Bolsonaro ofende jornalista ao citar depoimento em CPI

ANJ reage às insinuações sobre repórter: 'O presidente se aproveita da presença de uma claque para atacar jornalistas, cujo trabalho é essencial para a sociedade e a preservação da democracia'

18/02/2020 às 15:49
Reprodução de vídeo
Imbróglio com jornalista que investiga uso de fake news na eleição passada abre polêmica palaciana

O presidente Jair Bolsonaro fez insinuações sobre o trabalho da jornalista Patrícia Campos Mello, repórter do jornal Folha de São Paulo, na manhã desta terça-feira (18). A jornalista investiga o esquema de fake news usado na campanha presidencial.

Durante entrevista em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro insultou a jornalista com insinuação sexual. "Ela [repórter] queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim” [risos dele e dos demais].

Ele fez a declaração ao comentar o depoimento de um ex-funcionário da Yacows, uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, na CPI das Fake News no Congresso.

Na semana passada, Hans River ofendeu a jornalista ao dizer que ela havia se insinuado para ele em troca de uma reportagem sobre o uso de disparos de mensagens na campanha eleitoral.

Suas declarações na comissão foram contestadas em mensagens de texto e em áudios divulgados pelo jornal Folha de São Paulo, para desmentir a versão do depoente. Apesar disso, Bolsonaro endossou a versão.

“O depoimento do Hans River foi no final de 2018 para o Ministério Público, ele diz do assédio da jornalista em cima dele", afirmou o presidente.

Em nota nesta terça, a Folha de S. Paulo afirma que "o presidente da República agride a repórter Patrícia Campos Mello e todo o jornalismo profissional com a sua atitude".

"Vilipendia também a dignidade, a honra e o decoro que a lei exige do exercício da Presidência", diz o texto.

ANJ divulga nota

Também em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) protestou "contra as lamentáveis declarações do presidente Jair Bolsonaro ao ecoar ofensas contra a repórter Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S. Paulo".

"As insinuações do presidente buscam desqualificar o livre e exercício do jornalismo e confundir a opinião pública. Como infelizmente tem acontecido reiteradas vezes, o presidente se aproveita da presença de uma claque para atacar jornalistas, cujo trabalho é essencial para a sociedade e a preservação da democracia", afirma a entidade.

Em dezembro de 2018, relatos de River embasaram reportagem sobre um disparo de mensagens em benefício de candidatos. Após as declarações de River na semana passada, a Folha de São Paulo e diversas entidades de imprensa já haviam divulgado notas de repúdio.

O jornal publicou documentos para mostrar "a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais na campanha de 2018". "Causam estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)", diz o texto do jornal, com menção ao fato de que um dos filhos do presidente também atacou a repórter.

Também a OAB se manifestou, por meio de nota publicada no dia 12, em "irrestrito apoio" a Patrícia. "O uso de difamação para atingir a imagem de uma profissional de comunicação que incomoda justamente por sua competência merece repúdio das instituições que prezam a liberdade de expressão e de informação", diz o texto.

Associação Brasileira repudia

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) classificou os ataques feitos à repórter como machistas e misóginos, e repudiou a ação do deputado Eduardo Bolsonaro de reproduzir em suas redes a difamação.

A associação cita o caso como "mais uma ocasião em que integrantes da família Bolsonaro, em lugar de oferecer explicações à sociedade, tentam desacreditar o trabalho da imprensa", e reforça a trajetória de Patrícia como "uma das mais respeitadas jornalistas do país".

"Campos Mello é uma das mais respeitadas jornalistas do país. Repórter experiente, premiada, cobre relações internacionais, economia e direitos humanos há décadas. No ano passado, foi uma das vencedoras do International Press Freedom Award do Comitê de Proteção de Jornalistas (CPJ, sigla em inglês), ao lado de jornalistas da Índia, da Nicarágua e da Tanzânia que, assim como ela, sofreram ameaças e agressões em decorrência de seus trabalhos. Patrícia também faz parte da atual diretoria da Abraji", informa a associação. (Com informações de Julia Lindner, do Estado de S.Paulo)
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