Minha obra II

Amir José de Melo *

“Alguns alunos, quando eu os encontro, até hoje me cumprimentam com alegria”

“Por acreditar que o trabalho na educação não se restringe à escola, sempre envolvia os alunos nos projetos culturais da comunidade

Aqui estou novamente expondo minha trajetória como professor da Rede Pública Estadual. O assunto não se esgota. Eu precisaria de uma edição inteira do Diário do Aço para expor o que tenho registrado. Assim como ontem, hoje exponho apenas uma amostragem. Uma linear retrospectiva resumida.

Iniciei a carreira na Escola Estadual Professora Celina Machado, em setembro de 1989, substituindo uma professora licenciada, quando a receptividade foi muito boa. Foram três meses de ótimo convívio. Alguns alunos, quando eu os encontro, até hoje me cumprimentam com alegria e alguns até param para conversar.

Nessa escola, participei da minha primeira festa de homenagem aos professores. Foi um jantar dançante realizado nas dependências da instituição, à época muito bem dirigida pela professora Rosimeire Barros Anacleto. Anos depois voltei à escola cuja diretora era, então, Mariângela Drummond.

Meu trabalho na Escola Estadual Professor Pedro Calmon começou em fevereiro de 1990. A instituição era dirigida por Stela Morais, minha ex-professora da terceira série. Ali, a receptividade também foi muito boa. Fui muito incentivado pela diretora e pela supervisora Lucia Pascoal. Com as duas aprendi muito e em retribuição oferecia a minha boa vontade para ajudar com projetos de inovações pedagógicas que elevassem o nome da escola e incentivassem os alunos à busca do conhecimento. Eu estava chegando, carregado de inspiração, e desde o início concluí que o trabalho em sala de aula não deveria ser uma rotina, limitado pelo uso simplesmente do quadro negro, giz e livro didático. Assim, já no segundo mês, levei os alunos da antiga sexta série do turno matutino, para assistir na mini sala do então extinto Cine Marrocos, o filme, Massacre na Floresta Negra. Entre outros objetivos, o trabalho visava o reconhecimento do cenário histórico da época das invasões bárbaras sobre o Império Romano. Percebi num debate posterior em sala, os efeitos positivos sobre o aprendizado. Depois outros filmes vieram e Stela Morais conseguiu, Deus sabe como, recursos para comprar uma TV e um vídeo cassete. Em paralelo, realizei ao longo dos anos, onze excursões com os alunos: Gruta da Lapinha, Sabará, Congonhas do Campo e Ouro Preto, foram alguns dos lugares onde levei alunos em viagens, sempre relacionadas ao conteúdo trabalhado em sala.

Mas nem tudo eram flores. Ainda em 1990, a escola encontrava-se com sua sede em estado precário. A diretora já vinha há anos tentando junto às autoridades, sem sucesso, uma reforma. O Estado ficou mais de 30 anos sem investir na manutenção do prédio. No início do ano, os forros das salas estavam caindo, rede elétrica e hidráulica comprometidas. A partir de maio a escola já não tinha nem mesmo instalações sanitárias em condições de uso. Os pisos dos banheiros estavam afundando e os alunos estavam usando o fundo da quadra. As mulheres, usavam os banheiros de vizinhos, inclusive do Salão Paroquial, da Paróquia São Sebastião.

Diversas manifestações foram organizadas, inclusive a realização de aulas na rua. Praça da prefeitura e calçadão da rua Silvino Pereira foram os pontos escolhidos. Faixas e cartazes explicavam os motivos das aulas naqueles lugares. Fomos apoiados pela imprensa e pela sociedade. Até os padres nas missas pediam ao povo para abraçar a causa. Uma comissão de trabalho foi a Belo Horizonte e conseguiu finalmente uma reforma da escola. Em 1992, ocasião em que a escola completara 40 anos, com apoio e empenho de Stela Morais, elaborei um projeto interdisciplinar “Resgate da história da escola e Comemoração da data”, com a reabertura da escola por meio um ato solene e festivo.

Assim, em março, a escola foi reaberta com a presença de todas as ex-diretoras e pessoas que tinham orgulho de dizer que ali estudaram: Ivo José, à época, deputado estadual, Padre Geraldo Ildeu, professor do Unileste e pároco do bairro Cariru em Ipatinga são uma amostragem. A Banda de Música do 14º Batalhão abrilhantou os momentos, que também teve foguetes e até repique de sinos da igreja matriz, numa homenagem da Paróquia São Sebastião àquele momento. Na avaliação das atividades, debateu-se a positividade do trabalho, concluindo-se que o mais importante foi a elevação da autoestima dos alunos e seus familiares. Tudo deu certo porque foi abraçado por todos. Principalmente, por uma diretora com capacidade de aglutinar a escola inteira em torno do trabalho. Stela aposentou-se e vieram outras diretoras:

Yolanda Campos, ultrademocrática, não tomava decisão sem ouvir os professores em plenária. Em 1993, os alunos expressaram em pintura no muro frontal da escola, ideias e críticas ao momento de crise política que o Brasil vivia naquele momento. O trabalho gerou polêmica e um grupo de pessoas da cidade, “ditos ricos”, tentaram intimidar os professores e alunos. Ela os enfrentou e os colocou nos seus lugares, com argumentos muito bem embasados, buscados em pensadores da Educação e do Direito.

Elizabeth Anareli, positivamente vaidosa, queria que a escola por ela dirigida, brilhasse e por isso dava total apoio a projetos pedagógicos que elevassem o nome da escola. Devo a ela apoio às minhas propostas, entre elas visitas técnicas com alunos a instituições, ao parque siderúrgico da então Acesita e Usina Hidrelétrica de Sá Carvalho, trabalho interdisciplinar: Revolução Industrial, nas aulas de História, indústria e energia, nas aulas de Geografia. Também as feiras culturais de sua época eram esplendorosas, atraindo a atenção da cidade, com atrações artísticas e folclóricas além dos stands, Banda de Música do 14º Batalhão de PMMG, Marujada dos Cocais, grupo de teatros e corais.

Em 1999 e 2000, dei um tempo na Escola Pedro Calmon. Fui trabalhar na Escola Joaquim Gomes, no Caladinho. Aprendi com a diretora Beth Gomes o conceito de educação integral. Havia no meio educacional um antigo debate sobre interdisciplinaridade. Elizabeth implementou na escola um programa onde projetos neste formato a serem realizadas no mínimo duas vezes ao ano. Ética, meio ambiente, segurança pública, Saúde e Pluralidade Cultural são exemplos de temas abordados e abraçados por todos das disciplinas.

Os trabalhos sempre culminavam numa plenária, em ambiente de respeito, aprendizado para todos, graças à capacidade aglutinadora da direção, que se valia de argumentos muito bem embasados, e orientações buscadas no Plano Curricular Nacional (PCNs), documentos editados pelo Ministério da Educação. Entre pensadores, defensores da interdisciplinaridade, Piaget era um dos citados para reflexão. Eu me identificava com tudo aquilo e abraçava os trabalhos com vontade e por isso eu ia trabalhar na escola com alegria e até vestia roupas melhores. Ali predominava um ambiente de harmonia entre direção, colegas e alunos.

Voltei à Escola Pedro Calmon em 2001, onde me mantenho até hoje. Retornei com a ideia fixa de ali desenvolver projetos interdisciplinares. Me inspirei no trabalho de Beth Gomes e em leituras sobre o tema, inclusive sobre a aplicabilidade em países que avançaram na educação. Brasil, França, Consciência Negra e Semana da Família são exemplos dos projetos por mim idealizados e trabalhados na escola.

O sucesso dos trabalhos se deve aos colegas que acreditaram e abraçaram junto comigo. E os efeitos logicamente se fizeram sentir na vida dos alunos. Há um ano, um ex-aluno negro, da Eja, me parou na rua para dizer que nunca havia pensado em fazer faculdade. Sempre se sentiu inferiorizado por causa da sua origem social e racial. E que por isto achava que só serviria para exercer profissões subalternas. A sua forma de pensar começou a mudar a partir das minhas aulas, mas relatou que a grande guinada na sua personalidade se deu quando participou do evento por mim organizado, denominado Roda das Pretas, culminância do projeto de Consciência Negra.

Os depoimentos de mulheres negras sobre as dificuldades que tiveram para atingir sucesso profissional o comoveu e a partir de então ele mudou completamente a sua trajetória de vida e está cursando faculdade de Educação Física. Considero isso uma Vitória.

A essa vitória somam-se outras. Por acreditar que o trabalho na educação não se restringe somente à escola, sempre que o oportuno eu envolvia os alunos nos projetos culturais que eu desenvolvia na comunidade. O Teatro da Semana Santa da Paróquia São Sebastião é um exemplo. Com uso de recursos do Fundo Estadual de Cultura, em 2018 pude pagar cachê.

Finalmente, com estas evidências tão positivas, percebo que o sentimento de incompletude é exatamente o que não me deixará parar. Apenas encerro um ciclo. É este sentimento de incompletude que me angustia e realimenta ao mesmo tempo, meus desejos de continuar minha obra, agora em outros espaços. Outros continuarão novos ciclos onde encerro. Continuarei a minha obra, levando avante os meus ideais.

* Mestre em história
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Comentários

Gildázio Garcia Vitor 03 de Dezembro, 2019 | 17:07
Amir, companheiro de sonhos utópicos e de lutas na Educação e na política, um dos muitos Professores com quem trabalhei e tenho grande admiração, respeito e carinho. Parabéns pela sua história e trajetória, construídas a duras penas, ao longo desses 30 anos, que, talvez, possa confirmar os versos do Poeta: "Valeu a pena? Tudo vale a pena/ se a alma não é pequena". Que você, mesmo aposentado, continue colaborando com a educação dos jovens de Coronel Fabriciano e, com isso, eles consigam inventar um chão onde os seus sonhos irão florescer. Tenho uma sugestão para esta continuidade: uma unidade do EDUCAFRO para Fabriciano. Um fraterno abraço. PT saudações.

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