Presos aprendem técnicas de produção de bolsas em crochê

A partir dessa turma, a ideia é que eles sejam multiplicadores do conhecimento adquirido para outros detentos do pavilhão e, ainda, a todas as alas e presos interessados

O Presídio de São Joaquim de Bicas II, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), está com uma oficina em andamento, semanalmente, para ensinar técnicas diferenciadas de crochê para a produção de bolsas. Ao todo, 20 presos da ala de artesanato da unidade prisional, que já realizavam trabalhos mais simples, foram selecionados para a capacitação. A partir dessa turma, a ideia é que eles sejam multiplicadores do conhecimento adquirido para outros detentos do pavilhão e, ainda, a todas as alas e presos interessados.

De acordo com a professora de artesanato do grupo, Andréa Aguiar, o crochê é um dos poucos trabalhos manuais em que o artesão pode desfazer a peça, voltar e corrigir os erros, sempre com a possibilidade de recomeçar. “Essa é uma metáfora para a vida, e isso é tudo que quem está preso precisa. Aprender a recomeçar e não continuar no erro, tecer a vida de uma nova maneira, assim como a gente tece a peça”, explica Andréa.

A iniciativa nasceu da necessidade de capacitar e aperfeiçoar os trabalhos de crochê que eram feitos no presídio. Além da remição de pena, o projeto também visa à geração de renda e ao tratamento terapêutico. A parte financeira será gerenciada pelo Conselho da Comunidade da Comarca de Igarapé. Dos lucros da venda, 25% ficarão com a unidade prisional, para a compra de material para a produção, e 75% serão destinados aos presos participantes e seus familiares.

“A intenção é ter uma grande produtividade de peças e, consequentemente, mais lucro com as vendas. Nós percebemos neles muito desejo e muita vontade de aprender. O projeto instiga a esperança de um novo futuro. E tem também uma função terapêutica: eles trabalham o equilíbrio emocional, o sentimento de pertencimento, de utilidade, de produtividade”, conta a diretora de Atendimento da unidade, Letícia Alves. “Eles conseguem trabalhar em equipe e desenvolver o senso de empatia; quando um termina primeiro, ajuda o outro que ainda não acabou”, complementa.

Alex Magalhães Santos, de 29 anos, aprendeu crochê na cela com os outros presos, mas só sabia fazer tapetes e jogos de banheiro. Agora, ele vê no ofício uma fonte de renda para quando deixar o presídio.

“Depois que a professora mostrou a tabela de preços relativa ao que ela vende, já criou uma expectativa na gente de ganhar dinheiro com isso. Dá para fazer duas ou três bolsas por dia. Quero guardar o conhecimento e levar para a rua”, diz. “Gosto muito do curso, crochê não é difícil. É quase uma terapia. Quando você faz, você esquece dos problemas, das coisas ruins, você tem que concentrar, contar os pontos. A cabeça vai para outro lugar, sai desse momento de prisão e fica só no crochê mesmo”, acrescenta Santos.

Origem

A ideia partiu da antiga diretora de Atendimento do presídio, Márcia Ferreira, juntamente com a juíza da Vara de Execuções Penais da Comarca de Igarapé, Bárbara Isadora Nardy. De acordo com a magistrada, é seu dever acreditar na ressocialização e incentivar projetos do tipo. “Eu falo sempre o seguinte: eu não crio a lei, eu aplico. E o que eu quero é que as pessoas retornem para a sociedade melhores do que quando entraram no presídio”.

Em busca de novos projetos visando à ressocialização dos presos, Bárbara e Márcia começaram a procurar parceiros, e, por meio do movimento Tio Flávio Cultural, encontraram a professora, psicóloga e artesã Andréa Aguiar, que aceitou lecionar voluntariamente. Ela aprendeu o ofício na adolescência, e é a primeira vez que dá aulas em um presídio, onde se surpreendeu com os seus alunos.

“Estou adorando, é muito bom. Eles têm muito interesse e aprendem rápido”, conta Andréa. “Eles me desafiaram e me pediram para ensinar um ponto difícil. Eu mostrei o ponto mais complicado, que muita gente custa para aprender no ateliê, e eles aprenderam em um segundo”, comemora.

(Agência Minas)

Fotos: Dirceu Aurélio
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Comentários

Gianni 13 de Agosto, 2019 | 08:17
Essa atitude de ensinar artesanato deveria se espelhar em todos os presídios, pois assim veremos a grande recuperação de todos que querem, parabéns. Adorei a atitude pois o croché é um calmamente natural, amo fazer croché, parabéns

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