Por que o Brasil deverá ser um dos últimos a sair da pandemia?

William Passos *

Os meses de junho e julho deverão ser marcados, no Brasil e em outras partes da América Latina, pelo início (ou pelo menos a tentativa) do retorno das atividades fora de casa. Entretanto, há um aspecto que diferencia o Brasil dos países que iniciaram o desconfinamento neste mês de maio: enquanto a maioria dos países europeus, dos estados americanos (estados dos Estados Unidos) e do Japão, por exemplo, decidiram retomar suas atividades quando o número de infectados e de mortos já havia iniciado uma trajetória de declínio, o Brasil (a não ser que tenhamos uma piora da nossa situação, já muito ruim) decidirá reabrir suas atividades num momento em que as infecções e mortes ainda estarão aumentando e se espalhando pelo território (mostra disso é o que observamos no interior de Minas, onde muitas cidades só começaram a registrar as primeiras mortes ou infecções nos últimos dias).

Esta posição, por sua vez, que coloca o Brasil ao lado da Índia e de outros países não por coincidência subdesenvolvidos (isto é, países com atraso científico e educacional), poderá retardar a saída da pandemia, introduzindo-nos no pesadelo profundo de um ano completamente perdido, com o retorno presencial das atividades escolares, por exemplo, somente em 2021. Assim, a atitude negacionista do governo federal, que abandonou os governos estaduais e municipais desde o início, obrigando-os a agir individualmente diante da pandemia, além de não salvar a economia, não preservando os lucros das empresas nem os empregos dos trabalhadores, aprofundará ainda mais a nossa crise, ameaçando-nos, inclusive, da possibilidade de um cenário de colapso social, criado pela combinação entre insatisfação crescente e necessidades urgentes dentro de casa.

Sabemos que a postura negacionista do governo federal, liderada pelo Presidente da República, que atribui a opinião de histeria às recomendações de distanciamento social da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de associações médicas do mundo todo, está alinhada ao de outros líderes da “nova direita” mundial, como Donaldo Trump (presidente dos Estados Unidos) e Boris Johnson (primeiro-ministro britânico). Entretanto, sabemos também que o Brasil não possui a mesma estrutura de saúde pública e menos ainda a mesma capacidade financeira para investir pesado no desenvolvimento de um tratamento ou vacina enquanto as atividades são mantidas normalmente, sem confinamento.

Ainda assim, perante a hecatombe do aumento do número de casos em seus países (incluindo a infecção do primeiro-ministro britânico, que chegou a ficar hospitalizado), Trump (menos) e Johnson (mais) foram convencidos a seguir as orientações da OMS e mudaram de posição em março, reconhecendo a necessidade das pessoas ficarem em casa e investindo maciçamente no aumento de testes e no desenvolvimento de uma vacina.

Enquanto tudo isso acontecida, o Brasil trocou de ministro da saúde duas vezes pelo fato de ambos, que são médicos experientes e bem formados, seguirem a medicina, que discorda do Presidente da República, que, fato relevante, não é médico, mas militar de baixa patente com curso de paraquedismo.

Nesse momento, quando o Brasil é o segundo colocado em número de infectados por covid-19 no planeta, quem assume o Ministério da Saúde é um militar especializado em acolhimento, transporte e distribuição de pessoas.

Com a saúde abandonada, os cemitérios têm dificuldades para acolher, transportar e distribuir novos corpos, que, sem direito a velório, estão sendo sepultados como indigentes. Para quem busca uma resposta sobre o motivo da nomeação do novo ministro da saúde, deixo uma sugestão.

* Geógrafo, doutorando pelo IPPUR/UFRJ e colaborador do Jornal Diário do Aço. Email: geograwilliam@gmail.com
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Comentários

Alex Barcelos 08 de junho, 2020 | 12:05
É difícil vislumbrar uma melhora. Estamos caminhando para mais tempo na epidemia e mais problemas estruturais.
Marcos Oliveira 03 de junho, 2020 | 12:26
O pai do negacionismo é o Presidente da República e tem que colocar na conta dele a situação. Em nenhum momento o Presidente em suas andanças orientou o uso de máscara, medidas protetivas a população. Pelo contrário, minimizou a pandemia o tempo todo, falou que já estava passando, quando nem começado ainda estava a subida forte da covid 19. Preocupado apenas com reeleição.

Deixou o país sem comando atual capacitado na saúde, aqueles que queriam trabalhar o PR foi na contra-mão da orientação científica e dos seus ministros de saúde.

O chefe do executivo federal demonstra total incompetência para gerir a crise do virus, da mesma forma que demonstra total incapacidade de fazer a gestão administrativa e política do Brasil.

O correto é DEUS ACIMA DE TUDO e não um país ou um governante. Blasfemou desde o início. Tudo mal começado é mal terminado. Transformou o Bolsonarismo é uma Seita. Os que perceberam abandonaram o barco.
Tião Aranha 02 de junho, 2020 | 16:52
Atraso.

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