Com times mesclados, Campeonato Ipatinguense promove inclusão de meninas

Meninas e meninos jogam juntos e superam preconceito

Quem acompanha o Campeonato Ipatinguense de Futebol Amador tem percebido uma mudança. Os times, antes integrados por meninos, passaram a contar com a presença feminina. Isso mesmo, uma mescla, reunindo dentro de campo a superação e um ideal: tornar o futebol cada vez menos preconceituoso em relação às mulheres. Avante, Limoeiro, Panorama, Atlântico, União de Revés e Aerc são as equipes que reúnem atletas dos dois sexos e ampliam os horizontes do esporte na cidade. O campeonato é promovido pela Liga de Desportos de Ipatinga (LDI), com apoio da Prefeitura de Ipatinga e Nippon Steel.

O supervisor técnico da LDI, Erivaldo José Dias, o Branco, explica que quando o regulamento foi feito, ficou definido que cada clube teria o direito de inscrever e deixar atuar até três atletas do sexo feminino, nas categorias masculino até o sub-14. “Nossa avaliação é que as meninas têm o mesmo direito de disputarem a competição, assim como os garotos. Como não temos o campeonato feminino nas categorias, achamos por bem incluí-las. Já tivemos em Ipatinga um torneio para elas, mas no adulto. No sub-10, 12 e 14, nunca foi possível fazer uma competição nesse nível”, esclarece.

Branco, que acompanha de perto os jogos, disse não ter visto, até hoje, uma cena de preconceito com as atletas. “A avaliação que eu faço é positiva, tenho percorrido de cinco a seis campos por fim de semana e o apoio do lado de fora é grande. Acredito que o cuidado com um filho deve ser dentro de casa. O futebol não traz prejuízo, muito pelo contrário. O ideal é que o jovem pratique esporte, independentemente da idade e do sexo. Desde o ano passado as meninas têm atuado com os meninos e, fora das quatro linhas, já inspiram outras pessoas a participarem”, conta.

Superação
Wôlmer Ezequiel


Maria Luiza Menezes Santos e Júlia Ferreira Silva são atletas do Limoeiro

Meio campo do Limoeiro, Maria Luiza Menezes Santos, de 13 anos, começou a jogar bola aos seis. Ela, que é de Ipatinga, soube do time em 2015. “Eu procurei o time e, desde então, não larguei o futebol. O que me motiva a estar em campo é principalmente o preconceito, poder superar isso. Sobre jogar junto com meninos, não tenho medo, pois o mesmo preparo físico que eles têm, o meu treinador passa para mim. Claro que já sofri preconceito sim, mais isso só me motivou mais a jogar. Alguns dão umas entradas mais fortes, e outros já são mais tranquilos. Apesar disso, minha mensagem para as meninas é: se quiserem jogar, que não tenham medo da opinião alheia ou de uma falta mais dura. Se caiu, levante a cabeça e siga em frente”, ensina a jovem atleta.

Júlia Ferreira Silva, também do Limoeiro, tem 14 anos e atua na meia direita. Ela tem amigas no futebol e no futsal desde os oito anos, quando iniciou sua trajetória durante as aulas de Educação Física. “Quando o Vicente Bandeira me viu na escola com os meninos, me fez o convite. Mas não foi fácil. Ao longo desse tempo de futebol fui chamada de macho-fêmea e outras coisas, mas o que eu sempre falo é que futebol é para todos. O que me motiva a jogar é assistir ao time feminino brasileiro. Gosto muito da Cristiane, Formiga e da Marta. Elas jogam muito bem. As pessoas precisam ter confiança nelas mesmas e em Deus, porque assim como a Marta veio do nada e chegou à seleção, todas conseguiremos, mas temos de ter fé e, se Ele permitir, vou me tornar um jogadora profissional”, vislumbra.

A jovem Marília Pâmela da Silva vem de Ubaporanga, todos os fins de semana, por amor ao esporte. “Eu atuo na lateral e estou sempre em busca de fazer o meu melhor. Jogo desde pequena, mas comecei a jogar sério quando mudei para Ubaporanga. Apesar de ser um desafio, não desisto do futebol e não tenho medo dos meninos, não. E é isso o que eu quero que as pessoas entendam, se você tem um sonho, trabalhe para que ele se torne realidade, críticas não devem te derrubar, mas fortalecer”, aconselhou.

No time do Atlântico, do bairro Bom Jardim, a jovem Marília Pâmela joga entre os meninos

O campeonato teve início no dia 3 de agosto, com término previsto para o fim de novembro e, para o presidente do Atlântico, Adelson Elias, as meninas incrementaram o futebol. Para o dirigente, os torcedores veem com bons olhos essa presença. “É gratificante ver que há um respeito dentro e fora de campo, até mesmo em relação às vaias. O que percebemos é um incentivo, principalmente quanto à violência, elas são respeitadas e os meninos parecem deixar elas jogarem, sem pancadaria. Ainda existe preconceito, claro, mas pouco. O Campeonato Ipatinguense está inovando. Na nossa equipe temos uma atleta, a Marília Pâmela da Silva, e mais três interessadas em jogar”, relata.

Resgate

Vicente Bandeira, que é coordenador do projeto Resgatando Identidade, em parceria com as categorias de base do Limoeiro destaca que, no bairro, existe um projeto há aproximadamente 30 anos. “Trabalhamos a ética, cidadania e inclusão social. Antes o time era aberto apenas ao sexo masculino, e surgiu a oportunidade de formar um time feminino. Como se trata de inclusão social, temos dado oportunidade. Hoje temos duas meninas disputando o Campeonato Ipatinguense, pelo segundo ano consecutivo, a Maria Luiza (capitã do grupo) e a Júlia. Nossa preocupação é visar ao cidadão, acima de tudo, e tem dado certo", frisa.

Ele acrescenta que o resultado de tudo isso é que os pais estão voltando para beira do campo e, com isso, quebrado paradigmas. “Porque sempre teve aquilo de as meninas não poderem jogar junto com os meninos. Claro que tem uma conversa, apoio dos pais. O resultado observado nos mostra que temos colhido os frutos. Nosso pedido aos desportistas é que façam esse trabalho também, dando oportunidade para as meninas.

Pedimos passagem para elas, para que possam fazer a diferença no esporte e no país, de um modo geral. No caso da Júlia e da Maria Luiza, elas já faziam parte do futebol, treinando. Mas quando surgiu a oportunidade de disputar o Ipatinguense, fizemos o convite, os pais autorizaram e estamos contentes com isso, porque vemos o respeito de todos que convivem com as duas”, concluiu.


(Bruna Lage - Repórter)
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Comentários

Pedrin Perito 08 de Setembro, 2019 | 09:17
Não existe preconceito e o apelido do cara e" branco"?...

Segue o jogo..

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