Minha obra

Amir José de Melo *

“Aqui exponho a minha trajetória como professor de história da rede pública estadual de ensino”

“Entrei para o magistério cheio de idealismo e sonho; encarei a sala de aula como um espaço desafiador”

O título deste artigo foi inspirado no trabalho do filósofo Mário Sérgio Cortella. Me baseei num de seus maravilhosos livros, cujo título é: “Qual é a sua obra?” Aqui exponho a minha trajetória como professor de história da rede pública estadual de ensino, onde propus realizar minha obra profissional. Somam-se, nesse mês de novembro, 30 anos de sala de aula dos quais 28 na Escola Estadual Professor Pedro Calmon, onde estou aposentando. Nessa escola eu também estudei até a antiga quarta série.

Desde o início da carreira, adquiri o hábito de anotar os acontecimentos da rotina escolar, registrando inclusive, os personagens envolvidos e as datas em que aconteceram. Comecei com uma caderneta a qual demorou três anos para se esgotar. A partir de então passei a usar um caderno que durou cinco anos. De 1998 para frente, passei a registrar os acontecimentos no computador, e mesmo transferindo os registros manuscritos para o HD, mantenho a caderneta e o caderno muito bem guardados. Meus registros estão recheados de informações. Em especial, os momentos felizes que vivi nas escolas nas quais que trabalhei. Coisas ruins ocorreram? Sim, claro. Mas, as coisas ruins passam e as boas ficam.

Em meio a tudo, posso dizer que entrei para o magistério cheio de idealismo e sonho. Encarei a sala de aula como um espaço desafiador, formando cidadãos responsáveis, críticos, ativos, e intervenientes. Neste sentido, resumo a sala de aula como um lugar, pela minha atuação, acreditei que seria capaz de persuadir os alunos a se tornarem sujeitos históricos a serviço da construção de uma sociedade melhor. Na ânsia de levar para frente este propósito, busquei sustentação em diversos pensadores da educação. Procurei absorver Anísio Teixeira, Paulo Freire, Vigotski.

Me influenciei também por pensadores católicos, como Dom Bosco. Entre as obras sobre educação, a que talvez mais me inspirou foi a de autoria de Regis de Morais: “Sala de Aula: Que espaço é esse?” Apaixonante! Tive contato com essa obra em 1993. De lá, para os dias de hoje, muita coisa mudou. Vivemos atualmente nas escolas, outra realidade, com problemas dificílimos de administrar. Dessa forma, sem desprezar o valor da obra, proponho a mim mesmo uma reflexão sobre sua aplicabilidade nos dias de hoje.

Em paralelo às leituras dos pensadores da educação, quis aprofundar o que aprendi na faculdade. Procurei conhecer historiadores diversos, exemplificados em Caio Prado Junior, Sergio Buarque, Raimundo Faoro, Hélio Silva e outros. “Guerra Fria: Terror de estado, política e cultura”, obra do jornalista José Arbex Júnior que me serviu de guia sequencial sobre a história da segunda metade do século XX. À medida que fui lendo, fui lembrando nos relatos, diferentes episódios que acompanhei na imprensa desde a minha infância. Para trabalhar o período dos governos militares no Brasil, entre outras, duas obras me foram inseparáveis: “Batismo de Sangue”, de Frei Beto e Brasil Nunca Mais. Esta última uma compilação de um projeto de Direitos Humanos de iniciativa do Conselho Mundial de Igrejas e da Arquidiocese de São Paulo. Em 2000, quando do concurso que me efetivou na rede estadual, tive contato com todos autores indicados no edital, dos quais elegi Eric Hobsbawm como o mais fascinante.

À época do mestrado, tive oportunidade de conhecer: Peter Burke, Roque de Barros Laraia, Roger Chartier, Michel Foucault, e José de Assunção Barros. Outros nomes que já conhecia tive oportunidade de aprofundar, como Marilena Chaui, Maria Helena Capelato e Mary Del Priore. Também no mestrado, apesar de debatidas como puramente factuais, as obras de Hélio Gaspari me foram muito úteis pela variedade de relatos esclarecedores. Mas de tudo, nada mais impactante na minha personalidade que as leituras de Frei Beto, Mário Sérgio Cortella e Jessé de Souza.

Não tenho aqui, a intenção de fazer propaganda dos autores e obras que li. Nem tenho a intenção de me exibir como intelectual, mas apenas propor a mim mesmo uma reflexão sobre minha obra na educação. Até que ponto tudo isso valeu a pena? Adianto que reconheço, mesmo buscando inspiração em tantos nomes, somado as melhores intenções, tenho consciência de que nem sempre acertei. Sei que cometi erros e em alguns momentos tive que recuar, rever conceitos e posicionamentos.

Às vezes fui muito duro com alguns alunos, exigindo deles o máximo, num momento que só podiam oferecer o mínimo. Fazer questão de trabalhar, na íntegra, Revolução Inglesa, assim como alguns outros conteúdos, numa metodologia conceitual distante da realidade da maioria. Por isso, lembro de uma frase de Dom Bosco: “Não fique desculpando seus defeitos, procure corrigi-los.” Também nesse contexto, cito novamente Mário Sérgio Cortella, com outra obra: “Não nascemos prontos”. Complemento dizendo que, mesmo ao fim destes 30 anos, não me sinto pronto.

Sinto que minha obra não está completa. Vou deixar para trás sonhos não realizados. No entanto, afirmo com toda convicção, que tenho plena consciência que dei tudo de mim para cumprir o meu dever. Assim, tenho muito que agradecer: a minha família que me apoiou e uma enorme lista de colegas e alunos que acreditaram no meu trabalho. Ana Maria Barbosa, Ana Maria Silva, Elizabete Ornelas, Glória Giuduice, Marilia Antunes, Veronica Barbosa, Judite de Castro, Edernice Maria, Hudineia Pereira, Rosalva Campos, Valeria Ferreira, Roberto Yokel, Adriana de Paula e Vania Luiza da Silva, estão entre tantos outros professores de uma gigantesca lista da qual tenho muito boas lembranças. Cito aquelas com quem tive proximidade profissional e amizade.

Entre as inspetoras, Ilza Grossi, Dilcineia Satler e Edina Imaculada, são exemplos em quem me senti apoiado. As três trabalhavam buscando o equilíbrio entre os rigores da lei e a sensatez. Davam especial atenção ao pedagógico, demonstrando apoio àqueles professores que assumiam a sala de aula buscando alternativas que possibilitassem melhor aprendizado dos alunos. Ângela Fraga foi outro nome da inspeção que marcou época, deixando as melhores impressões pela demonstração de coerência e diálogo com todos os segmentos da escola. Por ter lecionado para mais de dez mil alunos diferentes, fica difícil citar nomes.

Facilita, aqueles que estão presentes na rotina da minha vida atual, seja por relacionamento social ou profissional: Luila Gomes e todos seus irmãos; Patrícia Milanez, Jander Douglas, Janira Cirilo, Eliab Soares e Flávia Roque. Não posso deixar de registrar os dois terceiros anos deste ano, do turno matutino, pelo ambiente de respeito e amizade. Nubia Alves e Rodrigo Walace, ex-alunos, hoje professores de história, que afirmam terem optado por essa carreira inspirados no meu trabalho. Fora do ambiente escolar cito apoio de pessoas de quem somo identificação e admiração pessoal: Carlos Cesar Sena, Maria da Conceição Monteiro, Jayme Queiroz Rezende, Renato Lacerda, Wanderléa Mendes, Silvana Eliane, Ademir Venil, Luiza de Marilac e os Missionários Redentoristas, dentre os quais impossível esquecer Dom Lara. Amanhã concluo esse relato, na página 2 do Diário do Aço.

* Mestre em história.
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Comentários

Javé - do Outro Lado do Mundo 30 de Novembro, 2019 | 19:33
Os 23 anos de ditadura militar sabes que foi o bastante suficiente pra criar o 'apagão mental' na cabeça dos jovens das futuras gerações. (...) Formação de ideologia coletiva não existe-, construção de ideologia universal na cabeça dos jovens pior ainda de se construir, mesmo porque ninguém quer saber de ler nada. A saída seria dar continuação ao desenvolvimento de projetos com temas variados nas escolas, citado pelo mestre, - mas pra isso teria de contar com a participação de toda uma comunidade escolar que está tão só baseada não no que o servidor produz - mas pelo que ele ganha sem nada produzir. É a pura realidade: nosso índice de aprendizagem nas escolas está lá na rabeira. Uma pergunta: - e nas escolas que o prof. Amir passou, pelo visto foi mais de uma, quem se apresenta para dar a sequência ao trabalho de mudança de paradigma de aprendizagem por ele iniciada?. (Ninguém). /Hoje todo prof. no geral fica de olho no relógio - esperando quantos minutos faltam pra terminar a aula: é o ter no lugar do ser - e ninguém quer ser professor. Se a pessoa se formou numa determinada profissão ela tem mais é que valorizá-la não importando qual. Pro outro lado, mas duma mesma celeuma, a PEC emergencial do Guedes já bate às portas do serviço público nacional acarretando a diminuição da carga horária do servidor. - Será que ela vem pra punir ou para corrigir as deficiências do serviço público? O fato é que vem. As técnicas didáticas de aprendizagem são as mesmas de 50 anos atrás. O tema é complicado, e a Educação nunca foi prioridade neste país, pois o país não tem uma cultura própria-, a corrupção começou na época dos nossos colonizadores, os portugueses, que levaram parte de nossas riquezas materiais sem dar nada em troca..
Thiago Antonio Ferreira 29 de Novembro, 2019 | 22:17
Amir vc é um exemplo que todos nos que fomos seus alunos devemos seguir. Tenho orgulho em dizer que tive algum aprendizado com você...boa sorte na sua caminhada
.thiago antonio ferreira ( terceiro ano de 2003 com vc) abraços.....que deus te ilumine sempre.

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