Por que ficar em casa é bom para a economia?

William Passos*


Atendendo a uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), a maioria dos governos ao redor do mundo tem adotado o isolamento horizontal, suspendendo aulas, cultos religiosos, proibindo aglomerações e fechando as empresas que não praticam atividades essenciais, recomendando e, em alguns casos, até obrigando as pessoas a ficarem em casa.

Como a maioria dos brasileiros não têm uma fonte de renda estável e permanente, como têm, por exemplo, os servidores públicos, aposentados, pensionistas e beneficiários de programas sociais, muitas pessoas têm se perguntado se não seria melhor a adoção do chamado isolamento vertical, quando somente pessoas idosas e com doenças crônicas são mantidas em casa, liberando aqueles teoricamente com menor risco para o exercício das atividades profissionais, a fim de manter a economia funcionando e garantir os salários dos trabalhadores, os lucros das empresas e a arrecadação tributária dos governos.

Diante da impossibilidade de se buscar essas respostas em relação ao novo coronavírus, dada a ausência de conhecimento definitivo, até o momento, sobre os seus efeitos, talvez uma resposta possa ter vindo de um sólido estudo publicado no último 26 de março por pesquisadores do Federal Reserve (o banco central americano).

Intitulado "Pandemics depress the economy, public health interventions do not: evidence the 1918 flu” (“Pandemias deprimem a economia, intervenções em saúde pública não: evidências da gripe de 1918”) e assinado por Sergio Correia, Stephan Luck e Emil Verner, um estudo mostra, com base na gripe espanhola de 1918, que até aqui era considerada a maior pandemia da história da humanidade, que a adoção do isolamento horizontal é o melhor para a atividade econômica. As cidades americanas que aderiram à medida foram as que se recuperaram mais rapidamente no pós-pandemia.

Localidades onde as pessoas já estavam em casa dez dias antes da chegada da pandemia tiveram um aumento 5% acima da média no emprego industrial do ano seguinte. As que mantiveram essa medida por mais 50 dias viram o emprego crescer 6,5% no mesmo período.

Economistas brasileiros dizem que a opção de isolamento vertical, como propõe, por exemplo, o presidente da República, é impossível de ser praticada no Brasil e que o melhor é não arriscar. Quanto mais rápido a epidemia for controlada, melhor para a economia, avaliam. Uma eventual explosão de casos combinada com o colapso do SUS poderia obrigar as pessoas a se isolarem por mais tempo, deixando a economia mais tempo paralisada. Assim, ficar em casa seria, sim, o melhor para a economia.

Entretanto, não se pode esquecer a difícil situação das empresas e trabalhadores afetados pela medida. O próprio governo experimenta uma queda de arrecadação que pode afetar o pagamento dos servidores já neste mês de abril. Dessa forma, é preciso concluir que, no curto prazo, o isolamento horizontal para a maioria é pior, mas no longo prazo seria o melhor para todo mundo. Por outro lado, nem todos são impactados da mesma forma, havendo pessoas que sofrem muito com essa situação, aqueles que sofrem menos, aqueles que sofrem pouco, aqueles que não sofrem e, até mesmo, aqueles que ganham. Caso de quem produz e vende máscaras e álcool gel, por exemplo, que tem auferido lucros jamais vistos.

Na próxima coluna vou refletir sobre o que aconteceria com a economia e a sociedade caso todos os idosos, por exemplo, morressem. Não perca!

* Geógrafo, doutorando pelo IPPUR/UFRJ e colaborador do jornal Diário do Aço. E-mail: geograwilliam@gmail.com.
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: falecomoeditor@diariodoaco.com.br

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

ENVIE O SEU COMENTÁRIO