03 de julho, de 2019 | 14:00
Mandado para a prisão: por que esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros?
Fausto Luciano Panicacci *
Não haveria nenhum viés embutido no algoritmo, já que é elaborado por humanos?É na Literatura que a Humanidade se confessa: é ela o espelho no qual nos vemos desnudados”
Longe de ser tecnofóbico” ou ludita: uso diariamente aparatos tecnológicos, e sei o quanto podem facilitar nossas vidas guiando-nos pelo trânsito caótico, agilizando compras, permitindo amplo acesso à informação e conexão com pessoas distantes; sei também do uso estratégico de algoritmos para tornar eficiente a busca por algo na internet e mais produtivas as campanhas publicitárias nas redes sociais; mas vislumbro um grave problema quando se atribui aos tais algoritmos poderes decisórios.
Um dos argumentos que se levanta em prol do uso de softwares para a tomada de decisões judiciais é o de que um computador teria acesso imediato tanto ao gigantesco banco de dados de decisões passadas quanto sobre o comportamento prévio do acusado. Outro é o de que os algoritmos evitariam que vieses” dos juízes (humanos que são) influenciassem a decisão. Surge a questão: não haveria nenhum viés embutido no algoritmo, já que é elaborado por humanos? Ou, por outra: de que forma um sistema baseado em estatísticas poderia dar conta da intervenção do irracional na vida humana retratado com tanta maestria por Tolstói em suas obras (como no ato, imprevisto e impensado, de Anna Kariênina ao jogar-se sob as rodas do trem)? E como lidaria com temas humanos ah, tão humanos como empatia, perdão e redenção? A tecnologia nos impacta e nos molda como nos mostra o excelente livro da professora do MIT Sherry Turkle, Alone together: why we expect more technology and less each other (ao qual tomei de empréstimo o subtítulo deste artigo).
Mas até que ponto permitiremos que nos substitua? Estabelecer correlações entre dados estatísticos e prática de crimes não implica necessariamente demonstrar causa e efeito. Assim, se determinado algoritmo usa, para definir a probabilidade de um réu reincidir, dados envolvendo questões de cor e classe social, por exemplo, o resultado, como ressalta Karen Hao em artigo publicado na MIT Technology Review (21.01.2019), será muito desfavorável às populações que, por preconceito, ao longo da História foram desproporcionalmente mais visadas pela lei como minorias e pessoas de baixa renda , pois atingirão altos escores” de (suposta) probabilidade de reincidência, perpetuando-se assim o ciclo de injustiça.
Curiosamente, uma pesquisa desenvolvida no Dartmouth College apontou que o emprego de algoritmos para prever reincidência de criminosos não tem índice de acerto melhor do que o de voluntários aleatoriamente recrutados na internet! (cf. A popular algorithm is no better at predicting crimes tham random people, The Atlantic, 17.01.2018 artigo que ainda menciona estudo segundo o qual o sistema Compas tem vieses contra os afro-americanos).
Sublinhei o termo aleatoriamente. A ideia de tirar o peso da responsabilidade” por nossos atos e decisões pode parecer sedutora a alguns... Há trabalhos, inclusive, que buscam mapear suas (pretensas) vantagens e desvantagens (ver, por exemplo, Neil Duxbury, Random Justice, Oxford University Press). Exploro isso, convidando o leitor a refletir, em meu romance O silêncio dos livros (Ed. Pandorga, 2019) por duas vertentes: de um lado, alguns personagens delegam a aplicativos a tomada de decisões cruciais (desde saber se amam” determinada pessoa, até se devem ou não matar um desafeto); de outro, um estranho sistema judicial decide se alguém permanecerá preso por décadas ou se será solto a partir de um aplicativo que entrega resultados... aleatórios.
Sempre que penso no emprego de dispositivos para decidir (sob o argumento de descobrir”) algo, vem à mente a máquina de Voight-Kampff” do filme Blade Runner, utilizada para identificar se um indivíduo seria humano ou replicante” (outro dos temas abordados no filme é o da engenharia genética, que também aparece em meu romance mas isso é matéria para outro texto). Sintomático que a história do filme, produzido em 1982, se passe neste nosso ano de 2019.
Voltemos a Mr. Loomis. Talvez seja de fato culpado; mas não é esse o ponto. Sua Defesa recorreu da sentença, a qual foi, no entanto, mantida pela Suprema Corte do Estado de Wisconsin, sob o argumento de que se teria chegado à mesma decisão condenatória mesmo sem usar a avaliação feita pelo algoritmo. Aqui temos um paradoxo: ou bem o algoritmo não teve nenhuma influência na decisão do juiz sendo, portanto, inútil ou teve e, neste caso, parte da atividade humana julgar com responsabilidade foi delegada a uma máquina.
E, para tornar o processo ainda mais kafkiano (como o do pobre Josef K, atormentado por uma acusação de crime que desconhece em O processo, de Kafka), ao se manifestar perante a Suprema Corte americana para que não julgasse o caso (e, de fato, tal Corte declinou de julgar), a Procuradoria Geral sustentou que Loomis era livre para questionar a avaliação e explicar suas possíveis falhas” algo praticamente impossível, tendo em vista que o algoritmo é sigiloso, não tendo a ele acesso nem mesmo os advogados do caso.
Poderíamos perguntar por que subtrair aos humanos a atribuição (e a responsabilidade) de julgar casos criminais. Abro o interessantíssimo livro Gadget: você não é um aplicativo, de Jaron Lenier, um dos pais da tecnologia da realidade virtual, e encontro o tópico Fazendo as pessoas serem obsoletas para que os computadores pareçam ser mais avançados”. Bastante elucidativo.
Não sei o que foi feito daquela garotinha portuguesa, mas espero que tenha algum dia conseguido ao menos um pouco da atenção que mendigava aos pais. Afeiçoei-me de tal maneira a ela embora sem jamais tê-la conhecido que até lhe dei um nome: Alice. Ela transformou-se numa das principais personagens de O silêncio dos livros, que traz na contracapa a provocação: qual seria o destino de uma sociedade que, fascinada pelos avanços tecnológicos, abolisse os livros?
Contra a fé sonâmbula em que a tecnologia é sempre superior ao elemento humano, vale uma antiga, por vezes desacreditada, mas sempre eficiente vacina: a Literatura. É na Literatura que a Humanidade se confessa: é ela o espelho no qual nos vemos desnudados, podemos então nos tornar um pouco melhores (...) Através das personagens conseguimos observar o mundo com outros olhos, saboreando vidas que não as nossas e, assim, melhor entender os que nos cerca” diz um dos personagens.
Como escritor, gosto de convidar o leitor a reflexões formulando perguntas. Ao finalizar este texto, indago-me novamente sobre as razões pelas quais chegamos a isso tudo, e ocorre-me parafrasear, com um talvez” (porque o romance é campo de perguntas, não de respostas engessadas), o subtítulo deste artigo: porque esperamos tanto da tecnologia e tão pouco uns dos outros.
*Escritor, Doutor em Direito, promotor de Justiça, fotógrafo. Autor de O silêncio dos livros (romance), Naufrágios (contos) e de obra jurídica.
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