Presença de doulas junto às mães pode ser assegurada por lei municipal

Projeto tramita na Câmara de Ipatinga e é defendido por mulheres e profissionais

Wôlmer Ezequiel


Karine Melo Oliveira e as doulas Natália Luiza Pedro, Rafaella Rocha de Souza e Daniela Grippa acompanharam de perto a apreciação do PL

Em tramitação na Câmara de Ipatinga, o Projeto de Lei 143/2019 pode assegurar a presença de doulas junto às mães nas maternidades, casas de parto e estabelecimentos hospitalares congêneres da rede pública e privada da cidade. Elas dão suporte físico e emocional à outras mulheres antes, durante e após a gestação. Durante reunião da Comissão de Legislação, Justiça e Redação, na tarde desta terça-feira (26), o PL recebeu parecer de constitucionalidade da equipe técnica, acompanhando de perto por mulheres que apoiam a causa e também por profissionais da área. A matéria é de autoria da vereadora Lene Teixeira (PT).

A doula Rafaella Rocha de Souza explicou ao Diário do Aço que o projeto de lei foi construído coletivamente e pretende que o hospital local permita a entrada das doulas, de escolha da mulher. “A doula é a profissional que começa o acompanhamento desde a gestação. Construímos um vínculo e ajudamos essa mulher a se informar, das escolhas que ela poderá fazer durante o trabalho de parto e o pós-parto. O que pedimos nesse projeto é que a nossa entrada seja permitida, não substituindo o acompanhante, que é permitido por uma lei federal, tampouco o marido, a mãe, ou irmã. Ela é uma profissional que faz um trabalho em equipe, conjuntamente a essas pessoas, inclusive com o hospital”, pondera.

Rafaella acrescenta que a Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde recomendam o trabalho das doulas, o que já é permitido em várias cidades do Brasil. “Precisamos de uma lei municipal, ou estadual, como é o caso de Santa Catarina, que obrigue o hospital a permitir nossa entrada. Até então os hospitais não são obrigados a nos deixar entrar, às vezes permitem, outras não. Na maioria dos casos temos que revezar com o acompanhante e isso não é legal para a mulher, que está fragilizada naquele momento. Nosso trabalho tem vários benefícios, encurta o tempo do trabalho de parto, a mulher pede menos analgesia, tem uma experiência mais positiva e recebe apoio e incentivo. É um trabalho reconhecido mundialmente”, pontua.

Presença antiga
A profissional recorda que essa figura sempre existiu na cena do parto, representada pelas avós, que pariam em casa, com mulheres da comunidade e que faziam o papel da doula. “É um papel milenar. Doula é uma palavra grega que significa ‘mulher que serve’, hoje temos um cenário diferente, virou uma coisa hospitalar, com a entrada dos médicos e essa mulher perde muito do protagonismo, de fazer o parto ser o momento dela, porque na verdade um parto normal, de uma gestação de risco habitual, quase não precisa do que o hospital oferece. A mulher faz o parto junto com o bebê, eles trabalham juntos. Essa coisa de humanização do parto é pelo óbvio, queremos o protagonismo da mulher, no momento que é fisiológico dela e do bebê, que sempre foi um momento familiar e se transformou em algo medicalizado, controlado. E a doula vem para resgatar um pouco daquele carinho individual, daquela atenção, de trazer para aquela mulher um conforto de pessoas que ela conhece e que vão acolhê-la. O PL 143 nada mais é do que uma tentativa de avançar na pauta da humanização do parto aqui no Vale do Aço. Pedimos aos vereadores que pensem e vejam com carinho a nossa proposta”, pediu.

Acompanhamento também no pós-parto

Karine Melo Oliveira é mãe, teve acompanhamento de uma doula em sua gravidez e também no pós-parto. “Ela esteve comigo no fim da gestação, pois eu não tinha conhecimento do que era, mas me ajudou muito. Ela me auxiliou nesse acompanhamento. No parto não tive essa presença e isso acabou gerando uma cesariana desnecessária. No meu pós-parto foi importante no sucesso de amamentação, que foi um momento de dificuldade. Ter a doula ao meu lado foi fundamental para eu conseguir amamentar minha filha até um ano e quatro meses de idade”, conta.

Para Karine, a gestação é um momento de fragilidade da mulher, que tem vários papéis a exercer na sociedade atual. “É um suporte psicológico e também físico, porque te ajuda com exercícios e prepara para o parto. Às vezes pensam que é frescura porque não tem conhecimento do real papel e não entendem o que ela faz. Hoje existem muitas mulheres solitárias, que vivem a maternidade sozinhas. Perdemos essa vila de mulheres. Antes tínhamos a mãe e a avó em volta, mas isso mudou. Temos uma mulher solitária e que vivencia isso assim. A doula vem nos ajudar a resgatar esse apoio para a mulher, nesse período tão especial”, conclui. (Repórter - Bruna Lage)
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