Uma loteria macabra

Marli Gonçalves *

Estranho quem ainda não acredita no poder letal do Covid-19 como se fosse - como se alguém pudesse ser - totalmente imune a ele neste momento, entre os mais terríveis da história recente da humanidade. Aposto que apostam em ficarem ricos nas loterias onde realmente a chance de ganhar é uma em muitos milhares, milhões. Nela acreditam, e até pagam por isso. A maior desgraça mundial hoje, além do vírus, é a ignorância, e que aqui no Brasil há anos contamina nossos dias.

Tenho tido terríveis crises de ansiedade, que culminam com palpitações, dores de cabeça, pensamentos desencontrados e preocupados, medos e angústias, além de uma revolta especial com ignorantes, que antes até conseguia suportar com alguma paciência, mas que hoje atingem também a minha saúde. Começo com essa afirmação porque creio firmemente que o momento é de sermos sinceros uns com os outros, trocarmos ideias, sensações. Que a gente ponha para fora o que sentimos, em prol até de ao menos mantermos um mínimo de sanidade mental. Estamos – e agora a expressão parece fazer sentido – dentro de caixas, nossas casas, isolados. E mesmo que não totalmente sós, me parece que nunca vivemos de tal forma bruta essas sensações todas e elas são individuais. Difíceis de serem descritas, mas que atingem, por mais que queiramos nos fazer de fortes.

Como você está? – pergunto. Embora não possa ajudar muito e a cada dia esteja mais claro que não temos a menor noção do que realmente ocorrerá nem na hora seguinte, nem no dia seguinte, nem quanto tempo levará. Os inimigos se multiplicam, além do contágio: os boletos chegando, empregos partindo, notícias de um mundo todo em ‘looping’ contando diariamente mortos às centenas, e especialmente aqui no Brasil a ameaça constante de um governante absolutamente alucinado e atrapalhando o serviço de quem está na linha de frente: seus próprios ministros, autoridades em saúde, profissionais, cientistas, imprensa.

Aqui não se trata mais – incrível – de aversão, que é total, de política, direita, esquerda, vitória, derrota, mas chamar a atenção para o caminho que as coisas rapidamente tomarão se mantida essa perigosa toada. Um presidente que dissemina notícias falsas, que atiça confrontos, que alimenta um gabinete de ódio formado por seus filhos e aconselhadores do mal, próximos. Um homem incapaz de movimentos de união, mas capaz de provocar e comandar atos e pronunciamentos que, se mantidos, certamente ou levarão a uma insurgência jamais vista ou a uma desumana catástrofe social. Capaz, como o fez agora, de conclamar o país para um jejum (!) religioso quando dele se esperam determinações, sim, mas para acabar com a fome que já faz roncar as barrigas entre os humildes, os miseráveis, as primeiras vítimas da desorganização nacional empurrada anos a fio.

Não é normal, gente. Algo precisa ser feito, não sei se é possível interdição, camisa-de-força, forçar renúncia ou impeachment. Ou pedir, em uníssono, com panelas, gritos ou o que quer que seja, que ele se cale, que deixe em paz quem está no campo da guerra. Dele não se ouviu até agora uma só palavra de alento, apenas ironias desrespeitando as centenas de famílias já em luto, algumas com várias perdas ligadas entre si.

Dele não se ouviu até agora uma palavra contra os aproveitadores que cinicamente aumentam barbaramente os preços, somem com insumos. Nenhuma de suas ordens veio para acabar com os abusos, ou para proteger quem precisa. Vive apenas de suas próprias alucinações, rompantes, daquela meia dúzia que diariamente vai saudá-lo no cercadinho improvisado do Palácio, criando fatos que alimentam robôs, que, por sua vez, alimentam a ira dos ignorantes.

Dele não se ouviu até agora nada que preste. O inimigo é um vírus que se respira, invisível. Ainda indomável e desconhecido, mutante. Nos Estados Unidos já há mais mortos por ele do que no 11 de setembro. Aqui já há mais mortes do que em quedas de ‘Boeings’, barragens rompidas, desabamentos, enchentes. É mais do que uma guerra, necessitando armas diferentes, e guerras não escolhem idades. Todos atingidos, inclusive o bem maior, a liberdade.
A situação ainda está em andamento, advertem os especialistas de todo o mundo que buscam correr para conter, evitar o pior quadro que se aproxima, mais crítico ainda em vários locais onde líderes ousaram desafiar a realidade e que agora apenas correm para não serem julgados pela História como cruéis genocidas.

Precisamos continuar no jogo. E para isso, marcarmos e seguirmos os passos corretamente, para que não saia ainda mais cara essa loteria em que agora estamos metidos. Vamos ganhar esse jogo. Todos nós. Dividiremos o prêmio da vida.

* Jornalista, consultora de comunicação, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para homens também, pela Editora Contexto, à venda nas livrarias e online, pela Editora e pela Amazon. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br.
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Comentários

Tião Aranha 04 de abril, 2020 | 11:25
Em parte o presidente não está muito errado não, com 65% da população endividada a maioria não consegue ficar parada não. Parada a economia, essa demorará pelo menos mais uns cincos anos pra tudo voltar ao normal de hoje, a não ser que torçam pra que nosso país se deixe transforma numa nova Venezuela. Tirarem vantagem do 'quanto pior melhor'. É preferível um mau presidente do que uma esquerda fajuta que faliu a vida dos brasileiros roubando duma nação inteira. Hoje, a gente brinca de escrever palavras revendo o passando. Mas, lastimando de colegas que vieram de paus-de-arara como eram chamados aqueles caminhões
empoeirados vindo do Nordeste com destino á São Paulo. Muitos deles arrumavam a
vida e voltavam para comer com seus conterrâneos o que tinham ganhado. Poucos
ficavam lá na Capital paulista, e é lamentável saber que a dificuldade que passaram não
serviu de lição para fazer algo futurista para a nação brasileira - pois quando estavam no poder - nada fizeram afim de melhorar a vida nem pensaram na coletividade; isto é, no bem da humanidade, sobretudo, da maioria dos brasileiros, / foram iludidos não cumprindo nada do que prometeram/ - talvez "porque" ( porque não sou dono da verdade) eles foram levados pela fantasia passageira do dinheiro público em abundância só iludiram com demagogias a classe trabalhadora com populismo baratos, originando o caos implantado político/econômico/ social gerando a catástrofe social da saúde pública que aí está. Não é fácil comandar uma nação tão problemática como a nossa onde cada um só pensa em si e acha que tem a melhor solução pra tudo. Acreditam até em 'falsos deuses'. Se antes da pandemia já não tinham união, agora piorou mais ainda. Vamos pôr tudo nas mãos de Deus. Somente Ele tem a melhor solução. Amemos à Deus sem nunca tê-lo visto através da Fé, pois Ele é eterno e todo-poderoso. Em vós vivemos e nos movemos e somos com perseverança na fé infalível em todas as boas obras que bem intencionados quando ora praticamos. Nossa única maneira de comunicarmos diretamente com Deus é através das orações e da prática do bem comum ao nosso semelhante. Isto nos dá vida. Em momentos de crises os brasileiros sempre mostraram que têm capacidade pra vencer qualquer obstáculo. É só acreditar. Pois somos fortes o suficiente, justos, e acima de tudo: somos verdadeiros.

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