Turistas ficam asilados na Argentina por causa das ações contra o coronavírus

Com rodovias, portos e aeroportos fechados, além de linhas de ônibus intermunicipais suspensas desde o dia 17, estrangeiros ficaram retidos em várias partes do país

Alex Ferreira


Ruas do centro comercial de El Calafate, na Patagônia argentina; antes tomadas por turistas de várias partes do mundo, ficaram vazias após a quarentena total

Ficar no isolamento social, embora seja uma medida necessária face à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), não é nada agradável. Agora imagine enfrentar uma quarentena obrigatória e monitorada pelo Estado em um país estrangeiro? Pois é essa a situação enfrentada por turistas que passavam férias na Argentina e foram apanhados pelas medidas rigorosas adotadas pelo governo do presidente Alberto Fernández.

Com rodovias, portos e aeroportos fechados, além de linhas de ônibus intermunicipais suspensas desde o dia 17, estrangeiros ficaram retidos em várias partes do país, sem conseguir chegar a Buenos Aires, de onde partem voos para outros países.

As fronteiras terrestres estão fechadas e turistas estrangeiros, inclusive do Brasil, país inserido na lista de riscos, estão impedidos de ingressar na Argentina desde o dia 15. Já os argentinos que chegam ao país retornando de férias no exterior são colocados em quarentena em um hotel em Buenos Aires, por 14 dias.

Lojas do refinado Centro Comercial de El Calafate

Em um decreto publicado nessa quarta-feira (25), o governo determinou o fechamento definitivo de todos os aeroportos (voos domésticos) portos e estações ferroviárias, o que amplia o isolamento.

As polícias locais, Gendarmeria (Guarda Nacional) e até o Exército tratam de fazer cumprir a ordem. Milhares de pessoas já foram presas e serão processadas conforme o Código Penal por descumprimento da quarentena.

As medidas visam frear o avanço da Covid-19, que já matou oito pessoas e está confirmada em outras 86 (dados da manhã de quarta-feira - 25). "Não deveremos chegar ao estado de sítio, agimos dentro do que permite a Constituição", tem afirmado o presidente argentino.

Alberto Fernández durante seu discurso na Casa Rosada: "elegi a vida' (Foto: Presidencia de la Nación).

Perrengue

Sem passageiros para lotar os aviões, as companhias áreas já vinham suspendendo voos e comprometendo as chegadas e partidas. Voos para vários países europeus estavam cancelados desde a semana passada.

Esse quadro, associado aos bloqueios nas cidades, jogou muitos turistas no caos. Eles reclamam da forma como a crise foi gerenciada. Ao mesmo tempo em que as autoridades fecharam as saídas, também mandaram a rede de hospedagem fechar as portas. Dessa forma, ao retornar de aeroportos ou rodoviárias, os turistas deparavam-se com o hotel de onde tinham saído com o aviso na porta: "cerrado" (fechado).

Muitas pessoas foram obrigadas a sair pelas cidades escoltadas pela polícia até encontrar vagas nos poucos hotéis ainda abertos.

Os que tinham reservas financeiras estão arcando com os custos desse imprevisto, por hora, sem data para acabar.

Outros tiveram que contar com acomodações precárias e compartilhadas. A reportagem do Diário do Aço conversou com dois deles, um é o pesquisador paulista Bruno Aranha, que está retido na cidade de Salta, no norte do país. Lá também está o brasiliense Fernando Raul. Ambos estão na mesma cidade, mas não podem se encontrar. Apenas conversam por telefone. Bruno conta que encontrou vaga em um hostel onde compartilha a estadia com europeus em situação precária.

O jornalista do Diário do Aço, Alex Ferreira, e a mulher dele, Andreia Ferreira, estão asilados em El Calafate, na Patagônia (a cidade tem um caso confirmado e seis suspeitos, todos de turistas franceses). Os mineiros, que iniciaram uma viagem pela Tierra del Fuego, em 3 de março, em direção à Cordilheira dos Andes, deveriam retornar na sexta-feira (27) ao Brasil. Eles relatam que não enfrentam dificuldades de hospedagem, alimentação ou saúde e estão bem abrigados, mas citam a apreensão diante da incerteza de quando conseguirão retornar.

O Consulado do Brasil em Buenos Aires informou que acompanha a situação dos brasileiros e está em contato com autoridades locais para definir a situação de cada um. O governo argentino é irredutível em relação à quarentena.

Ao sopé da cordilheira dos Andes, cidade de El Chalten atrai turistas de vários lugares

Apoio maciço

O prazo inicial de duração da quarentena total na Argentina é até 31 de março, mas pode ser prorrogado para 12 de abril, conforme já anunciou Alberto Fernández. Para adotar as medidas consideradas radicais e que foram recebidas com um "palmaço", na noite de 17/3, data em que o governo anunciou adequações a um decreto baixado no dia 15, o presidente contou com o apoio maciço dos governadores de todas as províncias. Eles fecharam apoio às medidas no plano nacional, entre eles, até os dos partidos de oposição. Com isso Fernández assumiu um protagonismo como líder da Nação e mantém a diretiva presidencial de "apertar e pressionar o máximo possível", para frear a transmissão do coronavírus.

''Elegi a vida''

A paralisação no setor produtivo gerou preocupação porque a Argentina atravessa uma turbulência sem fim na economia e os efeitos da pandemia apontam para uma situação complexa em 2020. "Entre a economia e a vida, eu elegi a vida", afirmou Fernández.

Por fim, o governo argentino anunciou que deverá pagar, até abril, um bônus a 3,6 milhões de famílias com baixa renda. O valor equivale a R$ 800.


Geleira glacial de Perito Moreno, um dos atrativos de El Calafate
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Comentários

José Carlos Oliveira 26 de Março, 2020 | 06:25
A Argentina vai quebrar de vez. Não vai aquentar mais que uma semana nessa paralização total. Boa sorte aos irmãos brasileiros nessa situação.

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