Batalhão: Uma história de 45 anos passados

José Edélcio Drumond Alves *

Se estivesse vivo, o grande apresentador Heron Domingues, do Repórter Esso, continuaria anunciando com seu celebre bordão - TESTEMUNHA OCULAR DA HISTÓRIA - a criação do 14º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais na cidade de Ipatinga.

Passaram por Ipatinga uma série de profissionais militares que exerceram ao mesmo tempo as funções de Chefes de Policiamento e Delegado de Polícia, e dentre eles, o que mais temido foi o meu amigo Capitão Xavier. No exercício das funções militares e civis, ele deixou sua marca de grande operador em busca da ordem, numa região que vivia um clima de desordem e um alvoroço de gente vindo dos mais distantes rincões, buscando emprego na fase da construção da Usiminas.

O índice de violência era grande e todo tipo de crime ocorria, a tropa trabalhava dia e noite rodando nos jipes Toyota, a pé e até de bicicletas.

Deste capitão contam várias histórias e estórias, e dentre elas eu gosto desta: Tudo aconteceu na Avenida 28 de abril, esquina com a rua Ponte Nova, onde havia um boteco e estava lá, pra lá de bêbado, o Joaquim Açougueiro, que gritava e falava de suas valentias. Chamaram a polícia, e lá veio o Capitão Xavier no Toyota, e ao descer o bêbado foi ao seu encontro gritando em alto e bom som: “Quem manda nessa Ipatinga é “eu” e o Capitão Xavier, num é mesmo, sô Capitão”?

A risada brotou da plateia e dominou o ambiente, e o Capitão não se conteve, acompanhou o coro numa risada meio amarela. E para acabar com a festa, pediu aos dois soldados que levassem o bêbado para sua casa na rua Diamantina, para a casa da Orides.

Ao se despedir, Joaquim falou uma grande verdade: “Viu só, gente, é que nóis dois “semos da ÓDN”. Ao ouvir tão real frase, o Capitão ordenou que o roteiro do Joaquim fosse mudado para a cadeia, e dentro de pouco tempo a Orídes estava trazendo seu amor udenista de volta.

Passado um tempo recebi um Convite do já tenente coronel Xavier para ir conversar com ele, lá no Bar do Bonanza, onde ele almoçaria, recado a mim transmitido pelo sargento Romeu e que foi por mim prontamente atendido.
O assunto era a criação do 14º Batalhão, pois ele já havia conversado com o Prefeito Jamil, outro udenista, e este havia delegado ao Procurador do Município que cuidasse do assunto e me informou que tinha pressa, pois desejava ser removido de Uberlândia para o batalhão que seria criado.

Começamos o vai vem das negociações, e do alto Comando Militar só vinham exigências. E foi um tal de ir e vir de BH a Ipatinga e Ipatinga a BH. Lá de Uberlândia, quase toda a noite o Xavier me ligava pedindo informações, e eu detalhava tudo.

O local para ser instalar a unidade não foi problema, pois antes mesmo de lhe ser pedido, a Usiminas, que era grande interessada no processo, resolveu o problema com a cessão do imóvel onde hoje funciona o Colégio Tiradentes, no bairro Contingente.

Um coronel veio e fez outras tantas exigências, que iriam atrasar o processo, assim, acionamos o prefeito, a Usiminas e o maior interessado, o tenente coronel Xavier, e as exigências normais foram atendidas.
De tantas exigências de lá para cá e nada de cá para lá, daí um sopro no ouvido do Prefeito foi dado e ele, matreiramente, acordou para o fato de que deveria haver uma contrapartida, face à promessa de doação, por parte da Prefeitura Municipal, do terreno onde está instalado hoje o nosso Batalhão, no bairro Vila Celeste.
Nova frente de batalha, pois a nossa contrapartida, por sugestão nossa, era a instalação do Colégio Tiradentes no bairro Contingente, quando o batalhão fosse para a Vila celeste. Mas este pedido foi logo rejeitado pela cúpula da Polícia, alegando falta de recursos.

O setor jurídico da Corporação era ocupado pelo Coronel Edwar de Oliveira e Silva, que era também um cidadão de bem e muito inteligente, e que passou a defender nossa pretensão. Mas o embate ficou feio, e como bom político que era o Jamil, ele foi e procurou o então deputado Emilio Gallo e os dois foram ao governador Rondon Pacheco, que possibilitou a celebração do acordo.

E o tenente coronel Xavier veio para instalar e comandar o 14º Batalhão em Ipatinga, o que fez, mas ficou pouco tempo, pois jogaram “o sapo n’água” removendo-o para o 6º BPMMG de Governador Valadares, onde comandar era o seu grande desejo. Para sucedê-lo no comando do Guardião do Vale do Aço foi indicado o Major Klinger Sobreira de Almeida, meu amigo de fé, meu irmão camarada. E os 45 anos que se seguiram foram sempre de sucesso.


* Advogado e empresário.
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