Buchecha: Craque com as mãos

Antes de passar por vários times do interior mineiro e paulista, o folclórico Buchecha massageou os mitos do futebol brasileiro Garrincha e Belline

José Célio de Sousa


Na varanda de sua casa, aos 77 anos, o ex-massagista é pai de um casal de filhos e avô de três netos

No passado, digamos até os anos 1970, quando os times brasileiros – não necessariamente os grandes do eixo Rio-São Paulo-Minas-Rio Grande do Sul – eram recheados de verdadeiros craques, o jovem aspirante a uma carreira no futebol que não possuía tanta habilidade com a bola nos pés, escolhia na maioria das vezes ir para a ponta-esquerda. Não que a posição, extinta há algum tempo, não fosse fácil de jogar e não tivesse lá excelentes jogadores. Nomes como Canhoteiro, Zagallo, Edu, Paulo César Caju, Joãozinho, Mário Sergio, Éder, para citar apenas alguns, fizeram história. Quem era mesmo bom de bola queria jogar no meio de campo ou no ataque. Ser zagueiro era para os mais brucutus. Mas, lá atrás, a coisa também era concorridíssima e cheia de talentos: Domingos da Guia, Bellini, Mauro, Augusto, Luís Pereira, Oscar, Luizinho, Mauro Galvão, Aldair – isso apenas uma mínima amostra – também enchiam os olhos dos torcedores.

Com o jovem José das Dores Rosa, o popular Buchecha, o jeito de continuar no meio futebolístico foi outro. Mas que não ficaria tanto tempo dentro do gramado. Até que ele tentou jogar nos aspirantes dos times timoteenses Olaria, Laminação, Grêmio e Náutico. Quando, porém, percebeu que nunca seria titular em nenhum deles, resolveu ser massagista. Deu certo. Nascido em Ferros (MG), em 1943, passou parte da infância e adolescência em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Timóteo e, a partir do final dos anos 1960, veio residir em Coronel Fabriciano. Foi fotógrafo por um tempo e, posteriormente, trabalhou na área da Usiminas nas empreiteiras Tenenge, Isomonte e Alcindo Vieira. O apelido Buchecha nasceu quando apareceu numa pelada com os amigos de infância com a boca e as faces sujas de carne de porco. Foi inevitável.

Curiosamente, antes mesmo de profissionalizar-se, Buchecha conseguiu a façanha de massagear dois monstros sagrados do futebol brasileiro. Em 1973, numa partida disputada no campo da Usipa, entre a seleção ipatinguense contra o bom time da Tenenge, enxertada por Garrincha e Bellini, Buchecha, que era o massagista do time da empreiteira, viu-se na honrosa obrigação de massagear os dois bi-campeões mundiais. “Em razão do grave problema nos joelhos, Garrincha trazia consigo um frasco da pomada Bálsamo Bengué, que eu tive que usar”, rememora Buchecha. Dá para imaginar hoje, um desses famosinhos que fazem mais sucesso nas redes sociais que dentro de campo, depois de aposentados, tendo que carregar seus próprios medicamentos para aliviar as dores e ver-se na obrigação de aumentar seu dinheirinho com alguns trocados, disputando partidas no interior do país contra times amadores de empresas? Pois, é!

Reprodução


Buchecha foi massagista de uma das mais famosas formações do Ipatinga Futebol Clube
Treinadores
Ainda no amador, Buchecha foi atleta aspirante e massagista do Forjaria, campeão acesitano de 1968, e do Clube Atlético Florestal (CAF), campeão fabricianense no ano seguinte. Seu primeiro trabalho apenas como massagista foi no Social, de Coronel Fabriciano, bi-campeão da cidade em 1970 e 1971. “Era um timaço: Baraky (Tião), Tico, Pretinha, Manoel, Orlando, Cesinha, Luizinho, Eli, Flaubert, Tatu e Jarbas. Em 71, o Preca (o hoje treinador José Ângelo) entrou no lugar do Orlando, o Vasco no lugar do Manoel e o Rogério Cacá no lugar do Jarbinha”, recorda Buchecha, que ficou no Social até 1979, quando foi trabalhar no Ideal Futebol Clube, em Ipatinga, seu primeiro time profissional. Em 1980, voltou para um time amador, a Associação Atlética Aciaria, onde foi campeão júnior ipatinguense.

Em 1981 estava outra vez no Social Futebol Clube, novamente como profissional. Dirigido por Pedro Paulo, que fez história como lateral-direito no Cruzeiro dos anos 1960, o time de Coronel Fabriciano disputou naquele ano a Terceirona do Campeonato Mineiro. O time não conseguiu o acesso à Segundona e Buchecha teve que se virar novamente no futebol amador por mais de uma década.

Retornou ao profissional somente em 1998, como massagista do júnior do Ipatinga Futebol Clube, fundado naquele ano. Em 1998, foi para a Sociedade Esportiva Guaxupé, no Sul de Minas, que disputava a Terceira Divisão do Mineiro, e em janeiro de 1999 retornou ao Ipatinga, onde trabalhou até 2003.

Posteriormente, o incansável massagista, famoso por sua corrida apressada para dentro de campo para atender um jogador caído no gramado, passou por vários times de Minas Gerais e São Paulo: Mamoré, de Patos de Minas; Rio Branco, de Andradas; Uberaba Sport Club; Uberlândia Esporte Clube; Sociedade Esportiva, de Guaxupé; Guarani, de Divinópolis; Nacional, de Nova Serrana; Flamengo, de Varginha; além de breves passagens pela Associação Atlética Internacional de Limeira e Associação Atlética Francana, de Franca, ambas no interior paulista. “Trabalhei com grandes técnicos, como o famoso uruguaio Pedro Rocha, no Ipatinga, José Carlos Serrão, no Mamoré, Wantuil Rodrigues, no Ipatinga, e os fabricianenses Luciano Pascoal, no Guaxupé e Mamoré, e José Ângelo, o Preca, no Guarani”.

José Célio de Sousa


Buchecha, que faz parte do grupo de samba Okolofé, aprendeu a tocar cuíca quando jovem, no Rio de Janeiro
Sambista
Não apenas os jogadores e treinadores são xingados e agredidos pelas torcidas. Massagistas também o são. Numa partida válida pela Terceira Divisão do Campeonato Mineiro entre o Formiga e o Flamengo de Varginha, em Formiga, Buchecha teve que passar ao lado da torcida do time da casa, e levou de brinde um copo de cerveja na cabeça. “Eu estava prevenido, sabia que eles iriam atirar alguma coisa. Fui rápido e mandei um jato de éter no agressor, que estava próximo ao alambrado, mas o juiz viu de relance. Então apertei o braço com as unhas, que ficou parecendo que tomei uma pedrada. O juiz caiu no golpe e acabou não me expulsando”. Torcedor do Vasco, influência de quando morou no Rio, e atleticano apaixonado, Buchecha dessa vez foi vítima do ex-zagueiro cruzeirense Eugênio.

“Estávamos no Guarani de Divinópolis e ele me viu recusando comer num prato azul, oferecido pelo garçom. Meses depois, estávamos no Nacional de Nova Serrana fazendo uma temporada de dois meses na Toquinha, em BH. De sacanagem, ele trouxe o uniforme completo do Cruzeiro e me entregou, dizendo que a comissão técnica do nosso time teria que usá-lo. Fui obrigado e todos morreram de rir”.

Além de massagista aposentado, Buchecha é um tocador e consertador exímio de cuíca, instrumento que aprendeu no tempo em que morou no Rio de Janeiro. Atualmente faz parte do grupo de samba Okolofé, que se reúne no bairro Bom Retiro, em Ipatinga. É casado com Mires Maria Marta Rosa, pai de um casal de filhos (Fábio e Fabiana) e avô de três netos (Vítor, Vinicius e Rafaela). (José Célio de Sousa, em colaboração com o Diário do Aço)
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Comentários

Esdras Araújo 07 de Outubro, 2019 | 10:09
Esse é o folclórico Buchecha. Pai do meu amigo de infância Fabinho. Pessoa de uma índole ilibada com uma disposição e bom humor sempre. Fiquei feliz em ler essa homenagem pois o reconhecimento deve-se em vida e não im menory. Parabens Buchecha.

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