Brasileiros retidos na Argentina iniciam viagens terrestres de repatriação

Depois de cumprir isolamento total por mais de 15 dias, turistas começam a fazer viagens de repatriação

05/04/2020 às 17:30
Andreia Klein
Estrangeiros retidos em El Calafate foram orientados a embarcar para Buenos Aires, onde são maiores as oportunidades de repatriação

Centenas de brasileiros permanecem retidos na Argentina por causa das medidas do governo para conter a circulação do Coronavirus. Além dos brasileiros há turistas de vários países na mesma situação. Alguns iniciaram, nessa semana, a repatriação via transporte terrestre.

Até esse domingo a Argentina, que adotou as mais radicais medidas de contenção na América Latina, tinha 1.400 casos confirmados 43 mortes atribuídas à Covid-19. A maioria dos casos é importada e foi confirmada em turistas, principalmente europeus.

O Brasil foi incluído na lista de riscos, pelas autoridades argentinas, por causa do entendimento, segundo o qual, o governo brasileiro não agiu com a eficiência necessária antes do crescimento no número de casos no país.

Em meados de março, o surgimento dos primeiros casos positivos levou prefeitos de algumas cidades argentinas a intensificar o cerco aos estrangeiros. Em seguida vieram as medidas do governo nacional. O rigor aumentou de forma gradual e sempre restringindo a circulação de qualquer pessoa. Por fim, nos supermercados em El Calafate, por exemplo, a fiscalização da polícia passou a exigir a identificação de turistas que iam fazer compras.

A liberação para ir ao mercado e para viagem de repatriação tem como requisito básico estar há mais de 15 dias na Argentina e ter cumprido isolamento total de 14 dias, o que dá direito ao alvará sanitário. Alguns estrangeiros ficaram em prisão domiciliar por mais de 15 dias.
Andréia Klein
Fiscalização: todas as cidades Argentinas estão com entradas e saídas sob vigilância intensa e viagem de repatriados foi marcada por paradas em sequência para verificação de documentos

Com aeroportos fechados para voos regulares desde o dia 20 de março, a Argentina só permite voos especiais de repatriação de europeus. O governo brasileiro ainda não mobilizou voos para repatriar cidadãos na Argentina, apenas em outros países.

Sem previsão de voos, os brasileiros que chegam a Buenos Aires em processo de repatriação têm que enfrentar outra peregrinação de ônibus até a fronteira com o Brasil, descer em Passo de Los Libres depois de nove horas de viagem, e fazer a travessia da fronteira a pé até a cidade de Uruguaiana (RS), de onde embarcam para Porto Alegre.

Na capital gaúcha são tomados voos para outros destinos brasileiros, já que entre estados já há restrição de circulação de veículos e o transporte interestadual de passageiros está suspenso.

Mais de 40 horas de viagem pela Patagônia

Nesse domingo chegou a Buenos Aires um ônibus trazendo cidadãos do Brasil, Alemanha, China, França, Holanda, além de Argentinos que passavam férias em El Calafate e El Chalten.
Desembarque na manhã desse domingo, em Buenos Aires: país austral já anunciou que quarentena pode ter fim em 13 de abril, mas fronteiras permanecerão fechadas a estrangeiros

A viagem que custou 13.400 pesos (R$ 1.116) por pessoa) foi paga por cada passageiro, durou dois dias e duas noites, quando foram percorridos 2.780 quilômetros de rodovias. No percurso, o coletivo foi parado em cada entrada e saída de cada cidade ou povoado.

O rigor na fiscalização foi praticamente o mesmo em cada província por onde a viagem de repatriação passou. A documentação era conferida em cada localidade até a chegada à capital. Os dois motoristas, que se revezavam na condução do coletivo tiveram dificuldades em parar em postos de abastecimento à beira da estrada. Quando era encontrado um posto funcionando os passageiros não podiam desembarcar, o que fez aumentar o sofrimento das pessoas de variadas idades que enfrentavam a longa jornada.

Turistas apanhados de surpresa no turbilhão da pandemia

Entre os brasileiros que viajaram a Buenos Aires no fim de semana estava o casal ipatinguense, o jornalista Alex Ferreira e a esposa, Andreia Klein, Breno Santhiago de Castro, de Goiás, Nicole Magny, do Pará, e Álvaro Machado, do Rio Grande do Sul.

"Estava aqui em viagem a passeio desde o dia 12 de março. Havia pouca coisa no mundo a respeito do Coronavirus e não imaginava que a pandemia atingiria esse nível crítico e isso fosse me colocar na condição de isolado na Argentina", afirmou Breno.
Alex Ferreira
Entrada de El Calafate: nem sequer argentinos podem passar.

Já, Álvaro, está na Argentina pela segunda vez. "O que mais incomodou foi ficar trancado, sem lugar até para comprar comidas. Além disso há a incerteza se o governo Argentino vai prorrogar a quarentena, como já prorrogou do dia primeiro de abril para o dia 13. E, ainda que não adie, não se sabe quando o turismo vai se normalizar por aqui", observou.

Nicole conta que estava em El Chalten, onde prestava trabalho voluntário no Parque Nacional los Glaciares, quando o parque foi fechado junto à rede de hospedagem por causa das medidas contra o Coronavirus deflagradas dia 15 de março.
Fila em supermercado em El Calafate: fiscalização aumentou e estrangeiros que vão fazer compras precisam se identificar.

"As dificuldades aumentaram porque não havia onde fazer câmbio. Você vai para um lugar confiando na garantia de fazer câmbio e depara com casas de câmbio com limitação de atendimento. Depois elas foram fechadas com a crise e tive que viver duas semanas com 200 pesos argentinos (cerca de R$ 17)", reclama.

O objetivo inicial do consulado brasileiro é reunir os brasileiros na capital, de onde partem ônibus especiais para outra viagem até a divisa da Argentina com o Brasil. Mais de 200 brasileiros aguardam a viagem de volta. Uma das dificuldades para a repatriação é a mudança constante nos procedimentos de autorização de saída do pais. Informações do consulado precisam ser consultadas o tempo todo na página do Consulado brasileiro em Buenos Aires.
Cerco em Buenos Aires já dura 19 dias e só podem circular pessoas com autorização expressa

Já, em relação aos argentinos que estavam no exterior, o governo portenho vetou a repatriação, inicialmente. Argentinos no exterior foram proibidos de retornar ao país, mas avisou no fim de semana que iniciou a repatriação de forma paulatina de seus cidadãos. Ao chegar à Argentina são colocados em isolamento social. Nas ruas de Buenos Aires a fiscalização do cumprimento das normas é intensa. Pessoas só podem sair uma de cada vez de casa para ir ao mercado, padaria ou farmácia.

A circulação de veículos requer a impressão de um formulário especial para justificar a necessidade de deslocamento no veículo (carro ou moto). Pelas ruas é comum encontrar carros apreendidos e com lacres nas portas escrito: "Secuestrado" (apreendido).
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