Educação Superior precisa se reinventar

Cesar Silva *

"O maior problema do segmento é que a velocidade de ação e reação é muito lenta"

Por anos, o setor educacional não foi tratado como negócio e sim como uma concessão governamental. Era composto por instituições sem fins lucrativos, que contavam com a isenção total de impostos. Nesse cenário, as planilhas de custos das instituições eram abertas aos contratantes dos serviços, via de regra, os responsáveis pelos estudantes e os lucros e margens das instituições estavam mascarados nos custos da infraestrutura, dado que os imóveis onde as instituições estavam instaladas pertenciam aos mantenedores, que se remuneravam pelos aluguéis pagos e nos salários e pró-labores das equipes gestoras que eram compostas dos familiares dos mantenedores.

No fim do século XX, durante o governo neoliberal do PSDB, que tinha como ministro da Educação Paulo Renato de Souza, as Instituições de Ensino Superior (IESs) foram convidadas a se posicionarem como instituições com fins lucrativos, para poderem participar de programa de compra de vagas pelo governo federal, denominado PROUNI, onde trocavam pagamentos de impostos por vagas ociosas disponíveis.

Neste momento, as IESs passaram a ser consideradas ativos para comporem novos negócios e serem geridas por grupos de investimentos, que as compraram ou credenciaram novas Instituições. Assim a gestão, anteriormente familiar, se tornou profissional, com auditoria dos resultados.

A sequência de negociações de compras e ou fusões permitiu um processo de consolidação de IESs pequenas e estas compuseram grandes grupos, com faturamentos elevados e capital aberto. Tal cenário transformou o segmento da educação superior em um dos mercados mais aquecidos nos últimos 20 anos, com incremento anual similar ao da economia chinesa.

A base de alunos matriculados saiu de pouco mais de 300 mil estudantes nos idos de 2001, para mais de 8 milhões de brasileiros neste período de 20 anos e a competição por candidatos se tornou muito grande. Foram mais de 10 anos crescendo cerca de 9% ao ano na base de alunos, depois houve uma queda para patamares de 4,5% e, nos últimos 4 anos, com a crise econômica brasileira estabelecida, o setor praticamente estagnou quanto ao resultado final de ingressantes. Enquanto a modalidade de educação a distância cresce a bases de 2 dígitos, a educação presencial apresenta uma significativa contração.

Apesar de já terem passado por grandes mudanças, as Instituições de Ensino Superior precisam continuar se reinventando para se adequar à nova realidade de alunos, que agora desejam um modelo de educação mais flexível e mais dinâmico quanto a estratégias de ensino. No entanto, o maior problema do segmento é que educação apresenta uma velocidade de ação e reação mais lenta. Ora, foram necessárias décadas para que a gestão passasse de familiar para profissional e de sem fins lucrativos para com fins lucrativos. Já os grandes grupos que se formaram, se consolidaram com modelos de operação voltados a obtenção de resultados pela redução de custos, otimização de infraestrutura, livros físicos para digitais, redução das horas dos docentes etc. Por outro lado, nada ou quase nada acrescentaram de inovações ou metodologias pedagógicas diferenciadas, havendo um afastamento das necessidades e desejos dos alunos do que é ofertado.

Como deixar o aluno se sentir valorizado e com diferenciação de atendimento se o que muda no ambiente virtual é o logotipo da instituição e a cor base do ambiente? As empresas de conteúdo se consolidam ofertando o mesmo material que é commodity para os mesmos cursos, os professores estão distantes dos alunos, substituídos por atores denominados “tutores on line” que tentam mediar, animar as turmas, mas muito pouco inspiram os alunos. Por motivos como estes, a educação digital, apesar do crescimento do número de ingressantes, tem outro indicador importante: a evasão é da ordem de 45%.

* Presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (FAT) desde 2002 e docente há mais de 30 anos. Foi vice-diretor superintendente do Centro Paula Souza. É formado em Administração de Empresas pela Escola Superior de Administração de Negócios, com especialização em Gestão de Projetos e Sistemas de Informação.


Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: falecomoeditor@diariodoaco.com.br

Comentários

Javé - do Outro Lado do Mundo 12 de Novembro, 2019 | 21:16
A privatização do Ensino, principalmente o púbico é saída anti-democrática, tal seja esse o sonho o derradeiro golpe do atual ministro da fazenda. "Administrar uma escola" não é como administrar uma empresa; nela, quem tem poder de mando é unicamente o seu 'dono'. Na escola é o diretor coordenador que não tem poder de mando autoritário. Se porventura vier a acontecer a privatização do Ensino, o crescimento da esquerda aumentará no pais, pois mais que sabido ser a Educação única saída existente para o desenvolvimento de qualquer nação. A melhor solução seria, então, se existisse como mote a 'mobilização organizada' e que partisse da Juventude e se envolvesse por totalidade estudantes de todas as regiões e de todas as esferas estudantis deste país com um único objetivo salutar: a Sociedade .escolhendo o seu paradigma de aprendizagem - de maneira livre e democrática. Política versus Educação nunca casam.

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

ENVIE O SEU COMENTÁRIO