Dinheiro é mais importante que a vida de idosos?

Leonardo Torres *

"Não é que estamos saindo mais nas ruas, é que somente agora vocês estão nos notando", disse-me um colega idoso. Diante da pandemia do Covid-19, a ciência tem demonstrado e provado a cada dia que o isolamento social é de extrema importância para todos, e não somente para um ou outro grupo de risco. Por que, então, estamos com a impressão de que os idosos estão andando mais nas ruas?

Apesar de a sociedade eufemisticamente considerar a velhice como a "melhor idade", existe um sofrimento silencioso entre os idosos não somente do Brasil, mas do mundo inteiro. O sistema em que vivemos se acelerou de tal forma que quem não o acompanhou foi silenciado, apagado, abandonado e esquecido. Portanto, infelizmente, o velho até então não existia para a sociedade, era um fardo, uma escória. É muito dificultoso para alguém que tem idade avançada encontrar um emprego, socializar, enfrentar filas de farmácias, mercados etc. Como acompanhar o ritmo da cidade, se nem os mais jovens os aguentam? Todo dia vemos jovens e adultos caindo de sono e de cansaço nos transportes públicos das cidades grandes.

Uma das soluções encontradas por quem tem mais de 70 anos é o suicídio. Segundo o Ministério da Saúde, há uma taxa de 8,9 suicídios de idosos a cada 100 mil habitantes. A fim de comparação, a taxa nacional, ou seja, a que abrange todas as idades, é de 5,5 por 100 mil habitantes. Esse alto índice acontece não somente por causa do abandono familiar, mas também devido ao abandono social, diante do já mencionado ritmo e das exigências da sociedade e do trabalho; e ainda, do abandono político, pois não há medidas fortes e consistentes de acolhimento e cuidado da população mais idosa, dando-lhes um lar, afeto, medicamentos etc.. Isso tudo gera para o idoso um sentimento de abandono generalizado e, somando isso à consciência de que lhes restam poucos anos de vida, o suicídio, infelizmente, torna-se uma opção que lhes vem às mentes.

A pandemia do Covid-19 fez com que a sociedade e a mídia percebessem os mais velhos. Eles estão saindo mais de casa? Se sim, essa coragem entre os idosos, que faz com que eles queiram ir contra o isolamento, também é um pedido de atenção, de cuidado, de afeto, assim como o suicídio. Quem sabe, se não cuidássemos melhor deles, eles não sofreriam tanto com esse vírus. O grande problema ainda está na política. Enquanto alguns países já atentaram para o isolamento social, parte do Brasil, principalmente os que apoiam as opiniões da atual presidência e refutam a ciência, ainda insistem em se manter cegos para os mais velhos, a fim de amortecer a futura crise econômica, dando-nos a prova irrefutável de que, para eles, o dinheiro é mais importante do que vidas. Lastimável...

* Professor e palestrante, doutorando em Comunicação e pós-graduando em Psicologia Junguiana.
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Comentários

Marcos Oliveira 11 de abril, 2020 | 20:35
Quando o pseudo-filósofo, ex-astrólogo, Olavo de Carvalho diz que coronavírus não existe, quando Olavo diz que não pode contestar quem acredita que a terra é plana, quando Olavo é o principal consultor do presidente e de seus filhos, quando Olavo é o indicador de cargos em ministérios e secretarias no no planalto, quando Olavo diz as maiores absurdas teorias de conspiração, vemos que o país está doente, pois é da família presidencial que sai a fábrica de notícias para os grupos de watsapp espalhados para o Brasil e que alimenta diariamente os incautos.

E aí chegamos a conclusão de que o maior mal do Brasil atual é Sofisma e de onde ele parte.
Maria de Fátima 05 de abril, 2020 | 09:28
Maravilhosa reflexão em um texto simples, carregado de linguagem filosófica e convidativa a repensar os nossos conceitos.
Ilbert Xavier Damasceno 04 de abril, 2020 | 08:33
?O BOLSONARO ESTÁ LOUCO! ELE ESTÁ CONTRARIANDO A CIÊNCIA?
Quando lhe dizem a palavra CIÊNCIA, seu cérebro já logo cria a imagem de um homem de jaleco, cabelo desgrenhado, manipulando ampolas com líquido multicolor, fazendo contas impossíveis de cabeça, que, do nada, grita: Eureka! E o mundo inteiro lhe diz amém.
Mas, veja bem, não é assim que a coisa funciona.
Não existe a ?ciência disse?. Isso é metonímia, lembra? Tomar a parte pelo todo. É figura de linguagem, um jeito de falar.
Não existe a ?ciência disse?, existe a opinião de milhares de cientistas, opiniões que, embora sejam baseadas em dados e evidências, se chocam, divergem, se anulam, são descartadas. Ciência é prova e contraprova, formulação de hipóteses, debate perene, anos de pesquisa.
Ciência, do latim scientia, significa conhecimento. E para conhecer qualquer coisa desse mundo, em sua totalidade, demanda-se o esforço contínuo de incontáveis pessoas, geração após geração, quem sabe até o fim dos tempos.
Não existe a ?ciência disse?; só o que existe é a opinião, mais ou menos provisória, desse ou daquele cientista, de carne e osso, com RG e currículo Lattes.
Então, o que o Bolsonaro está fazendo não é desobedecer "a ciência", é apostar que a opinião de um certo grupo de cientistas é mais plausível que a de outro.
Ou você não sabia que tem uma série de cientistas que contestam os métodos mais radicais no enfrentamento do peste chinesa?
Ou você não viu que o Neil Ferguson, epidemiologista que previu milhões de mortes, uma hecatombe medieval, já deu pra traz: https://t.co/XA61T5ALj8
Ou que pesquisadores de Oxford estão sugerindo que os números da Itália estejam inflacionadíssimos: https://t.co/HdMzbXnxvQ
Ou o renomado epidemiologista francês, Didier Raoult, que critica a quarentena horizontal e as medidas de lockdown: https://t.co/YIIce9dhJ9
Ou o médico que contradizia a opinião mainstream e foi calado, na cara larga, pela CNN (Sino-Brasileira): https://t.co/phDeGu9kTl
Portanto dizer que o Bolsonaro está "negando a ciência", é: verborragia, falatório, fofoca, espírito de manada, ou: malícia diabólica, conchavo com o Canhoto, trapaça do Cramulhão.
Tião Aranha 04 de abril, 2020 | 00:38
O tal de Alzheimer põe a cabeça do idoso vacilante, e com esse negócio dessa pandemia de passar muito álcool no corpo tem que passar longe duma caixa de fósforo. Ademais, cada pessoa recebeu de sua família, da escola, dos amigos, etc., certo número de princípios que se tornam para ele indiscutíveis e que constituem o ponto de referência com o que relacionará os acontecimentos e as ideias posteriores.

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