Fake News e o incêndio no 'Reichstag' alemão

André "Bode" Marcos *

03/04/2020 às 14:00
Vivemos uma enxurrada de notícias e informações que, em alguns casos, são mentiras ou fake news, como se diz modernamente. Com a popularização das redes sociais e dos aplicativos de troca de informações via celular cada vez mais utilizados, a possibilidade de informações falsas e mentirosas cresce exponencialmente. Eleições são vencidas ou perdidas, carreiras artísticas e esportivas são comprometidas e até profissionais experientes do meio jornalístico e intelectual são alvos nessa rede. E se você pensa que essas situações são frutos da internet e da modernidade, engana-se. Algumas fake news históricas geraram extrema confusão para as pessoas das mais variadas épocas e sociedade. 

O regime nazista pode ser considerado o campeão das fake news: sobre judeus, esportes, história, antropologia, economia, guerras, religião etc. Esse regime horrendo protagonizou algumas das maiores atrocidades contra a humanidade, grande parte disso, baseando-se em fatos mentirosos. Mas houve um fato que o consolidou no poder em 1933: o incêndio do Parlamento.

Quando a notícia do incêndio do Parlamento alemão atingiu a população, em 27 de fevereiro de 1933, uma massa indignada de alemães dirigiu-se ao prédio, que estava isolado pela polícia, e onde os bombeiros tentavam apagar o fogaréu em vão. Hitler e Goebbels (ministro da propaganda alemã) também se dirigiram ao local para apurar os fatos. Goebbels procurava alguma vantagem política com o acontecimento, chegando a conversar com Hitler: “Vamos tomar o poder agora, por meio do incêndio, do medo e do terror”. Hitler tinha sido recém-nomeado Chanceler pelo presidente Hindenburg e o partido Nazista ainda não tinha se firmado no poder. 

Um jovem holandês foi preso – Marinus van der Lubbe – e confessou ter sido o responsável pelo atentado, que teria sido cometido em repúdio ao governo e aos nazistas. Como ele tinha relações com os comunistas, Hitler logo acusou os comunistas de uma conspiração contra o governo e declarou: “Precisamos exterminar essa peste assassina com punhos de ferro”. Naquela noite, vários deputados comunistas foram presos e as tropas de assalto S.A. foram autorizadas a utilizar armas de fogo contra os “inimigos”. Até abril, mais de 25 mil pessoas tinham sido detidas.

O presidente Hindenburg, pressionado, publicou o decreto do Presidente do Reich para a proteção do povo e do Estado, no qual as liberdades de expressão, opinião e reunião eram proibidas e o sigilo de correio foi quebrado. Essas medidas possibilitaram a real ascensão nazista ao poder. Alguns historiadores ainda afirmam que o incêndio foi provocado pelos próprios nazistas para gerar um clima de instabilidade propício à utilização da violência e da censura, mas o consenso atual é de que foi realmente o jovem holandês numa atitude impensada e inconsequente que desencadeou toda essa confusão. A população, por sua vez, acreditava nas notícias propagadas pelos jornais, que acusavam os comunistas de tramarem uma conspiração contra o governo.

As fake news, realmente, não são coisa de hoje, mas até as mais inocentes e despretensiosas podem ser muito perigosas, pois a maioria das pessoas apenas aceita como verdadeiro e reproduz o que viu sem contestar ou confirmar, gerando um “telefone sem fio”. Neste mundo moderno, com o uso das redes sociais, como evitar que um parente seu receba pelo Whatsapp uma informação e a repasse no grupo da família como verdade absoluta? 
 
* Especialista em História do Brasil e Gestão Escolar, é professor do Colégio Positivo, em Curitiba (PR).
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