Letras no DNA

Nivaldo Resende *

Tenho um enorme orgulho de ser um leitor, desde a mais tenra idade. Tive a sorte de crescer na linda, vetusta e buc√≥lica S√£o Jo√£o Del Rei. Desde o prim√°rio, tive a felicidade de ter professoras que me incutiram o gosto por escrever corretamente, falar a l√≠ngua portuguesa corretamente. E soube que a maneira mais adequada para aprender a fazer isso era ler, ler muito, da folhinha Mariana ao Jornal do Poste, do folheto Biot√īnico e Sadol √†s bulas de rem√©dio.

Entre essas professoras, lembro de dona Concepcionila Dias (dona Santinha, mãe de Domingo Sávio e Maria Gláucia, que foram funcionários da Usiminas), de dona Nadir, de dona Daurinha, dona Clarice Franco e várias outras. Lembro do professor Oyama, do professor Enio, do professor Procópio, do major João Cabelo Bidart, entre outros que influíram na formação do meu arcabouço e cabedal intelectual.

Assim, era natural que minha bunda ajudasse a desbastar as cadeiras da biblioteca p√ļblica Baptista Caetano de Almeida, onde fui quase um rato. Li de tudo, de Machado de Assis a Oranice Franco, Wander Piroli (O menino e o pinto do menino), Roberto Drummond (A morte de D.J. em Paris, Hilda Furac√£o, Quando fui morto em Cuba) e N√©lson Rodrigues (Os sete gatinhos).

Li Dostoievski e T.S. Elliot, li Guy de Maupassant e Rabindranath Tagore, li Mark Twain e Edgar Alan Poe. Li, e ainda leio. Lembro que certa vez meu irmão mais velho, Alencar, trabalhava no Rio de Janeiro e me perguntou o que eu queria de presente de Natal, e eu disse que queria o livro Eros e Civilização, de Herbert Marcuse, levando minha mãe a indignar-se, porque para ela eu deveria pedir uma peça de roupa ou um calçado.

Todas estas circunst√Ęncias acima relatadas, somadas com o especial prazer que a m√ļsica, o cinema e as artes pl√°sticas me proporcionavam, provavelmente fizeram com que eu tenha me tornado um jornalista e escritor.
Sobre o que √© bom ou ruim, o que tem qualidade ou n√£o, n√£o d√° para saber sem ter lido. A interpreta√ß√£o de um livro √© coisa √ļnica, individual, e n√£o adianta cr√≠tica ou receita. J√° li muita coisa ruim, sem qualidade, sem cuidado, mal revisado, mal escrito, mal diagramado, mal ilustrado. A literatura √© como os seres humanos, h√° os que prestem, h√° os que n√£o.
Dizem dos filhos: Porque tê-los, porque não tê-los, e se não os temos, como saberemos? Digo dos livros: Porque lê-los, porque não lê-los, e se não os lemos, como saberemos?

Leio porque gosto, est√° no meu DNA, se n√£o leio entrevo, meus neur√īnios atrofiam. Sou um eterno aprendiz, e por isso mesmo, um lutador contra n√£o s√≥ aqueles que se recusam a aprender e j√° se acham prontos, mas principalmente, luto contra aqueles que se acham no direito de tirar o direito a que as pessoas aprendam, a come√ßar pela leitura.

* Jornalista e escritor
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Coment√°rios

Ti√£o Aranha 12 de Fevereiro, 2020 | 20:25
N√£o √© tarefa f√°cil construir o habito de leitura num indiv√≠duo, dados os preconceitos sociais existentes num pa√≠s em desenvolvimento como o nosso. Que n√£o tem a Educa√ß√£o como primeira necessidade. N√£o d√° pra ser bom escritor sem se aproximar no leitor. Nossos antepassados venceram porque buscaram o conhecimento atrav√©s da leitura do mundo. Hoje, est√° cada vez mais dif√≠cil buscar a identidade pessoal no par√Ęmetro da escala social; pois a maioria dos indiv√≠duos, n√£o tem identidade nem como pessoa. Precisa debater mais nas escolas aqueles princ√≠pios de cidadania outrora apreendidos nas disciplinas de Moral e C√≠vica, OSPB e Religi√£o. Tudo come√ßa pela boa Educa√ß√£o. Quem sabe √© o sentimento de p√°tria dos pol√≠ticos √© que precisa ser modificado? (√Č uma pergunta que fica no ar).

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