A amnésia nacional sobre a escravidão

Marcelo Campos Neto *

No dia 13 de maio completou 132 anos que a princesa Isabel assinou a lei que aboliu a escravidão após mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil. Entretanto, a data passou em brancas nuvens, sem alarde. Na prática, o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão. Sancionada pela princesa Isabel no dia 13 de maio de 1888, a lei saiu muito curta, muito pequena, muito conservadora, como muito bem pontou a historiadora Lilia Moritz Schwarcz em uma brilhante entrevista publicada pela BBC Brasil.

A linha do tempo mostra que o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão, uma barbaridade perpetrada para sustentar a economia do Brasil Colônia e depois, na independência. Do total de seres humanos arrancados violentamente de sua terra natal, a África, entre 38% e 44% foram trazidos para o Brasil e distribuídos por todos os estados.

Mas a abolição não foi uma “benesse” da princesa Isabel. Ela foi resultado de um processo de luta da sociedade brasileira em que setores da classe média mais esclarecida e de profissionais liberais aderiram à causa abolicionista. Paralelo a isso, os escravizados, os negros, os libertos, pressionaram muito. Promoveram insurreições que foram desde rebeliões coletivas, rebeliões individuais, suicídios e envenenamentos. Isso mesmo. Muitos preferiam morrer a viver a escravidão.

Mas Lilia Schwarcz afirma que a amnésia a respeito da escravidão no Brasil foi um processo construído e muito bem pensado. Passado um ano e meio depois da abolição caiu o Império e o regime que passou a existir tratou de inserir no Hino da República uma estrofe emblemática: "Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país". Ou seja, um ano e meio depois os republicanos afirmavam não acreditar mais que tivesse havido escravidão. Com isso foi camuflada, ao longo dos anos, a dimensão da chacina que representou o regime escravocrata.

O momento pós-emancipação não teve nenhuma preocupação com inclusão da população de ex-escravos que, de hora para outra, se viu livre, mas sem emprego, sem ter onde morar e até mesmo sem raízes para a volta aos antepassados na África. De hora para outra havia uma população sem acesso à educação, saúde, habitação e com todos os problemas estruturais possíveis e que nunca foram solucionados, mas, empurrados com a barriga.

Mas agora cabe uma indagação: Ao longo dos 132 anos seguintes à abolição o que foi feito? Muito pouco. Os afrodescendentes permaneceram jogados à própria sorte e vítimas de um racismo estrutural, que nunca foi abolido.

* Professor aposentado
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: falecomoeditor@diariodoaco.com.br

Comentários

Adolfo 18 de maio, 2020 | 06:32
Quem canta o Hino da República?

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

ENVIE O SEU COMENTÁRIO