SOS Educação

Luiz Carlos Amorim *

Tenho alertado a respeito do abandono da educação brasileira há anos. Nos últimos tempos, intensifiquei o foco, escrevi vários artigos sobre o tema porque a situação tem se agravado, não só pelo resultado constatado na aprendizagem dos estudantes, mas pelo estado cada vez mais precário das escolas públicas e do descaso para com os professores. Além disso, nos últimos anos foram feitas modificações no sistema de ensino – alfabetização, ensino da matemática, etc., que, ao invés de melhorar a educação, prejudicaram ainda mais os estudantes do ensino fundamental, que estão chegando ao terceiro, quarto ano sem saber ler e escrever.

E isso reflete nas etapas seguintes, é claro, no ensino médio e também no superior, pois se a base não é boa, todo o resto estará perdido.

A União e os Estados – o Ministério da Educação e as Secretarias de Educação – não estão dando a devida atenção à educação, não estão investindo na educação. Aliás, o governo diminuiu a verba para educação neste ano. Parecem não se dar conta de que um ensino de qualidade é condição sine qua non para que tenhamos, mais adiante, pessoas educadas e qualificadas para trabalhar e ter uma vida digna, para que tenhamos profissionais qualificados e dirigentes preparados, com um mínimo de cultura para desempenharem um bom governo à frente do país, dos estados, dos municípios, das grandes empresas.

O próprio MEC já admitiu, publicamente, o que temos repetido várias vezes: mais de um terço das crianças do início do primeiro grau, com oito anos, nove anos, não aprenderam a ler e escrever, o que compromete, como já dissemos, toda a vida escolar.

A verdade é que, com o ensino deficiente, a qualificação para o trabalho e para o ensino superior estará prejudicada, como o próprio ministro da educação conseguiu enxergar. E como isso é uma bola de neve, a formação de professores, como de outros profissionais, também não terá a qualidade desejada, pois o ensino superior é a última etapa da cadeia educacional Quem puder seguir adiante, com especialização, mestrado, doutorado, também sentirá essa deficiência.

O governo, ou a União, como queiram, sabe o estado deplorável em que se encontra a educação brasileira. E quando digo “educação”, friso sempre, lembro que a instrução, o ensino, está contida nela, conforme poderemos ver, se consultarmos o dicionário. O que precisa fazer é responder todas as perguntas sobre os entraves que jogam a qualidade do nosso ensino cada vez mais para baixo e começar a investir para melhorar a qualificação de nossos professores – e de outros profissionais -, na melhoria das instalações das escolas públicas, assim como equipá-las adequadamente e pagar dignamente os professores.

Sempre defendi que os professores dos primeiros anos do Ensino Fundamental devem ser os mais bem pagos – por isso devem ser altamente qualificados – pois a base de tudo é o começo, o início da jornada para aquisição de conhecimento, de educação e para a formação de caráter. Não que os outros professores não devam ser reconhecidos, mas se começarmos valorizando aqueles lá do início da cadeia, todos os outros serão, consequentemente, bem qualificados e bem pagos. Se o ensino tiver qualidade, os educadores formados com ele também terão qualidade.


* Escritor, editor e revisor, fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, com 39 anos de trajetória. Cadeira 19 na Academia Sul-Brasileira de Letras. Http://lcamorim.blogspot.com.br
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