Fora do país, brasileiros relatam rotina durante pandemia do coronavírus

Em realidades distintas, China e Alemanha adotaram medidas para sobreviver ao vírus

Álbum pessoal


Daniele Assis, as meninas Luiza e Maria e Fernando Oliveira, estão na china há seis meses
(Bruna Lage - Repórter do Diário do Aço)
O novo coronavírus (Covid-19) tem alterado o modo de vida da população mundial. Atividades corriqueiras como ir ao supermercado ou levar os filhos à pracinha não são mais tão simples. Da China, país de onde surgiu a doença, Fernando Oliveira relata como tem sido sua rotina com a esposa e as filhas. Já na Alemanha, um dos locais mais bem estruturados do ponto de vista médico, Felipe de Oliveira Alves conta como ele e sua família se adaptaram ao isolamento social.

Fernando Oliveira, sua esposa Daniele Assis e as filhas Luiza e Maria residem na China há seis meses. Ele gerencia uma fábrica de componentes eletrônicos para indústria automotiva. A família, que é de Timóteo, convive com a nova realidade trazida pelo vírus desde 23 de janeiro.

A China decretou situação de distanciamento social nesta data, no início do maior feriado nacional, o ano novo lunar chinês, onde praticamente tudo para por duas semanas.

“Diferentemente da Província de Hubei, o epicentro da doença, por aqui (a mil quilômetros de distância, em Guangzhou, no sul da China, onde a família reside) nunca chegou a ser proibido sair de casa. Mesmo assim, nos primeiros 15 dias, houve uma redução drástica da população nas ruas, ainda com receio do que estaria por vir. À medida que a contaminação não se apresentou tão severa em nossa cidade e em nossa província, percebemos o retorno das pessoas às ruas”, pontua.

Fernando não conhece ninguém que tenha sido contaminado, seja no trabalho, vizinhança ou amigos. A cidade em que vivem tem 13 milhões de habitantes e, mesmo no pico, foi registrado 400 pessoas contaminadas. “Podemos considerar este como um número sob controle, haja vista que falamos de uma cidade do tamanho de São Paulo. Hoje são 80 pessoas ainda em tratamento, houve apenas uma morte. Ações como o uso da máscara por 100% da população e o respeito às regras de distanciamento social ajudaram a conter o avanço do vírus. Hoje os novos casos são aqueles ditos ‘importados’ e, para conter também estes casos, as autoridades exigem agora o cumprimento de 14 dias de isolamento para quem chega de países considerados de alto risco. O viajante recém-chegado é acompanhado até seu destino, onde permanece monitorado eletronicamente”, destaca.

Rotina

A empresa onde Fernando trabalha retomou as atividades no dia 11 de fevereiro, após passar por auditoria e liberação por órgão público. Todos precisam seguir orientações, como usar máscaras em tempo integral e revezar grupos para uso do refeitório, dentre outras. Praticamente toda a indústria da China foi liberada para operar após três semanas de paralisação. Restaurantes, bares e afins foram liberados posteriormente, seguindo algumas regras como aferição de temperatura de cada cliente, lotação, distância de mesas, higienização, etc. Todas as escolas permanecem com aulas suspensas, mantendo o ensino via internet.

“Em casa, as crianças permanecem estudando através de sistema e aplicativos disponibilizados pela escola, com aulas via chat e estão dando continuidade ao aprendizado. Daniele tem se dedicado ao acompanhamento das filhas nas atividades escolares e à nova dinâmica da família. Os passeios na rua não são proibidos, e de vez em quando saímos todos para uma atividade ao ar livre. A vida parece seguir normal, não fosse o uso de máscaras, que fazem lembrar que o vírus está à espreita”, pondera.

A China continental, país mais populoso do mundo com 1,38 bilhão de habitantes, contabiliza pouco mais de 3.300 mortos e 81.600 contaminados por coronavírus, a maioria deles em Wuhan.

Álbum pessoal


Felipe e Lucas se divertem como podem, revezando entre brincadeiras, danças e TV
Na Alemanha, políticas de distanciamento são menos severas que na Espanha e Itália

O astrofísico ipatinguense Felipe de Oliveira Alves vive na Alemanha há quase nove anos. Em Munique, ele, a esposa Anna e o filho Lucas estão em isolamento há cerca de três semanas. Há poucos dias nasceu Alice, a caçula do casal, que estava no hospital com a mãe durante a apuração desta matéria.

Em sua rotina, Felipe concilia tarefas de casa com trabalho e a atenção ao filho de três anos, que está em casa devido ao fechamento das escolas. “Saio uma vez por dia com ele pela manhã para dar uma voltinha pelo quarteirão, mantendo a distância de outras pessoas. Por causa da idade dele é difícil distraí-lo em casa todo o tempo, então essa saidinha é essencial. Antes de a nossa bebezinha nascer, minha esposa estava de licença do trabalho e pôde cuidar dele enquanto eu fazia home office. Como ela estava limitada pela gravidez, eu sempre que podia parava o trabalho para ajudar e, por isso, o trabalho não rendia muito. Depois do nascimento, como mamãe e bebê estão no hospital, pedi férias no trabalho e estou por conta do mais velho. Continuamos passeando durante as manhãs e brincando em casa pela tarde (além das tarefas de casa)”, detalhou.

Para o pequeno Lucas, a compreensão sobre o que está ocorrendo é simples. “Ele entende que tem um ‘bichinho’ lá fora e que por isso não podemos ficar muito lá. A questão é que uma criança de três anos tem muita energia, então, apesar de não reclamar do confinamento, suas brincadeiras consistem em correr pela casa, pular no sofá, brincar de esconde-esconde comigo e brincar na piscina de bolinhas. Normalmente recorremos à televisão para termos um descanso, mas evitamos que fique muito tempo. Pensamos em atividades alternativas como desenhar, dançar e ver filmes”, frisa Felipe.

Bebê

Sobre o nascimento da filha em meio à pandemia, o ipatinguense salienta que houve receio, principalmente pelo fato de ser prematura (sete meses). Porém, justamente por isso, os cuidados no hospital são redobrados. A criança está na terapia intensiva e se desenvolve bem. “Minha esposa já se recuperou do parto, mas foi aconselhada a ficar no hospital junto à neném. Elas devem ficar lá por algumas semanas. Devido à quarentena, eu e meu filho não estamos permitidos de visitar minha esposa. E eu só posso visitar a neném uma vez por semana, e mesmo assim por algumas horas. O maior problema é a logística, afetada pela pandemia. Por exemplo, nossos pais não puderam vir do Brasil para conhecê-la e ajudar a cuidar do Lucas, porque a Alemanha está fechada. Mas nossa família, apesar de apreensiva, entende que estamos bem protegidos devido às políticas de isolamento adotadas aqui e à infraestrutura do sistema de saúde. Conversamos diariamente por videochamadas e os tranquilizamos. Na verdade, a vontade é trazê-los pra cá”, vislumbra.

Na Alemanha, segundo Felipe, as políticas de distanciamento ainda não são tão severas como na Espanha e Itália, justamente porque são feitos muito mais testes e o número de mortes ainda é relativamente baixo. “Podemos passear pelas ruas (somente o núcleo familiar, e passeios curtos) e fazer esportes solitários como jogging. Os supermercados estão relativamente bem abastecidos e não há filas, apesar de demarcações no chão para orientar o distanciamento. Porém, ainda há um receio que a coisa possa piorar, já que aparentemente os mais afetados até o momento são pessoas de meia idade, e os idosos ainda podem ser atingidos. Felizmente, o sistema de saúde daqui parece estar preparado para a demanda”, conclui.

Com uma população de quase 83 milhões de habitantes, a maior da União Europeia, a Alemanha registrou 79.696 casos de coronavírus e 1.017 mortos. Na sexta-feira (3), a primeira ministra do país, Angela Merkel, reforçou a necessidade das medidas restritivas e apontou que o isolamento social pode ir além da Páscoa.
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