Causos p'o tempo passar IV

José Edélcio Drumond *

Lá na Hematita, onde o Judas não perdeu a bota, acontecem coisas do arco da velha, peço licença para dar as notícias assim: O coronel José Paulino ia casar a sua filha que estava encravada há muito tempo e para mostrar a sua alegria preparou uma festa de arromba. Chamou as doceiras mais famosas da região, elas passaram mais de uma semana fazendo doces de todas as espécies.

Mandou separar umas dez cabeças de bois gordos, cevar mais de quinze porcos e para os frangos mandou construir um novo galinheiro.

Foi pessoalmente ao maior atacadista da região e fez a maior compra já vendida pela firma. Mandou fazer um terno de “gaze mira inglesa”.

A dona Adélia chamou as costureiras famosas e lá passaram semanas costurando para toda família e para os trabalhadores da fazenda.

O convite foi feito num folhetim, igual aqueles de aviso de falecimento e tinha como título: CONVITE PARA A POPULAÇÃO EM GERAL.

Chegou o dia e de véspera havia chegado o Monsenhor Manoel Carlos enviado pelo Bispo, e quase na hora do casamento de “teco-teco” desceu no estádio o Intendente do Estado.

Foram a banda de música, os sanfoneiros, os batuqueiros, o foguetório e o Coronel que recepcionaram as autoridades.
O monsenhor, sentindo o cheiro das comidas e do churrasco, apressou-se em ir esperar os noivos no altar, estando este todo enfeitado de lírios brancos e girassóis.

Entrou o noivo, e lá vem os padrinhos da noiva, todos aprumados e com destaque para o Intendente de braço com a Dona Adélia.

Já na porta da igreja o Coronel ao lado de sua filha vestida de branco com véu e grinalda, a banda do lado de fora, deu os primeiros acordes do Hino Nacional e o par começou a andar rumo ao altar. O público de pé, cheio de curiosidade de como estava a noiva e seu vestido.

As mulheres cochichavam sobre o vestido, uma achando a coisa mais bonita do mundo, outras o consideravam uma marmota.

Chegou a hora, e foi perguntado ao noivo se aceitava a Esmeralda como sua esposa, ele gritando respondeu o SIM e a igreja quase veio abaixo.

Dirigiu-se à Esmeralda e fez a pergunta de praxe, e ela respondeu baixinho NÃO e ele perguntou mais três vezes, e ela respondeu em voz um pouco mais alta: NÃO e NÃO.

Um silêncio sepulcral dominou todo ambiente interno, e o público que estava do lado de fora invadiu a igreja, quase provoca um tumulto, pois além de assustados estavam curiosos com o que havia acontecido.

Para a sacristia rumaram com o celebrante, pais e a noiva e ela confessou o problema, pois de manhã ela havia recebido uma carta da mãe de três filhos do noivo, inclusive certidões de nascimentos e fotos.

A cerimônia que mal havia começado, deu-se por encerrada, e o Coronel de braço dado com a filha saiu e bastou descer um degrau da escada, sacou do seu 38 e deu seis tiros para o alto e gritou: A FESTA ERA PARA DURAR TRES DIAS E AGORA VAI DURAR UMA SEMANA.

E os convidados já famintos, foram para a festa e lá comeram e dançaram seguindo todas as ordens do Coronel Zé Paulino. Depois de cinco dias de festa, a filha viveu muitos e muitos anos e continuou encravada até a morte.

* Advogado e empresário
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