O título saiu pela culatra

Para ser ministro não é preciso ter títulos. É preciso saber administrar e ser moral. Não é preciso nem ser intelectual é preciso saber gerenciar, ter jogo de cintura, capacidade para liderar. O simpático e carismático, Carlos Alberto Decotelli, agora, ex-ministro da Educação, tinha tudo para arrebentar.

O problema todo se assenta no campo da ética e da moral. E é claro, passa pela falácia do sistema que mede conhecimento por títulos, mas que vigora e é a regra do jogo no metiê acadêmico. Pois bem, o ministro se dizia intelectual, e aqui se abre parêntese, pois ninguém pode se auto- instituir como tal.

Um intelectual não liga para títulos, ele dedica-se muito mais a uma missão. Uma missão de cultura, de humanidade e de contribuição, e se neste caminho vierem os louros, inclusive, os títulos, isso ocorre com naturalidade. Os saberes nunca estiveram apenas em títulos, malgrado haja um frenesi em torno deles e uma busca desenfreada por esses artificialismos muitas vezes, só vaidosos e algumas vezes narcísicos. O mal- estar que sufoca esta nação é a de saber se o ministro tinha recursos necessários para atuar na pasta, como ministro da Educação. Até aí teria, pois parece que é um grande técnico, um líder, mas, infelizmente foi vítima de um conflito moral.

Apesar de sabermos que metade dos currículos do mundo são cheios de maquiagem, ninguém sai por aí querendo ser ministro, arrimando-se nesses títulos. O ministro é escolhido pelos seus atributos e não pelos títulos. Mas quando se trata de educação, a coisa muda um pouco de figura.

A discussão passa então para o campo da ética. Reabre-se a caixa de pandora dos títulos e do plágio e reacende a discussão em torno do sistema educacional brasileiro, que mede saberes e competências pelos títulos, arrimado numa grande ilusão e na ideologia da exclusão e compartimentalização do conhecimento. Os donos de títulos, no sistema atual, têm domínio físico, ético e cultural, dos saberes.

Estabeleceu-se no metiê acadêmico verdadeira disputa pelos títulos, porque nós mesmos crivamos este sistema, e o ministro também. Mas há um grande número de intelectuais que não tem título algum e são verdadeiras sumidades. Gente que atua em vários campos dos saberes, com uma bagagem técnica enorme, sem diagnóstico de presunção e narcisismo. Gente que não tem mestrado e nem doutorado, mas que estão mergulhados no conhecimento. O mundo é cheio de mitos e só se sabe alguma coisa a partir de títulos. Isto não é verdade. É um dos piores erros.

Mas é preciso aqui achar um metaponto, eis que não estamos discutindo se o ministro tem ou não capacidade de saber e compartilhar saberes. A questão está na salvaguarda da ética de seu propósito. Infelizmente, existe uma arena aonde o homem não pode ser mais do que é. Ainda que ele seja um intelectual poli competente, ele não pode se afastar da ideia de Justiça, verdade e da moral. O ministro era parte da engrenagem que chancela o sistema que mede conhecimento em títulos. Essa é a regra do seu jogo. Dessa forma, não cabe ao ministro que é e sempre fez parte da comunidade que crivou tais métodos, burlá-lo. Seria corromper as ideias que o salvaguardaram. Claro, deve ser um grande homem e repito, é uma figura linda, realmente cativante. Mas o ministro errou e o título saiu pela culatra.

* Advogada, palestrante, pesquisadora e escritora
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Comentários

Helena A.nogueira 04 de julho, 2020 | 19:06

JAMAIS PODERIA FICAR COM NO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.
INICIOU COM MENTIRAS .FOI IRRESPONSÁVEL .AINDA BEM QUE DESCOBRIRAM A TEMPO.
Helena 01 de julho, 2020 | 22:12
País que já teve um presidente sem diploma.Pode ter ministro sem graduação..
Tião Aranha 01 de julho, 2020 | 18:01
Mentira tem perna curta. Intelectual é aquele que mostra pro pobre o tamanho da exploração. Joãozinho Trinta, carnavalesco, dizia que pobre gosta é de luxo. Intelectual gosta mesmo é de miséria, de sofrimento. O país está pagando muito caro, agora até com a vida, pelo fato de não ter investido numa Educação de Qualidade-, mas de arrependidos o inferno tá cheio.

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