Os apanhadores de sempre-viva

Técnicos da FAO foram a Diamantina conferir sistema agrícola tradicional

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Coloridas e dispostas em arranjo, as sempre-vivas encantam
Comunidades tradicionais de apanhadores de flores sempre-viva, espécie nativa da Serra do Espinhaço, no Vale do Jequitinhonha, estão para obter o reconhecimento como Sistema Agrícola Tradicional de Importância Mundial (Sipam). O selo é concedido pela Organização das Nações Unidas (ONU), por meio da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que dá atenção ao desenvolvimento das áreas rurais, onde vivem 70% das populações de baixa renda no mundo e que passam fome.

Os grupos tradicionais preservam técnicas seculares de manejo da terra e desenvolvem em seu território uma relação sustentável com a natureza. O reconhecimento da FAO será uma valiosa conquista para as comunidades Pé de Serra, Lavras, Macacos, Vargem do Inhaí, Mata dos Crioulos e Raiz, sendo as três últimas comunidades quilombolas localizadas nos municípios de Buenópolis, Diamantina e Presidente Kubitschek.

“É um reconhecimento de extrema importância para Minas Gerais e para o Brasil. No mundo, somente 57 sistemas conquistaram este selo até hoje, sendo apenas três na América Latina”, diz Márcia Bonetti, coordenadora técnica estadual da Emater-MG, instituição vinculada à Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).

Um comitê científico da FAO esteve recentemente na região para avaliar a pertinência da candidatura ao selo, o envolvimento dos governos local, estadual e federal, da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (Codecex) que representa os apanhadores e das universidades.

O representante da FAO no Brasil, Rafael Zavala, ressalta a importância de todas as instâncias trabalharem no processo de certificação. “O desafio é fazer funcionar um mosaico institucional. É uma oportunidade para criarmos um exemplo a ser seguido no Brasil e na América Latina”, observa.

O coordenador do grupo de pesquisadores do Sipam, Mauro Agnoletti, reforça a importância dessa sinergia. “Devemos comunicar ao mundo o que vimos aqui, convencer as pessoas a virem se apaixonar pelo lugar”, destaca.

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Autoridades e apanhadores, no mercado em Diamantina
Para conquistar o selo, as comunidades ainda precisam vencer algumas etapas. A primeira foi ano passado, quando formalizaram a candidatura com a entrega de um dossiê à FAO Brasil, no 1º Festival dos Apanhadores e Apanhadoras de Flores Sempre-Viva, em Diamantina. A avaliação final será ainda este ano, em Roma, capital italiana.

O sistema
Os apanhadores de flores sempre-vivas habitam a porção meridional da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais. Além da coleta das flores, as comunidades realizam outras atividades produtivas que garantem a complementação de renda e segurança econômica e alimentar, como roças, criação de animais e coleta de produtos do agro extrativismo, como frutos e plantas medicinais.

O grupo integra uma categoria de comunidade tradicional, certificada pela Comissão Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais (CEPCT-MG) e amparada pela Política Estadual para o Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais de Minas Gerais.

As características do Sistema Agrícola Tradicional dos Apanhadores de Flores Sempre-Vivas que possibilitaram a candidatura ao programa da FAO são a utilização combinada de diferentes altitudes, que vão de 600 a 1.400 metros de altitude; elevada biodiversidade; conhecimentos tradicionais sobre o uso das áreas, geração de agro ambientes e paisagens manejadas distintas; abundância hídrica; reserva de biodiversidade nativa; biodiversidade agrícola e riqueza cultural.

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O governador mineiro, Romeu Zema, apoia a iniciativa
A visita
Uma comitiva, composta pelo avaliador, representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da FAO Brasil, da Codecex, da Emater-MG, do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (IEPHA-MG), da Seapa, e a pesquisadora da USP, Fernanda Monteiro, percorreu no primeiro dia a comunidade Mata dos Crioulos para conhecer as particularidades do sistema agrícola tradicional.

O grupo também foi recebido pelos prefeitos envolvidos, pelo secretário de Estado de Cultura e Turismo (Secult), Marcelo Matte, e a secretária de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Ana Valentini, para um jantar preparado com produtos locais pela chef Tanea Romão, em parceria com cozinheiras das comunidades.

A secretária de Agricultura, Ana Valentini, fez questão de destacar a importância de trazer o selo para o Brasil. “Ele vai chamar a atenção para a necessidade de envolvimento de todos na preservação da história do sistema dessas comunidades, essa cultura riquíssima, que vem de muitas gerações”, sinaliza.

A presidente do IEPHA-MG, Michele Arroyo, garante que o sistema agrícola tradicional tem relevância como patrimônio cultural. “Nós temos muito a aprender com as comunidades para poder contar e registrar esses saberes e patrimônio cultural como um processo dinâmico”, disse.

No segundo dia de missão em Diamantina, o governador Romeu Zema confirmou o interesse do Estado em apoiar a candidatura ao selo. “A iniciativa é totalmente procedente, importante e relevante. E nós queremos ser promotores do desenvolvimento e de melhorias para quem quer trabalhar”, concluiu o governador.
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