Os olhos e o olhar

Marli Gonçalves *

“Não bastassem os olhos, agora os ouvidos tampados, e a demonstração de total ignorância com relação aos fatos que se sucedem sem pausa”

Os olhos. Sempre foi muito importante para mim reparar nos olhos, não na beleza, na cor, no tamanho, mas na expressão, no olhar. No que eles transmitem das pessoas. E a cada dia impressiona mais reparar nos olhos do homem que nos governa – aquele olhar seco, assustado, às vezes arregalado, sem piscar, e que transmite ódio a quem o cerca com perguntas que precisaria responder, e que lhe são indesejáveis. O alarme está tocando; você também deve estar ouvindo...

Não bastassem os olhos, agora os ouvidos tampados, e a demonstração de total ignorância com relação aos fatos que se sucedem sem pausa. Estamos agora bem no fim de outubro, e coincidentemente em plenos dias de terror, das incertezas; mas as nossas assombrações diárias são realidade. Não são crianças fantasiadas pedindo doces, nem maquiagem divertida. São homens – sim, a imensa maioria bem masculina – que se propuseram a governar esse enorme país, e que nos assustam, apavoram, com sua inoperância, ignorância, e ainda ameaças. As mentiras que contam, como se acreditassem nelas; as mentiras que buscam e que, mesmo desmascaradas, não se desculpam, nem nada fazem para detê-las. Ao contrário.

Lembro-me bem da campanha para a Presidência de 1989. Dos muitos candidatos daquele momento, o que de longe mais apavorava era o Fernando Collor. Os olhos de Fernando Collor, se tivessem sido notados, mostrariam antecipadamente o que tivemos de depois suportar com sua eleição baseada na mentira, na imposição do medo, muito parecida com a que vivenciamos recentemente. Aqueles olhos... Não precisa ir longe para lembrar, se você ainda não era nascido ou não tinha idade para votar. Ele está aí, voltou, por incrível que pareça, e mantém aquele mesmo olhar (e os malfeitos). Depois de tudo o que fez e aconteceu, voltou e é um dos senadores de nossa combalida República. Repara.

Dizem que as mulheres são mais intuitivas, o que é certo. Mas é que também somos mais sensíveis, reparamos mais e melhor nos sinais corporais. Em alguns casos é como se um alarme tocasse. Não é caso de análise política, objetiva, nem estudo sociológico ou econômico. É outra coisa que paira no ar. O alarme está gritando. Eu o ouço em meio ao silêncio brutal das ruas. Em meio às filas quilométricas de emprego. Nas portas arriadas do comércio. No medo da vida, da noite, da violência, cortado pelo barulho das motos dos entregadores que agora levam os restaurantes até as casas. Ouço na indignação das milhares de pessoas voluntárias que sujam as mãos e os pés de óleo nas praias nordestinas prevendo, mais que o dia de amanhã e o fim do mês, o verão que se aproxima e do qual dependem como as formigas.

Eu o ouço em meio ao barulho infernal dos protestos violentos aqui nos nossos vizinhos, praticamente todos países divididos em duas partes, como maçãs. Um a um entram em círculos de fogo, povo combatendo governo, povo combatendo povo, governo combatendo povo, batendo cabeça, e algumas vezes a temida continência, fardada, em pronunciamentos. São de esquerda, direita, todas as direções descontroladas em momentos significativos ou nos quais apenas uma fagulha de centavos seja o estopim.

Muitos de nós já viram e viveram momentos muito parecidos, e que jurávamos ter sido deixados para trás. Muitos de nós procriaram as gerações atuais, os mais jovens, que trazem em si esse mistério deste século tão transformador, de qual caminho escolherão, como se organizarão, qual o olhar que lançam sobre o futuro. Se irão para a frente de batalha com inteligência ou com máscaras. Se continuarão a pintar em suas peles, em tatuagens, sua visão, sua individualidade. Se recorrerão ao mundo digital sem perceberem que estamos todos sendo por eles monitorados o tempo inteiro, e por poucas e concentradas corporações.

O mundo está em movimento e há uma apreensão. Basta olhar e reparar no olhar deles todos, em todos os Poderes. E ouvir o alarme incessante.

* Jornalista, consultora de comunicação, editora do Site Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano- Bom para mulheres. marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br
https://www.youtube.com/c/marligonçalvesjornalista
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Comentários

Tião Aranha 27 de Outubro, 2019 | 13:19
A única saída que pode levar um indivíduo a aprender a saber fazer a leitura correta do mundo é somente através do hábito da leitura de livros. O problema é que ninguém, principalmente os jovens, não querem ter esse trabalho. Mídias sociais não passa cultura, pelo contrário, só traz confusão. Vamos dar como exemplo nós mesmos: - quantos livros você lê por mês? E por ano? Adianta publicar livro se ninguém lê? Eis uma tese pra doutorado: - "será que essa mania de competição citada pela colunista, traduzida na ostentação de riqueza dos jovens, e dos adultos, tem como origem as crises sociais/políticas/econômicas de cada país"? Depois da 2ª grande guerra mundial, 1939/45, nosso país investiu de verdade na educação de qualidade? Você trabalharia ganhando mil e trezentos reais por mês pra ensinar/educar filhos de trabalhadores? (Não se faz revolução através do uso da violência, mas através de idéias, apesar que a luta de palavras é a luta mais vã que existe, ademais, o pior defeito do homem é ser um sujeito imediatista). E sobretudo egoísta. Se se lembrasse de qual foi o objetivo dos colonizadores estrangeiros portugueses quando se aportaram neste país - você teria, hoje, a mesma opinião? Como foi somente a prática da corrupção praticada, foi levado grande parte considerável das nossas riquezas minerais. E a corrupção continua. Tiradentes não morreu por acaso. É difícil 'renascer' um novo Mandela que só visava a libertação de seu povo das garras da elite branca.. É complicado reeleger 'um político desonesto populista' que já provou não ser um bom guardião do Estado. Mas a vida segue, firme e forte. "Deus está acima de tudo e de todos". Sem investimento na Educação, com bons propósitos, não se constrói nenhuma nação livre e desenvolvida, grande, espiritualmente e materialmente.

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