MPMG
O que nem todos sabem é que manifestações virtuais de violência também são crimes e podem levar o agressor à cadeia
Publicada em 7 de agosto de 2006 com o objetivo de prevenir e combater a violência doméstica e familiar contra a mulher, a Lei Maria da Penha – Lei 11340/2006 – completa 13 anos de existência na quarta-feira. Desde que a norma foi editada, os diversos tipos de violações aos direitos das mulheres têm ganhado cada vez mais visibilidade no país e recebido um tratamento mais duro da Justiça.
São cinco os tipos de violência descritos na lei: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. No entanto, o que nem todos sabem é que manifestações virtuais de violência também são crimes e podem levar o agressor à cadeia.
De acordo com as promotoras de Justiça Christianne Cotrim, coordenadora estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos (Caociber) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), e Patrícia Habkouk, coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Violência Doméstica (CAO-VD) do MPMG, os autores de violência praticada pela internet poderão responder civil e penalmente. Em Minas Gerais, a primeira condenação por estupro virtual tentado ocorreu em 2014.
Segundo Christianne, sucessivas condenações por estupro virtual em todo o país vêm consolidando o entendimento de que o constrangimento mediante grave ameaça, em relacionamento virtual ou através de um dispositivo eletrônico, e a prática de ato libidinoso diverso da conjunção carnal configuram o delito previsto no art. 213 do Código Penal, que tem pena de 6 a 10 anos de prisão, podendo ser agravada nas hipóteses previstas na lei.
As principais manifestações de violência sexual online, de acordo com ela, estão relacionadas à extorsão sexual ou chantagem sexual, conhecida por “sextortion”, ao registro não autorizado da intimidade sexual, à exposição pornográfica não consentida, conhecida como “pornografia de revanche“, “pornografia de vingança” ou “revenge porn”, e ao estupro virtual. “Embora a extorsão sexual e o estupro virtual não tenham tipo penal específico para modalidade online, eles são punidos nas penas, respectivamente, dos arts. 158 (extorsão) e 213 (estupro) do Código Penal”, esclarece.
AvançosCom o advento das Leis 13.718, de 24 de setembro de 2018, e 13.772, de 19 de dezembro de 2018, que alteraram o Código Penal para introduzir os tipos penais previstos nos artigos 218-C (exposição pornográfica não consentida) e 216-B (registro não autorizado da intimidade sexual), as principais hipóteses de violência sexual online encontram-se tipificadas, segundo as promotoras. Outro avanço na legislação apontado por elas é o artigo 21 da Lei 12.965/14 (Marco Civil da Internet). O dispositivo obriga o provedor de aplicações de internet a retirar conteúdo de nudez ou sexo, após mera notificação da vítima ou de seu representante legal, sob pena de responsabilidade subsidiária pela violação da intimidade, sem autorização dos participantes.
“Stalking”Quando o agressor persegue a mulher de forma obsessiva, a conduta é denominada “stalking”. Embora não tipificada expressamente na legislação brasileira, ela sujeita o autor às penas da contravenção penal prevista no art. 65 da Lei das Contravenções Penais. Atualmente, projetos de lei que buscam tipificar a prática tramitam no Congresso Nacional.
Medidas protetivas de urgênciaPatrícia destaca que a Lei Maria da Penha assegura proteção às mulheres ao definir, no artigo 7.º, as várias formas de violência. Ela chama a atenção para a psicológica, entendida como “qualquer conduta que cause dano emocional à vítima e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.
A promotora lembra que, configurado o quadro de violência doméstica e familiar, é assegurado à mulher o direito de pedir medidas protetivas de urgência, que variam da suspensão da posse ou restrição do porte de armas pelo agressor, passando por seu afastamento do lar e pela proibição de contato e aproximação da vítima, entre outras. “Em uma situação de violência, inclusive online, a vítima pode procurar tanto o Ministério Público quanto a Polícia Civil e mesmo acionar a Polícia Militar, nos casos em que a violência esteja acontecendo. Em nenhuma hipótese, deve-se calar”, ressalta, lembrando ainda a possibilidade de realização de denúncia pelo disque 180.
Titular exclusivo da Ação Penal Pública, fiscal da ordem jurídica e defensor da sociedade, o Ministério Público é responsável por buscar a correta aplicação da lei e a punição dos responsáveis. O órgão ainda promove ações de apoio e conscientização das mulheres em situação de violência sobre a importância de denunciar e de preservar as provas virtuais.
Conforme as promotoras, caso a violência ocorra dentro das hipóteses na Lei Maria da Penha, serão competentes para julgar o caso os juízes ou juizados especializados que tratam da matéria violência doméstica. Nas outras hipóteses, o juiz da Vara Criminal Comum ou do Juizado Especial Criminal, dependendo do delito. Já o crime de pornografia infantil é previsto em legislação especial e ensejará providências de proteção para a vítima no âmbito do Juízo da Infância Cível e no Juízo da Vara Especializada em Crimes contra criança, onde existir.
Preservação das provas
Em relação aos crimes virtuais, Christianne alerta que a população deve se atentar para a velocidade e a volatilidade dos dados na internet. “As provas não preservadas imediatamente podem ser apagadas, dificultando a identificação da autoria, a comprovação do delito e a punição do autor”,
Algumas dicas de segurança listadas por elas são: não destruir provas; lavrar o Boletim de Ocorrência; interromper o contato com o agressor; não excluir a postagem; em caso de mídia social, não excluir o perfil, e sim desativar; fazer um print das telas com o conteúdo, com URL do perfil ou página ou número do whatsapp; fazer um backup completo da conta de Facebook ou do grupo de whatsapp; procurar o Ministério Público da cidade ou a delegacia especializada em crimes cibernéticos. Se o caso envolver violência doméstica, poderá ser feito o registro na Delegacia Especializada no Atendimento às Mulheres, se existir na localidade, ou pelo disque 180.
Foco na privacidade
Conforme Christianne Cotrim, tomar cuidado com a privacidade pode ajudar a evitar crimes virtuais. A promotora deixa dicas sobre o fornecimento de dados cadastrais:
- Nunca compartilhe suas senhas pessoais – a exposição pornográfica não consentida, via de regra, ocorre após término de relacionamento. Se o agressor tiver as senhas da vítima, pode se fazer passar por ela e, inclusive, postar fotos dela nua em seu próprio perfil.
- “Nudes não é moda, é sua intimidade exposta!”. Muito comum, também, o agressor disponibilizar “nudes” de que tenha a posse em sites de garota de programa, passando o telefone da vítima ou de algum familiar seu para contato.
- Seja cuidadoso ao divulgar informações em redes sociais – crimes são planejados e praticados com informações disponibilizadas pelas próprias vítimas.
- Não abra a sua webcam para desconhecidos – muitas hipóteses de extorsão sexual começam através de sexo online, via webcam. Enquanto interage com a vítima, o agressor captura as imagens para extorquí-la.
- Amigo não é qualquer um! Cuidado ao aceitar desconhecidos em suas mídias sociais ou interagir com desconhecidos na internet.