Após 30 meses de governo, qual é a sua marca como gestor?

Leandro Rico Moyano *

“Desprovida de qualquer intenção social, a marca Odorico surge dentro da concepção do Eu”

“Como dizia o filosofo francês Louis-Ferdinand Céline: Não existe vaidade inteligente”

Os agentes políticos que assumiram o governo no início de 2017 completarão em junho próximo 30 meses de governo, cuja trajetória é oportuna para identificar qual é a marca deixada como gestor e se de fato vem sendo reconhecida pelos cidadãos diante das políticas públicas realizadas, ou se está em vias de se concretizar até o término do mandato.

O tema “Marca de Governo” foi o objeto de estudo do instituto Paraná Pesquisas, realizado em abril deste ano, que apresentou um índice de reprovação do então prefeito de São Paulo Bruno Covas (PSDB) de 60%. Desde que assumiu o governo Covas iniciou a desativação dos projetos de seu antecessor João Doria (PSDB), na tentativa de atribuir a própria marca como prefeito de olho em sua campanha para a reeleição em 2020.

João Doria, por exemplo, estreou o seu mandato lançando a sua marca acerca da zeladoria urbana, denominada de SP Cidade Linda, que reproduziu os seus feitos via rede social, estampando uma nova estratégia de comunicação, cujo conceito serviu de referência junto a milhares de políticos, copiado até hoje em todo Brasil.

Bruno Covas, por sua vez, foi introduzindo a sua marca à gestão promovendo políticas públicas de mobilidade, estimulando o uso de bikes, vida noturna no calçadão do centro velho, festival gastronômico, seguido de um discurso de que prioriza as áreas sociais, da saúde e da educação. Para tanto, alocou o programa de zeladoria de seu antecessor para as 32 subprefeituras espalhadas pela cidade, as quais ficaram responsáveis pela execução de tapa-buracos, conserto de calçadas, mutirões de poda de árvores e limpeza de bueiros, tornando o programa como algo secundário, longe dos holofotes, evitando dessa forma a relevância da marca introduzida por Doria.

Ai vem a pergunta: onde o prefeito Bruno Covas errou a mão, avaliando friamente as referidas ações? Foram duas causas identificadas pela pesquisa: o sucateamento do programa de zeladoria herdado pela gestão João Doria e o excesso do Eu, pois ao invés de Covas distanciar-se da marca de João Doria, deveria empoderar-se e, gradualmente, construiria a sua marca embasada em um novo estudo de demanda social. Faltou inteligência em não admitir que o programa de zeladoria era e continuou sendo, até abril de 2019, o maior pleito dos cidadãos paulistano, conforme identificado pelo instituto. A sensação da população é de que a cidade está abandonada.

O fato é que, Marca de um Governo, não pode ser confundida com a marca do Eu, cujas ações de políticas públicas são regidas por foro íntimo à espera do reconhecimento da sociedade para o bel prazer do ego. Marca não basta “parecer”, tem que “ser” e só depois “aparecer”. A marca pode e deve simbolizar os anseios da sociedade, a qual se tronará legítima se comprovar a sua verdade diante de suas causas e resultados. Ou seja, se o agente político propõe publicamente que o seu governo priorizará política social, terá de fato que priorizar a política social como carro chefe de seu governo, sem negligenciar, obviamente, as outras demandas inerentes a administração pública.

Contrariamente a essa configuração de transformar uma política pública em marca de governo, existem as marcas acidentais que surgem de forma inesperadas como ocorreu com o prefeito Sérgio Meneguelli de Colatina (ES), que se tornou conhecido, inicialmente, pela rigidez no combate à corrupção e o não desperdício do dinheiro público. Porém a sua verdadeira marca, que aos poucos veio se construindo imperceptivelmente, está em torno dos compromissos sociais e morais que espontaneamente promove junto à população, cuja marca foi reconhecida pelo “Notable Brazilian Award” (Prêmio Brasileiro Notável) em Manhattan (NY).

Como também existem, em quase a sua totalidade, os que concluem o mandato sem saber qual foi o seu maior feito durante o seu governo. Isso se deve que os atuais agentes políticos continuam reféns de um modelo de política mantenedora. Perpassam pelos quatros anos de mandato lutando para manter a coleta de lixo, salários dos servidores, remédios nos postos de saúde, merenda escolar entre outras manutenções, sem ter a capacidade de investimento para focar na política considerada premente pela população, caso contrário terá que gerir a mesma política mantenedora que há décadas passa por dificuldades. O gestor que consegue transpor esse cenário se destaca tornando a sua gestão reconhecida.

E, por último, o surgimento da marca eleitoreira, populista e pretensiosa, caracterizada atualmente como a “Velha Política”, também conhecida como marca “Odorico Paraguaçu”, personagem da novela O Bem Amado, cujo inequívoco ocorre, tanto na esfera Executiva, quanto Legislativa.

Desprovida de qualquer intenção social, a marca Odorico surge dentro da concepção do Eu, com a clara intensão em estabelecer vínculos personalistas junto aos eleitores na tentativa de despertar grandeza e reconhecimento, por meio das redes sociais, em troca de favores por votos. Esta também pode ser chamada de marca “tiro no pé”, que aos poucos passam a ser desvendadas como pirotecnias eleitoreiras, menosprezando desta forma totalmente a inteligência da população, que desde 2012 vem exercitando a capacidade de identificar marca de políticas públicas de politiqueiros. Como dizia o filosofo francês Louis-Ferdinand Céline: “Não existe vaidade inteligente”.

* Especialista em Administração e Marketing, Gestão Pública e Controle com Foco em Resultados pela Escola de Contas do TCE-MG. Consultor pelo Sebrae para a formação de Consórcios Intermunicipais Multifinalitário e Inteligência da Informação.

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