que não estão disponíveis para uma quantidade importante da população) também são fatores importantíssimos para explicar o número de infecções.

Não entrando na questão do equívoco de se autorizar a abertura de atividades não essenciais num momento em que o número de contágios ainda está subindo, há um outro importante fator a ser destacado que é a temporalidade, isto é, a fase em que cada lugar se encontra em relação a pandemia. Devido a presença de aeroportos internacionais, e consequentemente ao maior grau de abertura ao exterior, as grandes metrópoles experimentaram o início das contaminações primeiro. Na sequência, as infecções se espalharam por outras grandes cidades brasileiras, principalmente capitais.

Outro ponto a ser destacado é o fato dessas cidades coincidirem justamente com aquelas localizadas no litoral, que concentra a maioria da população brasileira. Naquele momento, enquanto São Paulo e Rio de Janeiro já exibiam números assustadores, Belo Horizonte e as cidades mineiras ainda apresentavam números confortáveis. Romeu Zema e prefeitos atribuíam os baixos números a um suposto mérito de seus governos, quando, na verdade, a explicação estava na posição geográfica dentro do território brasileiro.

Um mapa desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal do Estado do Espírito Santo (Ufes) e do Instituto Adolfo Lutz identificou as grandes rodovias como o principal eixo de transmissão da covid-19 em direção ao interior. No caso da Região Norte, pelo grande uso dos rios como meio de transporte, a contaminação foi levada também pelas embarcações. Com menos de 90 dias, o que significa uma velocidade muito grande, o coronavírus já tinha alcançado os lugares mais isolados e carentes de assistência médica do Brasil, como, por exemplo, as comunidades indígenas.

Acompanhando esse movimento, as cidades mais ao interior de Minas Gerais e as duas regiões metropolitanas (Belo Horizonte e Vale do Aço) passaram a observar repentinamente um crescimento do número de casos que a Matemática chama de logarítmico. É por isso que Rio e São Paulo já estão reabrindo nesse momento, mas Minas não. Os próximos 15 dias, porém, é que vão nos indicar o tamanho do equívoco cometido pelos dois estados mais ricos da federação. Maus exemplos não devem ser imitados por governadores e prefeitos.

* Geógrafo, doutorando pelo IPPUR/UFRJ e colaborador do Jornal Diário do Aço. Email: geograwilliam@gmail.com
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