Sem propósito e sem pessoas não dá

Luís Márcio Araújo Ramos *

Vivemos tempos de intensas e profundas mudanças no comportamento da comunidade global. Novas formas de consumo, concorrência acirrada, disputas pelos mercados, barreiras econômicas e muitas outras dinâmicas de um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo (VUCA) nos passam uma sensação de permanente desorganização. Somos acometidos pelas dúvidas em relação aos melhores caminhos e incertezas quanto ao futuro das nossas empresas. Diante de tudo isso, como ser sustentável, perene e transmitir às futuras gerações os genes daqueles que nos idealizaram?

Estaremos cada vez mais sujeitos às novas tecnologias, robotização, inteligência artificial e outros importantes componentes da transformação digital, mas, tudo isso somente tem sentido quando feito em benefício do próprio homem, da sua produtividade e qualidade de vida.

Em meio à velocidade das transformações, nasce um forte movimento global de resgate e valorização do propósito empresarial e das pessoas. E isso parece fazer todo o sentido! A recente conferência da SRHM, Society for Human Resource Management, maior encontro mundial de recursos humanos, com aproximadamente 400 painéis simultâneos e 18.000 participantes, trouxe importantes reflexões sobre a forma de inserção do capital humano nesta jornada de transformações. A centralidade e valorização das pessoas é o fio conector das principais tendências.

Iniciativas de estímulo à diversidade e pluralidade das formas de ser, pensar e agir suscitam a geração de novas ideias e trazem a inovação para o dia a dia das empresas. A diversidade tem sido encarada como uma forma de garantir a necessária renovação e evolução das práticas e comportamentos para fazer frente ao mundo VUCA. Novas gerações, apoiadas por tutores mais experientes, mulheres em posições gerenciais e de alta liderança, pessoas com deficiências, presença de todos os gêneros, raças e etnias são expressões da inclusão e do acolhimento ao amplo espectro das diferenças humanas, que ainda se deparam com padrões inconscientes e fortes barreiras. Estimulando ainda mais a prática de uma força de trabalho diversa, estudos começam a apresentar os seus impactos na performance organizacional, demonstrando a sua associação direta com a geração de resultados em todas as suas dimensões, inclusive, os financeiros.

Outra forte tendência é a constituição de uma agenda permanente de bem-estar e qualidade dos ambientes de trabalho. As jornadas e formas de exercê-las também mudam. A flexibilidade, informalidade e conectividade aparecem com força total. Os investimentos em saúde mental e felicidade chegam como importantes alavancas ao fortalecimento do engajamento e da geração de resultados, além da contribuição direta ao desenvolvimento da sociedade.

As empresas, por meio de seus líderes, precisam caminhar no sentido da ampliação da compreensão do negócio e de suas conexões. Criada uma empresa, ela se torna do mundo, das pessoas, das famílias, dos clientes e das comunidades. Torna-se um ativo de todos e, o mais incrível, quanto maior esta capacidade, maior o seu sucesso e valor.

As empresas que conseguem estabelecer suas conexões e transmitir com transparência e clareza o seu propósito, a razão mais profunda da sua existência - a sua alma - são capazes de “tornar o trabalho mais significativo, atrativo, motivante e reter pessoas excepcionais” segundo Jim Collins, um dos maiores expoentes da administração contemporânea. Nesta perspectiva, tais empresas conseguem, seguramente, superar os desafios do hoje e construir pontes para o futuro.

A construção de espaços de confiança é uma distintiva competência capaz de gerar mais colaboração, produtividade, inovação e resultados. Estimular o desenvolvimento e a realização das pessoas, o pleno exercício do respeito e da autonomia. Incentivar ambientes favoráveis à criatividade, em que as pessoas sejam valorizadas por suas fortalezas e façam a diferença. Fazer a diferença para clientes, conhecer suas estratégias e participar dos seus desafios. Atuar com transparência junto aos stakeholders e às comunidades e ter muita coragem para assumir os riscos e seguir em frente. Talvez estes sejam os caminhos para a perenidade.
Então, vamos lá. Vamos ser de todos, ter propósito inspirador e deixar um forte legado!

* Conselheiro da ABRH e Diretor Executivo da Fundação São Francisco Xavier, braço social da Usiminas.

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