Crítica da dura paixão

Edivaldo Del Grande*

“Sem os defensivos agrícolas, mais da metade de nossas culturas seria perdida devido a pragas e doenças”

A questão do uso dos defensivos agrícolas – conhecidos pejorativamente como “agrotóxicos”, no Brasil – em geral é tratada com pura paixão e escassa racionalidade. Na contramão dessa tendência, o jornalista especializado em agro Nicholas Vital disse em uma entrevista, no ano passado, que as pessoas temem os agrotóxicos por não entenderem o que são esses produtos, não saberem a importância deles para a produção de alimentos e não imaginarem que o desenvolvimento dessas substâncias tem protocolos seguros. Ele lembra que muitos dos fabricantes de remédios também produzem agroquímicos e que os defensivos nada mais são do que remédios das plantas. Embora muitos críticos sejam bem intencionados, há muito mais ideologia do que ciência nessa demonização dos defensivos.

Talvez os produtores rurais e as próprias indústrias químicas comuniquem-se mal com a sociedade. O setor deve ser transparente, pois não tem nada a esconder.

Precisamos explicar como os defensivos são usados; por que são necessários para melhorar os resultados na produção. Temos que mostrar que tudo isso é feito sem abrir mão da segurança. Que, por trás do desenvolvimento de novas moléculas e da aprovação de novos defensivos, há uma robusta base científica.

Para que sejam aprovadas pelos órgãos controladores do governo, como o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA), da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), são utilizados fatores de segurança rigorosos para avaliação dos riscos à saúde humana e também ao meio ambiente.

Outro dado importante a se ressaltar é que o Brasil, mesmo se destacando como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, está em 7º lugar no uso de defensivos agrícolas por área cultivada. De acordo com dados da ONU e da consultoria Phillips McDougall, ficamos atrás de países como Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, Itália e Reino Unido. E, mesmo que a oferta de novos produtos cresça, o que é bom para a concorrência, os avanços conquistados pelo setor diminuem a toxicidade e, devido a uma maior seletividade dos princípios ativos, permitem reduzir a quantidade de defensivos utilizados na lavoura.

Atente-se a este dado: apesar do controle de pragas em países tropicais exigir uma quantidade maior de defensivos do que em países do hemisfério norte, a dose média utilizada em nossos campos, hoje, é 88% menor do que na década de 1970.

Os novos produtos são cada vez mais eficientes e seguros, quando utilizados dentro das recomendações técnicas, com receituário e orientação de agrônomos. Não fosse isso, nossas lavouras não conseguiriam competir com 30 mil espécies de ervas daninhas, 3 mil espécies de vermes e 10 mil espécies de insetos comedores de plantas. Fora do campo, a colheita ainda tem que resistir às ameaças de insetos, mofo e roedores.

É preciso compreender que, sem os defensivos agrícolas, mais da metade de nossas culturas seria perdida devido a pragas e doenças. No mundo todo, por ano, perde-se de 26% a 40% da produção. Sem os defensivos, esse volume dobraria.

O Brasil tem as melhores condições naturais do planeta para produção agropecuária. Mas, somente com o auxílio da ciência e da tecnologia chegamos ao patamar de potência agrícola, capaz de atender à crescente demanda por alimentos no mundo sem novos desmatamentos. Segundo a ONU, até 2050 teremos mais 2 bilhões de habitantes na Terra, perfazendo quase 10 bilhões de pessoas. Para que haja comida o suficiente, a produção de alimentos global deve aumentar 20%; e o Brasil, sozinho, terá que aumentar 40% a sua produção nos próximos anos.

Com a ajuda da ciência e da tecnologia, o Brasil é o país que mais pode contribuir também para amenizar o sofrimento daqueles que ainda passam fome. Dados da ONU mostram ainda que há 821 milhões de famintos no mundo. Pior: 7 mil crianças com menos de cinco anos de idade morrem por dia – ou seja, cinco crianças a cada minuto – por causas relacionadas à desnutrição.

Para que possamos matar a fome do mundo e, ao mesmo tempo, preservar as nossas florestas, não podemos prescindir da tecnologia dos agroquímicos. Precisamos deixar as paixões de lado e abraçar a racionalidade para seguir nossa vocação e voltar a ser um grande país. Paixões são ingênuas e levam a encruzilhadas. Como dizia Kant, “a inocência é uma coisa admirável; por outro lado, é triste que ela se preserve tão mal e se deixe seduzir tão facilmente”.

* Presidente da OCESP (Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo)
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