De golpe em golpe

Marcelo Campos Neto *

“A proclamação é apenas um dos vários golpes pelo qual a política brasileira passou ao longo da história”

A República brasileira nasceu de um golpe, que teve início no dia 15 de novembro e foi efetivado no dia 16 de novembro de 1889. Para alguns autores, portanto, a data do feito histórico deveria ser comemorada hoje em não ontem. A proclamação foi o ato em que o marechal Deodoro da Fonseca acatou o clamor de segmentos da sociedade de 1889, proclamou a República, e pôs fim à Monarquia brasileira, destituindo do cargo de chefe de governo o imperador Dom Pedro II. Tratada de forma rasa nos livros de história que estudamos, a proclamação é esmiuçada no livro 1889, lançado em 2013 pelo jornalista paranaense Laurentino Gomes. Nele, o escritor detalha as articulações nos bastidores que contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil. Trata-se de uma leitura obrigatória para quem gosta de história e busca a compreensão de um dos períodos mais controversos do país, sob influência de outros dois fatos históricos, a Guerra do Paraguai (1864 a 1870) e o movimento abolicionista (1870). Nas palavras de Laurentino Gomes, não é possível entender o Brasil de hoje sem estudar essas três datas, que marcam a construção do Estado brasileiro durante o século XIX. Muitas das características do país atual, seus defeitos e virtudes, aí incluído o regime de toma-lá-dá-cá em Brasília, a corrupção, a desigualdade social, a motivação pessoal nos atos daqueles que chegam ao governo e a ineficiência da gestão, têm raízes fincadas nesse período. A proclamação é apenas um dos vários golpes pelo qual a política brasileira passou ao longo da história do país, que aos trancos e barrancos tenta se firmar como uma democracia.

O marechal Deodoro da Fonseca é uma figura emblemática no enredo que culminou na proclamação, em 1889. Laurentino Gomes relata que o militar, já idoso e enfermo, na manhã da Proclamação da República, se
encontrava tão esgotado quanto o próprio imperador dom Pedro II. Segundo o autor, até as vésperas do "golpe republicano", o marechal era monarquista e agiu movido mais pelo ressentimento contra o governo imperial do que por qualquer convicção ideológica. Por isso, relutou até onde pôde a promover a troca do regime, como exigiam as lideranças civis e os militares liderados pelo professor e tenente-coronel Benjamin Constant. Ao contrário do que reza a história oficial, o marechal em momento algum proclamou a República ao longo daquele dia 15 de novembro. Isso ocorreu somente no dia seguinte. As preocupações do militar tinham razão, pois os primeiros anos da república não foram nada produtivos, em se tratando de economia e lisura política. Relatar os resultados nefastos demandaria outro artigo e, respeitosamente, recomendamos a leitura do livro onde estão explicados.

O resgate histórico da época mostra aspectos pitorescos, de motivação passional na proclamação, envolvendo Deodoro da Fonseca e o senador Gaspar da Silveira Martins, que era o chefe do Partido Liberal no Rio Grande do Sul e que, segundo o autor, teve influência decisiva na queda do império. É que alguns anos antes da Proclamação da República, quando Deodoro era presidente da província do Rio Grande do Sul, esses dois homens disputaram o coração de uma mesma mulher, uma gaúcha bonita e sedutora, filha do Barão de Triunfo, herói da Guerra do Paraguai. Silveira Martins, um fazendeiro rico, charmoso e intelectual, levou a melhor nessa disputa e jamais foi perdoado por Deodoro. Na madrugada de 16 de novembro de 1889, ao saber que Silveira Martins fora indicado por Dom Pedro II para chefiar um novo ministério, o marechal se decidiu finalmente a proclamar a república, atitude que se recusara a tomar no dia anterior, quando apenas destituiu o gabinete do Visconde de Ouro Preto, sem anunciar a mudança de regime.
Portanto, Laurentino Gomes sustenta que a república brasileira deve, portanto, parte de sua existência a essa mulher, hoje praticamente desconhecida nos livros de História.

A fonte de pesquisa bibliográfica para o livro 1889 traz referências a 150 outras obras sobre o tema. Entre elas estão escritos da Biblioteca Oliveira Lima, no centro de estudos brasileiros situado na Universidade Católica da América (CUA), em Washington, onde estão guardados mais de 40 mil documentos relacionados ao Império e aos primeiros anos da República do Brasil. A quem possa se interessar pelo tema é bom lembrar que o historiador José Murilo de Carvalho é reconhecido como uma das principais autoridades no assunto e também foi uma das fontes de pesquisa de Laurentino Gomes.

Outro aspecto importante da Proclamação da República é que às vésperas do ato, o imperador Pedro II, fora alertado sobre a gravidade da situação enquanto passava uns dias em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro. Como todos sabem, era em meio ao clima ameno da serra fluminense que a família real descansava do agito carioca. Pois em meio à paz da serra, Pedro II entendeu que tudo não passaria de "fogo de palha", como era habitual entre os brasileiros. Estava bem enganado e a monarquia caiu sem reagir. Não houve derramamento de sangue, naquele momento.

Mas gostaria de retomar a motivação do golpe. Os relatos históricos apontam que pesou no cenário para a queda da Monarquia o fato de os militares, principal apoio do regime real, se sentirem frustrados, mal recompensados e desprestigiados pelo governo após a Guerra do Paraguai. Eles reclamavam dos soldos congelados havia anos, da redução de efetivos, da demora nas promoções e da falta de modernização dos equipamentos. Além disso, entre os civis, crescia a movimentação republicana, alimentada principalmente pelos cafeicultores, esses, insatisfeitos entre outros fatos, pelo fim da escravidão. Dessa forma, ninguém defendia Dom Pedro II e o Brasil aceitou a República sem questionar. E sem questionar ficaram outros golpes aplicados de tempos em tempos, nas décadas seguintes.

* Articulista, professor aposentado.
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