Por que novas pandemias podem acontecer?

William Passos *

“Pandemias podem se converter em eventos extremos, que surgem sem que estejamos preparados para enfrentá-los e com riscos sistêmicos”

Ao contrário do que o presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, afirmou em alguns momentos, ao chamar o coronavírus de “vírus chinês”, a pandemia de covid-19 é um produto muito mais do tipo de mundo criado com a ajuda dos EUA do aquele gerado pelo fortalecimento da China. Isso porque os EUA, durante quase todo o século XX, foram o principal difusor pelo mundo de uma organização social e econômica chamada capitalismo, enquanto a China optou por um modelo, na prática, conhecido como comunismo ou socialismo. No capitalismo, as sociedades se organizam em torno da economia de mercado, com empresas que surgem livremente, concorrem e, quando vencem, se agigantam espalhando filiais por todos os continentes.

Para que estas empresas obtenham êxito, no entanto, é necessário que elas consigam superar as barreiras do comércio exterior, isto é, das relações comerciais entre os diferentes países. Graças ao casamento entre a disposição destas empresas em investirem em novos mercados e o interesse de diferentes países em atrair estes investimentos, o comércio exterior alcançou um patamar jamais visto na história, ao longo do século XX. Com isso, estabeleceu-se uma profunda integração entre os mercados internacionais, com uma intensa circulação de mercadorias, capitais, aviões, navios, informações e pessoas. Os fluxos turísticos alcançaram dimensão planetária e os aeroportos internacionais se tornaram locais de grande trânsito de pessoas.

Assim, estabeleceu-se a chamada globalização, a integração de todo o espaço geográfico planetário, que não se dá apenas no comércio internacional, mas também nas finanças (bolsas de valores), na cultura (adoção do inglês como língua geral e de comportamentos como tomar Coca-cola, comer batatas fritas e vestir jeans), nos transportes (linhas aéreas internacionais) e na relação das sociedades com a natureza (problemas ambientais como o aquecimento global). Com isso, diferentemente do que acontecia em outros momentos da história, uma epidemia (disseminação de uma doença numa região ou país) pode se transformar numa pandemia (difusão de uma doença por alguns continentes ou o mundo todo).

É por isso, como sugere o geógrafo português João Ferrão, professor da Universidade de Lisboa, que pandemias podem se converter em eventos extremos (surgem sem que estejamos preparados para enfrentá-los) e riscos sistêmicos (ocorrem de forma cada vez mais frequente, numerosa e intensa), assim como alguns fenômenos naturais, como tsunamis, furacões, erupções vulcânicas, terremotos e chuvas com intensidade acima do normal.

Em 2003 e em 2015, o mundo assistiu a outras duas pandemias. A primeira, a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave). A segunda, a gripe aviária. Nos dois casos, somente uma parte do mundo, em especial a Ásia, foi atingida. Na atual pandemia de coronavírus, todos os cinco continentes habitados foram afetados. Parte da explicação para isso recai justamente no fato de que agora, em 2020, os continentes estejam muito mais integrados e num processo que só tende a se aprofundar, o que significa que muito provavelmente o covid-19, a primeira pandemia da globalização, inaugurará uma era em que novas pandemias poderão acontecer.

Tão perigosas quanto as pandemias, porém, são as infodemias, isto é, a difusão de notícias falsas por redes sociais e grupos de Whatsapp, particularmente as notícias falsas que envolvem a saúde das pessoas. Daí a importância de buscarmos sempre informações produzidas pelos jornalistas, profissionais preparados e especializados no tratamento e na divulgação da informação.

* Geógrafo, doutorando pelo IPPUR/UFRJ e colaborador do Jornal Diário do Aço. Email: geograwilliam@gmail.com
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: falecomoeditor@diariodoaco.com.br

Comentários

Tião Aranha 19 de maio, 2020 | 16:54
A Natureza é pensada como um grande Todo Vivente, articulado e relacionado pelas formas variadas da 'Semelhança', que pode ser exprimida na frase de Giordano Bruno: "A Natureza opera a partir do Centro". Entender esse ponto de equilíbrio e esses mistérios naturais é desafio de todos nós neste Universo material e espiritual ao mesmo tempo.

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

ENVIE O SEU COMENTÁRIO