Bonjour, barbárie

Vinícius Siman*

Acordei péssimo esses dias. Triste, melancólico, mal-humorado, remoendo rancores antigos e blá-blá-blá. Às 5h levantei sobressaltado, tossindo; fui ao banheiro, me escorei na pia e escarrei sangue. Tinha uma coisa arranhando minha garganta, e eu senti vontade de escrever um romance à la Françoise Sagan, expondo os defeitos e vícios dos amigos, sarcástico. Bonjour, tristesse é um título delicioso de se falar, principalmente com um erre escarrado como o de Piaf, e lembrando do erre escarrado de Piaf, associo que, por algum motivo narrativo, tenho que contar porquê escarrei sangue pela manh㠗 o que não farei, em meu complexo de nefelibata.

Havia já muito tempo que isso não acontecia, e acabei por ficar assustado, pensando em parar de fumar. “Você tem vontade de deixar o cigarro?”, perguntou minha médica, numa consulta, um dia antes do acontecimento. “Minha vontade de fumar é maior que a de parar”, respondi com ares de rebeldia. Andrew Amaral insiste que fará lobby pra que eu deixe o cigarro, afirmando ser um ato já démodé. Ah, a doçura dos hábitos obsoletos! Ah, o frescor das vicissitudes!

Todos os dias têm sido trágicos. Dormir tarde é frequente, acordar de madrugada também. Levantar, abrir as janelas da casa, olhar o sol surgindo aos poucos, as montanhas, as favelas, encher o peito e dizer “bonjour, barbárie”, suspirando. O cigarro pra mim ocupa espaços que toda a vida ficaram vazios: é uma válvula de escape, um calmante, um orgasmo e uma navalha. Tem a inteligência de adaptar-se de acordo com minhas carências. Uma máxima: temos a vocação de mudar o mundo. Temos a obrigação de mudar a nós mesmos.

A vida exige uma resposta urgente pra tudo, e eu sou um artista, eu tenho meu tempo-espaço, não adianta pressionar nem me exigir uma noção de certo e errado (como são chatas as dicotomias!), muito menos querer de mim um instrumento de moralização da sociedade. Meu papel de artista é transgredir, e nem isso tenho cumprido — muita preguiça. Os cantos de Hilda Hilst sobre a morte, os poemas do Segundo Fausto, de Fernando Pessoa, sobre o mesmo tema: eles me fazem alcançar o belo e amar essa forma intransigente. Outra máxima: a morte, tentadora, tem toda uma forma de solução, toda uma sedução de calma. Rubem Leite sabe bem disso, e nossas conversas sobre a morte são belíssimas: a estética cuidadosa com que tratamos de atenuá-la... daria um livro. (Não saberíamos o que é a morte se não existissem, pra defini-la e embonitá-la, os eufemismos.)

O cigarro acabou enquanto escrevia este texto. Perdoe-me, mas terei que dar minha clássica desculpa de nefelibata pra: 1) como Freud, fugir dum assunto que não quero abordar; 2) ir à padaria.

* Escritor e crítico literário ipatinguense. Tem 10 livros publicados. E-mail: simanvinicius@gmail.com

Comentários

Ligia 15 de Março, 2019 | 19:38
Sou fã de carteirinha a mto tempo!
Daniel Cristiano 15 de Março, 2019 | 14:15
Admiro sua capacidade de surpreender... Saudações Siman

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