04 de abril, de 2019 | 13:04
Reforma para superar o ódio
Amadeu Garrido de Paula *
"Esquerda e direita se desidrataram no torvelinho das forças sociais e econômicas dos últimos tempos"Dentre todas (só se fala da previdenciária), a principal reforma deve ter por objeto a consciência brasileira. Conflitos armados sempre tivemos no Brasil. Antônio Conselheiro, Emboabas, Tenentismo, Coluna Prestes e tantos outros eventos estremecedores de nossa paz social. Contudo, foram sempre embates definidos e isolados.
Jamais o ódio absorveu o povo brasileiro, de modo amplamente disseminado, como agora. Canhestramente, fala-se em esquerda e direita, mais como referência de cérebros despreparados do que como fenômeno sócio-político. Com a vênia do positivista Norberto Bobbio, esquerda e direita se desidrataram no torvelinho das forças sociais e econômicas dos últimos tempos. Foram enterradas com o breve século XX.
Nunca o pensamento como o pragmatismo - não o simplório, mas o filosófico - foi tão importante para nosso País e nosso povo. O necessário é desfazer rotos, deixar de torcer ou descrever a história, e caminhar para soluções. Por ocasião do plano real, um saudoso jornalista que o comemorou, não deixou de dizer que, imediatamente, deveriam seguir-se as "reformas". Nenhuma foi feita.
Neste momento, afastar de nossas relações o ódio generalizado consubstancia a primeira reforma urgentíssima. A propaganda política mudou o hábito mortal dos brasileiros de fumar. O mesmo pode ser feito no sentido de dar-se passagem à compreensão de que o próximo pode ter ideias políticas diversas da nossa; e continuarmos amigos e solidários.
Uma maioria, aconselhada por famílias, cônjuges, preferem não mais tocar em política. Desastre. A grande Cidade Estado de Atenas se desenvolveu econômica e culturalmente porque os cidadãos não faziam outra coisa senão debater política. A autocensura tomou o lugar dos versos camonianos e das receitas culinárias nos dias atuais no Brasil.
Nenhum povo submetido a uma tempestade perfeita dela saiu sem entendimento entre seus pares. Com divergências naturais, porém debatidas e sem ódio. Cria-se a sociedade possível, pactuada, de cooperação e transigência que não nos matam. Nela, o norte é a justiça (social), como equidade, e constitucionalizada como democracia, em que todos têm direito de pensar, falar, e a obrigação de compreender e aceitar. O primeiro a se compromissar com esse objetivo seria um governo culturalmente honesto.
No buraco em que afundamentos, essa passou a ser a primeira das reformas. As outras - com sucesso - virão depois.
* Advogado, sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados
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