Psicólogos ipatinguenses destacam a prevenção ao suicídio

''Não dê opiniões, procure entender o que a pessoa quer dizer e se pode ajudá-la de alguma forma'', alerta especialista

Wôlmer Ezequiel


Leonardo Morelli apontou os principais motivos que podem contribuir para o aumento do número de casos de suicídios

O mês de setembro é aproveitado para fazer um alerta acerca da importância da prevenção ao suicídio. Durante a campanha “Setembro Amarelo”, debate-se a necessidade de as pessoas prestarem atenção com aqueles que passam por algum sofrimento mental, para que possam ajudá-las da melhor forma possível. Esse tema ganhou destaque após pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontarem que a taxa de suicídios a cada 100 mil habitantes aumentou 7% no Brasil, ao contrário do índice mundial, que caiu 9,8%.

A reportagem do Diário do Aço apurou que somente em Ipatinga, de janeiro a setembro desse ano foram registrados 11 casos de autoextermínio entre tentados e consumados. Desse total, quatro casos resultaram em mortes. Timóteo tem três casos de suicídio consumados e Coronel Fabriciano tem um caso consumado.

Em entrevista ao Diário do Aço, o psicólogo clínico, Leonardo Morelli, que atua na área há mais de 30 anos, informou que existem vários fatores que podem ter contribuído para o aumento do número de casos de suicídio. Dentre os principais motivos citados pelo profissional está o desenvolvimento da tecnologia. ”Essa forma que vivemos hoje, na qual não temos uma comunicação efetiva, por causa das mídias sociais, contribui muito para esse aumento. Cada um se isola, achando que está vivendo em uma ‘sociedade’, sendo que cada um está passando horas em seu celular. E as mídias sociais têm uma influência muito grande, mas ninguém posta que está infeliz. As pessoas sempre postam que estão bonitas, felizes e reunidas com amigos. E quando alguém não alcança esse ideal ou essa fantasia, fica frustrado com a vida”, salientou.

Ritmo de vida
Outro fator apontado pelo psicólogo é em relação ao ritmo da vida que as pessoas costumam ter, atualmente, marcado por correria e pressa para resolverem suas obrigações. “Dentro das famílias, os integrantes sempre estão trabalhando ou estudando muito. Com isso, acabam se isolando com seus problemas, não tendo tempo para nada, nem para conversar com o outro, como era feito antigamente. Dessa forma, a comunicação piorou muito entre as pessoas de uma mesma família”, afirmou.

Falta de esperança
Para Leonardo Morelli, a situação econômica que o país ainda enfrenta, na qual muitas pessoas estão desempregadas, também contribui para essa piora no quadro de saúde mental da população. “Hoje ninguém acredita em mais nada e isso leva a sociedade a ficar doente. Sem dinheiro, as pessoas não podem viver dignamente. Não tem mais qualidade de vida, principalmente, as mulheres, que precisam trabalhar fora e dentro de casa. Então a qualidade de vida piorou muito. Além disso, devemos lembrar que o cérebro pode adoecer, assim como qualquer parte do corpo, e que precisa de tratamento nesse caso”, ressaltou.

Pressão
Conforme o psicólogo, essa falta de esperança impacta não só os adultos, mas também crianças e adolescentes, contribuindo para que toda a família viva sob pressão.

“Os filhos também se sentem culpados com isso e se sentem mais pressionados a estudarem mais, com o intuito de ser ‘alguém na vida’. Ou ainda, às vezes, são ensinados a terem sucesso para apenas mostrarem para os outros. Então é importante as pessoas perceberem, principalmente os jovens, que elas podem ser quem quiserem. E ser feliz é descobrir o que quer ser e como quer viver. Isso que é sucesso. Entretanto, quando a pessoa não entende isso, pode desenvolver certas doenças mentais, que se não tratadas, podem ocasionar o suicídio”, alertou.

Pós-suicídio
O psicólogo Leonardo Morelli também destacou a importância da atenção especial com os familiares que tiveram algum parente que cometeu suicídio. “Quando existe uma pessoa com doença mental na família, pode ter certeza que os outros integrantes também são doentes. Em alguns casos, é preciso ter uma ovelha negra para jogar a culpa nela, porém, pode acontecer desse sujeito não dar conta, adoecer mais ainda, e depois suicidar”, informou.

Após o acontecimento dessa tragédia, o profissional afirma que a família continua sem apoio para entender o suicídio do parente e muitos preferem não tocar mais no assunto. “Com isso, cada um sofre isoladamente com sua culpa, não buscando ajuda de profissionais. Assim, vão adoecendo e se separando, contribuindo para que surjam mais transtornos mentais na família, mais depressão ou até outro caso de suicídio. Por isso é importante essa atenção pós-suicídio, ou seja, se importar em como estão essas pessoas, como vão se recuperar e como serão felizes”, destacou.

Tiago Araújo


Mauro Rezende destacou que é importante oferecer apoio e atenção para as pessoas que não conseguem encontrar solução para seus problemas
“O anseio mais profundo da alma humana é ser compreendida”

O psicólogo clínico Mauro Rezende, que é especialista em Terapia Cognitiva e mestre em Neurociência, contou ao Diário do Aço que as pessoas que se suicidam ou tentam tirar a própria vida geralmente apresentaram sinais de que iriam cometer o ato. “É muito comum receber pessoas na clínica que conhecem alguém que passou por essa situação, e que alegam que não entenderam o motivo do suicídio. Muitas afirmam que seu conhecido se matou de repente e que não esperava por isso. Mas durante a sessão, na qual o paciente me conta mais detalhes, percebo que seu conhecido já apresentava diversos sinais, que não eram percebidos”, aconselhou.

Compreensão
O psicólogo Mauro Rezende ressalta que oferecer apoio e atenção às pessoas que sofrem mentalmente com algum problema é fundamental. “Tem um teórico que diz que o anseio mais profundo da alma humana é ser compreendida, e o anseio mais profundo do corpo humano é por ar. Dessa forma, quando escutamos alguém, em profundidade, de forma que ele se sinta compreendido, é o mesmo que dar a ele ar. E o nosso papel é esse. Quando entendemos o sofrimento do outro, abre-se a possibilidade para que a pessoa possa dizer se realmente está pensando em se matar, e com isso, é possível indicar ajuda médica/psicológica”, informou.

Debater o tema
Para Mauro, debater sobre suicídio em diversos locais e com público de diferentes faixas etárias é importante na prevenção ao suicídio. “É preciso que isso seja falado, mas utilizando a parcimônia. Ou seja, não que seja divulgado de maneira excessiva, com imagens fortes, mas de uma forma que a pessoa possa entender que o suicídio é um problema e que existe possibilidade de ajuda psicológica, espiritual ou em diversas ajudas no âmbito social”, disse.

Cuidado com opiniões
Quando alguém relata um problema, o psicólogo Mauro afirma que é importante que o ouvinte guarde para ele aquilo que faria, já que resolver o problema do outro sempre pode parecer mais fácil. “Muitos dizem ainda que é frescura, que é mente fraca ou manda a pessoa arrumar algo para fazer. Esses comentários são piores ainda. Devemos abrir espaço para que a pessoa se sinta livre para continuar desabafando. Grande parte do suicídio ocorre porque o indivíduo entende que já tentou de tudo e não encontrou solução. Portanto, não dê opiniões, procure entender o que a pessoa quer dizer, se pode ajudá-la de alguma forma, isso faz muita diferença”, concluiu.

(Repórter - Tiago Araújo)
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