Garantia de futuro

Josué Gomes da Silva *

A teleconferência realizada pelo presidente Jair Bolsonaro com os governadores, em 25 de março, evidenciou absoluta falta de sinergia entre os representantes do Executivo no país para o enfrentamento da pandemia da Covid-19 e suas consequências socioeconômicas. Numa conjuntura global de extrema dificuldade, que, dependendo da duração do contágio, poderá constituir-se em uma das mais graves crises de muitas gerações, o que menos interessa é o apego ao poder e às pretensões políticas.

O Brasil precisa de menos polêmica e mais ação, menos discurso e mais sintonia por parte dos ocupantes de cargos eletivos. E é preciso que façam isso com responsabilidade, serenidade e firmeza, para que não passem à sociedade a inoportuna sensação de que estamos sem liderança, em especial neste momento em que o Estado deve mostrar-se presente. É hora da antítese ao velho ditado de que "em casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão". Ou seja, é preciso entendimento, paz e bom senso para enfrentar a calamidade, pois, diante do clima de confronto entre os governantes, é natural que a população fique angustiada. Empresários e trabalhadores assistem perplexos ao triste espetáculo do dissenso e desarmonia protagonizado pelas autoridades.

Com racionalidade e humildade, é preciso um grito de alerta em favor da vida e da manutenção dos empregos e renda dos brasileiros, o que só será possível preservando as empresas. Responsáveis na esmagadora maioria, elas já implantaram medidas concretas para proteger os colaboradores, buscando, ainda, não prejudicar o aspecto econômico, garantindo, no limite da possibilidade de cada uma, salários e benefícios. Cabe enfatizar que o maior patrimônio de todas as organizações é representado pelas pessoas, e o empresariado tem consciência disso.

Vê-se, lamentavelmente, que alguns têm relativizado as consequências da Covid-19 e banalizado a quantidade de mortes. Atitude errada, pois não se pode pôr preço à vida. Por isso, é lúcida a posição cuidadosa da classe empresarial quanto às consequências do novo coronavírus para a saúde e o futuro dos trabalhadores. Buscam-se soluções responsáveis, equilibradas, viáveis e sem riscos para o retorno ao trabalho e à produção.

Os brasileiros querem organizar-se para empreender ações concretas, realistas e seguras. Em meio à grande emergência nacional e global, é despropositada a beligerância política. Essa postura está deslocada da realidade, agravando a tomada de decisões eficazes diante do falso dilema entre vida e economia.

Respostas são necessárias. Governar, assim como gerir empresas, implica, necessariamente, capacidade de encontrar soluções para crises. Desta forma, com foco na realidade presente, devem ser balizados, considerando-se as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e as autoridades do setor no país, o prazo e os cuidados necessários para retornar ao trabalho. Voltar sem planejamento, estratégia e responsabilidade pode ser desastroso, pois o recrudescimento do contágio comunitário geraria um problema socioeconômico ainda mais grave. Há referências de outros países que demoraram a impor o isolamento ou se precipitaram na retomada das atividades, nos quais os danos à saúde e à economia agravaram-se.

O momento é de união de todos os brasileiros, a começar pelos governantes. Vamos usar as redes sociais com grandeza de espírito e boa vontade, banindo fake news e trocando mensagens úteis, de encorajamento e esperança. Com civismo, cobremos dos políticos que honrem os votos que lhes demos. Também devemos assumir nossa responsabilidade como cidadãos. Vamos apoiar e enaltecer os profissionais da saúde, da segurança pública, da coleta do lixo, da infraestrutura, do campo, do abastecimento e da indústria que estão lutando por todos nós neste momento. É hora de relegar o apego a cargos e deixar de lado a vaidade. Precisamos, mais do que nunca, de humildade, de nos perceber como gente, um povo corajoso e solidário na guerra da humanidade contra a pandemia da Covid-19.

* Presidente da Coteminas, engenheiro civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), bacharel em direito pela Universidade Milton Campos (UMC), com MBA na Universidade de Vanderbilt (EUA).
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Comentários

Tião Aranha 03 de abril, 2020 | 00:02
Texto bem elaborado. Cada um procurando encontrar uma saída e achando que tem a melhor válvula de escape da crise-, sem considerar a explosão demográfica e as questões ambientais que
sempre caminham todas juntas com a civilização humana. E dentro desta espera da escuridão, duma atual crise mundial originada pelo microrganismo invisível do coronavírus. Nós, que já tínhamos tantas outras crises de ordem social/política/econômica sem poder prever o que poderia acontecer no dia seguinte; aparece mais essa; /logo, por hora, resta-nos rezar confiantes para que tudo dê certo/.

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