27 de abril, de 2020 | 16:05

O ''novo normal''

Gaudêncio Torquato *

“É como se um tsunami irrompesse num momento, inundando tudo o que encontra pela frente em todos os mares do mundo”

Nesses tempos de medo e depressão, chovem platitudes e truísmos, na esteira de profetas, videntes e assemelhados que se multiplicam por todos os quadrantes: "depois da pandemia, o mundo será mais solidário", "veremos avanços nas áreas das ciências", "os países serão menos globalistas e mais protecionistas", etc.

A ciência política não escapa da inexorável tarefa de tentar descobrir os caminhos do amanhã, razão pela qual, confesso, também me inclino a fazer, vez ou outra, exercícios de futurologia. Com forte probabilidade de acertar e cometer erros.

Em praticamente todas as projeções, prega-se o advir de um mundo diferente, um planeta mais solidário no enfrentamento das crises, hipótese bastante plausível ante a constatação de que a catástrofe de uma Nação, a partir da contaminação por um vírus, atinge a todas. E a busca pela extinção de pandemias passa a ser missão de todos.

Na prospecção de hoje, tento enveredar pela trilha a que muitos têm se dedicado: como seria esse "novo normal", que pistas permitem vislumbrar mudanças de padrões, valores, atitudes, enfim, como seria este mapa do cotidiano pós-crise? Antes, é útil fazer rápida apreciação sobre a paisagem social em que se abrigou este Covid-19.

Ele se infiltra numa sociedade plena de desigualdades, diferenças culturais, modos de vida, democracias vigorosas e outras nem tanto, enormes conglomerados produtivos, economias competitivas, uma infinidade de micro e pequenos negócios, desemprego em massa, debilidade nos aparatos de defesa da saúde, competitividade, acúmulo de riquezas por parte de grupos, extrema miséria e fome.

De pronto, a inferência emerge: o impacto é diferente em núcleos, grupamentos profissionais e classes sociais. Uns sofrem mais que outros. Mas há um fio que liga todos os seres humanos: o vírus não distingue ricos e pobres, maiorais e pequenos, com a constatação apenas de que um grupo – os idosos – está mais arriscado a padecer da pandemia.

Dito isto, fica patente o susto que corre nas veias dos habitantes da Terra: como é possível um microrganismo, invisível a olho nu, um dos milhões de vírus que circula pelo planeta, desfazer da noite para o dia coisas, projetos, empreendimentos construídos com tantos esforços, alguns sendo produto de toda uma vida?

É como se um tsunami irrompesse num momento, inundando tudo o que encontra pela frente em todos os mares do mundo: pessoas, construções, empreendimentos de todos os tipos. Muitos não se salvam, mesmo buscando abrigo em estabelecimentos hospitalares, enquanto outros, com rendas e negócios arrebentados, terão de se recompor da catástrofe e recomeçar a vida.

A tragédia deixará marcas profundas em todos, mesmo espíritos imbuídos dos mais profundos sentimentos de vivência na dor e no desespero. Haverá, certamente, um olhar mais humano para as tragédias que ocorrem em todos os lados, pela ideia de que o sofrimento pode, a qualquer momento, baixar na casa de cada um. Mas a catástrofe – e o termo não parece exagerado – escancara a banalização do perigo, que viceja na corrente do medo e da morte, duas sombras que nos cercam nesses tempos angustiados.

A morte mora perto. É gritada em alto e bom som, com estoques altíssimos: 20 mil aqui, 50 mil acolá, 100 mil mais adiante. Virou número. Em tempos idos, exclamava-se: "fulano morreu". A interrogação assustada aparecia em seguida: "não diga? Quando? Por quê? Hoje, a cena mostra caminhões transportando corpos mortos para covas coletivas.

E tudo isso aprofunda nossas feridas. Certa amargura fluirá pelos nossos corações, ao lado do descrédito e da descrença nos padrões da velha política. Como a política entra aqui? Ora, pelo descalabro com que a crise foi tratada por alguns governantes. Pela falta de equipamentos básicos. Pela ineficiência dos serviços públicos, mesmo sob reconhecimento de que os profissionais da saúde foram heróis.

A sensação é a de que o Senhor Imponderável, que nos visitava em alguns períodos – ciclos de chuva e seca- (deixando até de lado sua imponderabilidade), doravante aparecerá com mais frequência. Tal constatação pode nos tornar um povo mais medroso, menos confiante, mais pessimista. A bem da verdade, eis um contraponto: "quem venceu esse demônio invisível, terá condição de vencer outros que nos atacarem". Amém.

* Jornalista, é professor titular da USP, consultor político e de comunicação Twitter@gaudtorquato
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Comentários

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Tião Aranha

27 de abril, 2020 | 21:55

“Tens razão: o futuro à Deus pertence. Acredito que o maior defeito do homem é ser um sujeito 'imediatista demais'. Certa vez a professorinha me falou que Deus dá o frio conforme o cobertor explicando até as dimensões do sofrimento; depois ela falou que todo sofrimento tem o seu limite, isto aí já é a fase do finalmente. Depois eu li essa proza nas páginas num livro dum escritor. Vejamos: Deus não dá um sofrimento que não consigamos suportar. (Que tudo vai passar). Outro dia, falou assim o Sarney, com seus quase 90 anos. É verdade. Mais do que nunca sabemos que o tempo passageiro tem levado ultimamente muita gente à seguinte Reflexão: - é preciso cortar as raízes, ir sabendo que nada é tão certo demais! É preciso saber que [a verdade] não anda tranquila, não tem mais poder...
É preciso abrir bem os olhos
para vê-la sofrendo, porque 'Ela' quer viver.”

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