Por que não existe emprego para todos?

William Passos *

“Na prática os mercados necessitam que haja sempre mais trabalhadores disponíveis do que empregos oferecidos, caso contrário, a economia, dentro desse modelo, entra em colapso”

Quando as estatísticas apontam segmentos da população como os “nem nem” (pessoas que nem trabalham nem estudam), muitos atribuem este tipo de comportamento à preguiça, como se trabalhar fosse consequência apenas de uma escolha pessoal. A verdade, porém, é que parte do comportamento dos “nem nem” resulta exatamente do fato de que, nas economias de mercado, como a que temos no Brasil, nem todas as pessoas encontram trabalho, o que faz com que alguns indivíduos desanimem ou até mesmo desistam de procurar emprego. São os chamados desalentados.

Diferentemente do que muitos pensam, essa situação não é culpa dos governos, mas consequência do próprio funcionamento das economias de mercado: na prática, os mercados necessitam que haja sempre mais trabalhadores disponíveis do que empregos oferecidos. Caso contrário, a economia, dentro desse modelo, entra em colapso. Prova disso é o nível de desemprego que os economistas chamam de pleno emprego, algo situado em torno da taxa de 4% em países subdesenvolvidos como o Brasil. É como se, quando se atingisse 4% de desemprego (e não 0%), todas as pessoas estivessem empregadas.

Nesse sentido, pode-se dizer, então, que há um desemprego “natural” nas economias de mercado, isto é, aquele não causado pelo período do ano nem por mudanças na estrutura ou conjuntura da economia. Quando causado por mudanças no período do ano, é chamado desemprego sazonal (caso do turismo de veraneio ou da colheita da agricultura, por exemplo, que só gera emprego em determinadas épocas do ano). Quando causado por alterações na estrutura (renovação tecnológica) ou na conjuntura da economia (baixo crescimento ou recessão), o desemprego é chamado, respectivamente, estrutural e conjuntural. No primeiro caso, os empregos são perdidos permanentemente. No segundo caso, são recuperados com o crescimento da economia.

Importante destacar, contudo, a diferença entre emprego, trabalho e ocupação. Quando nos referimos a emprego, estamos falando do trabalho com carteira assinada, com proteção legal e contribuição para uma futura aposentadoria. Aí são incluídos também, no caso do setor público, o serviço público estatutário, que usufrui de proteção trabalhista diferenciada.

Por sua vez, aqueles que não trabalham com carteira assinada, nem são servidores públicos, compõem o conjunto dos trabalhadores informais. São aquelas pessoas que realizam um trabalho remunerado, apesar de não terem emprego. Estatisticamente, essas pessoas são tratadas como ocupadas, não sendo contadas como desempregadas. Os desempregados, na verdade, são aqueles que estão procurando emprego na semana de realização da pesquisa, independentemente de estarem realizando alguma atividade informal ou não.

É por isso que as taxas de desemprego, na realidade, não são taxas de desemprego, mas taxas de desocupação na semana de referência. As pessoas que realizam atividades importantíssimas para a vida familiar, como o serviço doméstico e o cuidado com os familiares, por exemplo, mas que não são remuneradas, infelizmente não são contabilizadas entre aquelas que realizam algum tipo de trabalho, o que contribui significativamente para desvalorizar e visibilizar essas atividades, que são realizadas, sobretudo, por mulheres. Como, muitas vezes, estas pessoas também não estudam, esse segmento é incluído entre a população “nem nem”.

Na próxima coluna, vamos entender porque o salário da maioria das profissões é baixo e porque os salários altos são uma exceção. Não perca!

* Geógrafo, doutorando pelo IPPUR/UFRJ e colaborador do Jornal Diário do Aço. Email: geograwilliam@gmail.com

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