Alain Ornelas: o caminho pelo atletismo

A trajetória do Alain começou em meados de 1998, época em que o atleta tinha apenas 12 anos, quando competiu a Usimpíada representando o Colégio São Francisco Xavier, na prova de Arremesso de Peso

Yngrid Bragança


Recentemente, Alain foi campeão em duas provas e recordista em uma delas

O atleta Alain Cristhian Ornelas Silva, de 33 anos, conquistou duas medalhas de ouro no XV Troféu Brasil Master de Atletismo, disputado em Porto Alegre (RS) entre os dias 1 e 3 de novembro. Os títulos de campeão foram obtidos nas provas de Lançamento do Martelo, em que o atleta fez a marca de 46.51 metros, e de Lançamento do Martelete, no qual ele fez a marca de 14.84 metros e bateu o recorde brasileiro.

Entretanto, esta conquista não é sorte, mas sim dedicação do lançador que treina diariamente. Ele concilia a rotina de três empregos diferentes com a prática diária de musculação e o treinamento de lançamentos, de três a quatro vezes por semana, na pista de Atletismo da Usipa “Juvenal dos Santos”. Alain treina na Usipa há 21 anos, porém esta história não começou nos lançamentos.

O princípio de tudo
A trajetória do Alain começou em meados de 1998, época em que o atleta tinha apenas 12 anos, quando competiu a Usimpíada representando o Colégio São Francisco Xavier, na prova de Arremesso de Peso. Segundo o atleta, aproximadamente 12 alunos estavam participando da prova. O peso que ele arremessou chegou à marca de 9.12 metros, tornando-o campeão da prova.

O atleta já havia praticado judô e natação na Usipa, mas ao participar da prova de Arremesso de Peso, ficou encantado com o esporte e quis ir além. “O meu irmão era velocista aqui na Usipa, mas eu não tinha muita noção do atletismo. Assim como muitas pessoas, eu achava que o atletismo era composto só de corridas”, conta Alain.

Tomado pela vontade de dar continuidade no esporte, Alain procurou o coordenador de Atletismo da Usipa, Sildemar Venâncio, e informou que queria integrar à equipe de atletismo, fazendo o Arremesso de Peso. Sildemar prontamente se lembrou da conquista do atleta na Usimpíada e o colocou para fazer um teste físico: dar cinco voltas na pista de Atletismo da Usipa.

“Meu primeiro desafio foram essas cinco voltas. Na hora em que ele me informou eu fiquei assustado e questionei: ‘Eu vim para arremessar peso e eu tenho que correr?’, mas, com muito esforço, consegui dar as cinco voltas e passei no teste”.

A vivência nas provas de atletismo
Desde a chegada de Alain na Usipa até os dias de hoje, a técnica Euzinete Reis foi a sua fiel treinadora. “Nete”, como é apelidada pelos seus alunos, sempre esteve ao lado de Alain passando todas as orientações e técnicas necessárias para que o atleta evoluísse no esporte.

Durante os treinos de base, Alain passou por todas as provas de arremesso no setor de atletismo. Quando o atleta completou 14 anos, a técnica Euzinete fez um teste com o atleta na prova de Lançamento do Martelo e observou que o atleta tinha talento nesta modalidade. Ele continuou nesta prova e evoluiu a qualidade dos seus movimentos rapidamente.

“O Alain sempre foi um menino disciplinado e focado. E, dentro do esporte, se você não tem este objetivo de focar naquela prova que você gosta e que vê pretensões futuras, você não vai a lugar nenhum. Mesmo tendo problemas com o peso, o Alain nunca deixou que isso atrapalhasse o desenvolvimento dele”, conta a técnica de atletismo da Usipa, Euzinete Reis.

As conquistas no esporte
Depois de muito treino, em 2000, Alain participou da sua primeira competição como atleta usipense. E ele começou com pé direito. Ao disputar um Campeonato Mineiro, o lançador sagrou-se campeão na prova de Lançamento do Martelo, na categoria Menor (hoje chamada de Sub-18). Neste mesmo ano, ele se classificou para disputar os Jogos Escolares Brasileiros (JEB’s) e foi campeão na competição, em sua respectiva prova.

Em meados de 2005, Alain bateu o primeiro recorde da vida esportiva. Competindo o Campeonato Estadual, o atleta foi recordista no Lançamento de Martelo pela categoria Juvenil (atualmente, nomeada Sub-20). Anos à frente, em 2008, ele conquistou o 1º recorde na categoria Adulto, enquanto disputava os Jogos do Interior de Minas Gerais (JIMI).
“Eu fiquei super emocionado e até saí gritando! Eu ganhei a prova, mas não fazia ideia do recorde até o Biga anunciar no microfone. Tive a sensação de ter sido campeão olímpico”, declara o lançador.

O lobo solitário
Após estabelecer outro recorde, dessa vez, pela categoria Sub-23, Alain estagnou no esporte por alguns anos. Segundo o atleta, o cotidiano da faculdade, estágio e trabalho, não o permitiam se dedicar o suficiente para manter-se em ritmo de competição.

“Ao mesmo tempo em que a minha vida estava mais corrida, os meus horários de treino não batiam com os da técnica Euzinete. Então, eu treinava sozinho como ‘um lobo solitário’. Tentei aproveitar o máximo que ela me ensinou, junto aos conhecimentos que eu estava adquirindo na faculdade”, afirma.

Mesmo com as dificuldades para realizar os treinos com frequência, Alain continuou focado e mirava no recorde do atleta Simério Teixeira Dias, que já havia falecido há alguns anos. Quando ele estava na categoria Sub-23, em 2006, fez uma marca que ficou a 17cm desse recorde. Entretanto, 10 anos depois, em 2016, Alain conseguiu bater esse recorde em um Festival de Lançamentos e Arremessos da Usipa.

“Eu estava totalmente desacreditado, pois eu treinava pouco nesta época. O recorde era 53,77m e eu fiz 55,46m uma marca expressiva. Porém, infelizmente, eu não consegui contar para este atleta que eu bati o recorde dele, pois ele já tinha falecido. Mas foi uma coisa que eu sempre busquei, eu me inspirava nele”, Alain conta emocionado.

O desejo de fazer mais pelo próximo
Alain iniciou a carreira como profissional de Educação Física no SESI e, meio a este trabalho, o atleta foi informado que estava ocorrendo um concurso do Estado. Então, ele fez o concurso e passou em 1º lugar e, pouco tempo depois, ele foi nomeado pelo Estado para atuar como professor de Educação Física na rede pública, onde Alain está até hoje.

No entanto, Alain não se continha em ser um tradicional professor de Educação Física, ele queria ir além disso. O atleta tinha um projeto pessoal que visava apresentar o atletismo aos seus alunos, de forma que isso agregasse à vida deles. Então, ele decidiu trazê-los à pista de atletismo da Usipa, mas o primeiro desafio era como fazer esta ação.

“Eu falei com a Euzinete e ela topou fazermos um intercâmbio com os atletas. Na época, eu tinha um fusquinha, mas não caberia todo mundo. Então eu limitei a prática a quatro pessoas, eu as colocava no Fusca e as trazia para treinar”, explica Alain.

De acordo com o professor, alguns alunos pertenciam ao grupo de maior vulnerabilidade social e que, por isso, eram mais difíceis de lidar, agressivos com professores e colegas de turma. “Alguns mudaram completamente. Os professores começaram a me perguntar o que eu estava fazendo com certos alunos por causa da melhora notada em sala de aula. Isso me deixou muito realizado. Hoje em dia, tenho exemplo de uma aluna que é árbitra de atletismo e faz faculdade. Eu fico muito feliz em proporcionar isso aos meninos que são de uma realidade muito difícil, que não teriam essa oportunidade”, declara.

O legado deixado às próximas gerações
Recentemente, Alain foi campeão em duas provas e recordista em uma delas. Ele conta que levou as medalhas para mostrar aos alunos da escola em que ele dá aula e que eles ficaram eufóricos ao ver que seu professor, além de dar aulas diariamente, é atleta e campeão brasileiro.

“Deixar esse legado para os atletas é uma responsabilidade muito grande. Eu não treino com a frequência que eu gostaria, mas, ainda assim, tenho bons resultados, tenho todo um histórico no esporte. A minha preocupação sempre foi de nunca deixar o atletismo morrer, pra poder ver as crianças aqui, treinando e crescendo. A gente torce muito para que os projetos dêem andamento, para a pista ficar sempre cheia. Quem sabe a gente não encontra uma outra Lucimar Moura?! Então, é uma responsabilidade muito grande”, relata.

Segundo a técnica Euzinete Reis, “o Alain se apresenta não só como atleta, mas hoje, também, como professor. Ele ensina a própria disciplina que ele teve, anteriormente, passa isso, como professor, aos seus alunos. Então, eu acredito que o Alain é um atleta completo”.
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