Amor à vida e ao esporte

Mesmo diante de limitações, Ariana, Alcenira e Evilmar dão show quando o assunto é romper barreiras

Wôlmer Ezequiel


Ariana e seu sobrinho, Lucas, que foi seu companheiro durante parte de sua jornada nas corridas

Superação. A palavra é comumente utilizada no esporte, e não por acaso. A prática de atividades físicas possibilita a inserção de pessoas de idades variadas, assim como aquelas que sofreram ou sofrem com alguma deficiência. No Vale do Aço, onde as corridas de rua são cada vez mais populares, Ariana Martins, Alcenira de Oliveira e Evilmar Rosário têm na modalidade um amor em comum.

Ariana tem 34 anos, mas não nasceu com a deficiência visual. Até 2011, sua vida era comum, era uma pessoa ativa, entretanto, em razão de um diagnóstico mal feito, ficou cega. A trombose que atingiu o nervo óptico trouxe como sequela a cegueira, mas isso não representou o fim para ela.

“Antes disso, já gostava de jogar vôlei, handebol e toda vez que tinha campeonato, eu participava. Mas depois do ocorrido, só consegui voltar para a academia em 2017, levei muitos ‘nãos’. As pessoas quando pensam em alguém com deficiência, querem cobrar valores altos. Mas nesse mesmo ano consegui retornar. Tudo meu tem um pouco de história. A prática de atividade física coincidiu que sempre fui acima do peso, isso ao longo da vida, e quando comecei a academia, fiz um exame de rotina e o médico disse que teria de perder peso, porque estava com apneia do sono severa. E a forma que encontramos foi o exercício e a educação alimentar. Com 10 meses eu tinha batido menos 50 quilos”, conta.

No processo de emagrecimento, Ariana adotou exercícios aeróbicos, além da musculação. Em uma das conversas com colegas de academia, em abril de 2018, um amigo disse ‘você deve ter um cardio muito bom, porque o tempo que você fica pedalando é grande. Porque não corre?’. “E aquilo ficou comigo. Ele plantou a sementinha. Na academia temos a Patrícia, que também é assessora do grupo de corrida Superação e uma coisa levou à outra. Disse ao meu sobrinho, Lucas, para fazermos um teste e ver se eu conseguiria correr, aqui perto de casa mesmo, num espaço próximo ao Cefet de Timóteo. Corri quase 5 km e fiquei surpresa. Aquilo me deu um sentimento tão bom e desde então estou no grupo de corrida”, recorda.

Pouco tempo depois, ela participou (com o apoio de um atleta-guia, como de costume nesse caso) de uma prova de 5km, e posteriormente de um percurso de 10km. O que mais escuta são os gritos e pessoas xingando, pelo fato de duas pessoas estarem ali, correndo juntas. “Elas veem a gente correndo com outra pessoa e criticam, o correto seria usar uma cordinha, que deixa os braços livres, mas corro segurando meio que de lado, o que às vezes passa a impressão de que estamos conversando. Já fui xingada, mas prefiro levar na esportiva. Encaro de forma leve, porque no geral tem dado tudo certo. Se você quer muito e gosta, você corre atrás. O resto a gente dá um jeito”, acredita.

Para ela, o ambiente desportivo faz bem e inspira. “Não vou pela competição, gosto do desafio, de testar meus limites. No início de novembro fiz meus primeiros 21 km, saímos de Timóteo e fomos até o Parque Ipanema. Vou para a volta Internacional da Pampulha no domingo, será a minha primeira vez. São oportunidades assim que me enchem de orgulho. É algo que me faz bem e me motiva e eu agarro com força”, assegura.

Arquivo pessoal


Alcenira acredita que Deus deu a ela uma graça quando continuou a sua história
Nova vida

Após perder as pernas ao cair de um trem, em Portugal, Alcenira Claudiana de Oliveira, de 57 anos, viu no esporte uma forma de poder. “Sofri o acidente há seis anos, mas mesmo antes já gostava de correr. O Parque Ipanema era o meu fim de tarde de todos os dias, gostava de sentir o vento no rosto. Mas aí, depois do acidente, o primeiro esporte que pratiquei foi surfe, isso lá em Portugal. Fiz umas duas vezes, é muito bom, é um poder que, mesmo não tendo as pernas, me senti plena. Depois que voltei para o Brasil me convidaram a praticar basquete e fiquei com medo de não dar conta, até porque nunca tinha feito. Mas todo dia era um recomeço. Gostei muito. A corrida eu não imaginava que poderia continuar praticando, mas cá estou eu, na cadeira, mas correndo”, celebra.

Quando estava caída na linha do trem, sem as pernas, Alcenira acredita que Deus deu a ela uma graça. Tirou um ponto final e continuou a sua história. “Sou muito feliz de estar viva. Fácil não é pra mim e nem pra minguém, por viver numa cadeira. Tive que reaprender a fazer tudo. Mas tenho vontade de viver. Gosto de viver. Na vida a gente tem as aflições, com perna ou sem. Mas tenho determinação, não deixei a vida parar porque perdi as pernas. Me reinvento todos os dias. Hoje sou manicure, faço o que está à minha altura. Consigo dirigir, isso pra mim é superar as dificuldades. Um dia de cada vez. Não quero ser treva, quero ser luz, essa é minha meta, ser sempre luz”, garante.

Para ela, o esporte representa movimento e liberdade. “Todos os esportes vejo como saúde e uma sensação de liberdade, de conquista. Estar num grupo de pessoas e elas se tornarem uma família, é tudo de bom. Ser cadeirante em qualquer lugar é difícil, porque é discriminado, não pode ir ali porque a cadeira não passa, no outro canto tem degrau. Deve ter um cantinho no céu para o cadeirante. O Parque Ipanema é top para corrida, mesmo sem ter cadeira adequada, fui com a de basquete. Local para correr tem, difícil pra nós é o dia a dia. Ir ao hospital, supermercado, essas coisas. O que digo para quem está desmotivado é que a vida é escolha, escolhe-se viver ou não. E acho que a pessoa tem que optar por viver. Se está aqui respirando o ar que Deus permitiu, ocupando um espaço no planeta, tem que aproveitar. Nosso tempo aqui é muito precioso. Temos de cuidar da vida da melhor maneira possível”, aconselha.

Wôlmer Ezequiel


Evilmar Rosário Rezende tem 40 anos e não mede esforços para praticar corrida
Cinco quilômetros apoiado em muletas

Evilmar Rosário Rezende também não mede esforços quando o objetivo é correr. Figura conhecida de quem frequenta o Parque Ipanema, ele tem 40 anos e pode ser visto sempre em sua cadeira de rodas, percorrendo a pista do cartão postal da cidade onde mora. Entretanto, no dia 1º de dezembro, durante a “Corrida dos Bombeiros”, naquele mesmo local, ele precisou utilizar muletas.

“Pratico atividade física há 12 anos. Eu tive xistose na medula há 20 anos. Em 1996 fiquei um ano em cadeira de rodas e há 19 eu ando de muletas. Engordei, fiquei hipertenso, a pressão chegou a 17 por 10 e eu tomava muitos remédios. A partir do momento em que comecei a praticar atividade física, tudo melhorou. Perdi peso, parei com os medicamentos e a pressão voltou a 12 por 8. A cada dia tenho mais vontade de continuar praticando esporte para ter uma saúde melhor”, antecipa.

A xistose, mencionada por Evilmar, é o nome popular dado à esquistossomose, doença parasitária causada pelo Schistosoma mansoni. Inicialmente a doença é assintomática, mas pode evoluir e causar graves problemas de saúde crônicos, podendo haver internação ou levar à morte. No Brasil, a esquistossomose é conhecida também como “barriga d’água” ou “doença dos caramujos”.

Ele conta que muitas corridas na região não possibilitam sua presença, por incluir área de morro e grama. “Na dos Bombeiros, o trajeto não dava para ir de cadeira e fiz de muletas, em 1h35. O que ocorre é que por não haver mais pessoas de cadeira de rodas interessados em participar, o trajeto é feito de acordo com o pessoal andante. Mas mesmo assim, com morro e trajeto ruim, tenho participado e conseguido”, conclui. (Repórter - Bruna Lage)
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Comentários

Christiane 07 de Dezembro, 2019 | 18:53
Estes guerreiros é que nos inspiram. Dificuldade é a desculpa que damos ao comodismo. Parabéns galera. Por isso não me canso de dizer que sou fã de carteirinha desta menina. Valeu Ariana!

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