Pandemia sem milho e sem crise, por favor...

Beto Oliveira *

Em 1911, Freud chamava a atenção para dois princípios que regulam as atividades da mente humana. A lei mais fundamental, a que impera logo que passamos a existir, foi nomeada por ele de princípio do prazer. É um princípio que consiste basicamente em buscar o prazer da maneira mais imediata possível e evitar o desprazer com a mesma urgência. Em um primeiro momento, para buscar o prazer vale até mesmo ignorar a realidade, vale sonhar, delirar, alucinar.

Acontece que o princípio de prazer muito cedo precisa lidar com um paradoxo: se eu busco o prazer de forma tão imediata, é evidente que logo mais adiante eu terei um desprazer ainda maior, pois, como diria Mafalda em uma tirinha do artista argentino Quino, “a realidade insiste em atrapalhar a minha vida”.

Então é que entra o segundo princípio do funcionamento mental, batizado de princípio de realidade. Ou seja, de alguma forma, passamos a levar mais em conta a realidade do que nossas fantasias. O prazer continua sendo a finalidade, só que agora mediado pela realidade, tão eficaz em atrapalhar as nossas vidas.

A pandemia que vivemos nesse momento recoloca a questão no plano individual e coletivo. Alguns tentam se agarrar ao princípio de prazer e querem acreditar que tudo não passa de uma “gripezinha”, como alegou Bolsonaro. Outros negam o perigo do vírus com um argumento cínico e perverso de que “só” velhos e pessoas com a saúde prejudicada correriam riscos. Orientam-se pelo princípio do prazer e negam a realidade que a ciência, os sanitaristas, vários líderes internacionais e os principais órgãos de saúde do mundo nos alerta.

Além de ser um vírus novo e de não sabermos com total certeza sua letalidade para cada condição clínica, o princípio de realidade nos fez ver, através da ciência, outro drama além da letalidade, que é a transmissibilidade do vírus, seu poder de propagar-se numa velocidade absurda que pode fazer muitas pessoas demandarem intervenção hospitalar ao mesmo tempo.

É isso que levaria o sistema de saúde ao colapso, como afirmou o ministro Mandetta. E aí não morrerão apenas os contagiados pelo vírus, mas muitos outros que precisarem de um respirador, de um leito, de um exame e mesmo de um médico. Em outras palavras, não podemos adoecer ao mesmo tempo, e até agora, a única proposta séria para isso é o isolamento social, para que possamos fazer o que os especialistas chamam de achatar a curva de transmissão.

O problema é que as pessoas perceberam que toda essa dura realidade nos levará a uma crise socioeconômica, é claro. Não se trata de escolher se vamos ou não passar por uma crise. Não tem como apenas gritar para o chapeiro: “Alô, chefia, a minha pandemia eu quero sem milho e sem crise socioeconômica”. Não há chapeiro aqui. Pandemia, guerra, desastres, todos trazem crise social. Não há escolha entre o vírus de um lado e a fome e o desemprego do outro. A fome e o desemprego também estão do lado do vírus, as pessoas não vão sair para comprar e trabalhar vendo os seus se contaminarem e morrerem.

Nesse sentido, o que os governantes precisam fazer é exatamente propor planos, em conjunto, para enfrentar a crise socioeconômica paralelamente à crise sanitária, e comunicar bem suas estratégias, assim como o papel da comunidade em cada uma delas. Os países que lidarem de forma mais criativa com a crise socioeconômica é que evitarão tragédias maiores, como a fome e o desemprego. Por enquanto, a liberdade criativa serve mais à crise econômica do que à sanitária, pois, para essa, a medida realmente séria, baseada em evidências científicas e exemplos anteriores, é o isolamento horizontal. Outras medidas para a crise sanitária, como o isolamento vertical, são achismos, opinião pessoal, delírio de Whatsapp, profecia, é princípio de prazer descolado do princípio de realidade. Façamos o que a ciência, através do princípio de realidade, nos exige. Continuemos buscando nos sanitaristas as alternativas para achatar a curva de transmissão, e nos governos, as estratégias para o enfrentamento da crise inerente à pandemia.

* Psicólogo. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela UFMG. Coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em Psicanálise do Vale do Aço. Autor do romance “O dia em que conheci Sophia” e da peça teatral “A família de Arthur”.
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Comentários

Robson Ferreira de Sousa 27 de março, 2020 | 21:16
Mensagem de uma pessoa centrada que nos promove imenso conforto nessa hora triste. Falar do professor Humberto e do que ele escreve é usufruir momentos de pura alegria. Bravo, Mestre e grande abraço.

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