14 de janeiro, de 2019 | 16:05
Prova de sabedoria
Fernando Rocha
Relacionar-se bem com o tempo é uma prova de sabedoria, coisa que dificilmente os jogadores de futebol conseguem. A adrenalina da competição, holofotes, aclamação, todos estes elementos do futebol têm efeito inebriante e, quase sempre, são um convite ao aflorar de vaidades, que na maioria das vezes podem ser tóxicas para muitas carreiras.Quantos exemplos estão aí bem vivos de ex-jogadores que já se foram para o outro plano espiritual, gente que não soube conviver com a fama, que se excedeu em farras, bebidas, drogas, mulheres e outras coisas, terminando seus dias em condições deploráveis ou dependendo da caridade de almas boas?
Uma das frases mais pertinentes sobre este lado negro do futebol, mas que pode se estender também a outras modalidades, é do ex-craque e ídolo brasileiro Paulo Roberto Falcão, que, ao contrário dos seus colegas sem juízo, soube guardar o muito que ganhou com o futebol para levar uma vida tranquila depois que pendurou as chuteiras: - O jogador tem duas mortes, a primeira, quando pendura as chuteiras”, afirmou.
Ególatra convicto
Então, feito este preâmbulo, ou aquecimento”, vou até onde quero chegar, na outra ponta, onde vemos o português Cristiano Ronaldo, eleito cinco vezes o melhor jogador do mundo, ególatra convicto, milionário, que cuida do corpo na proporção inversa de seus colegas sem juízo e sem noção das responsabilidades de um atleta em alto nível de rendimento.
CR-7 parece não saber lidar com a inexorável possibilidade de parar de jogar futebol um dia, o que ficou evidente em entrevista recente que concedeu à revista francesa France Football”, onde mostrou sua personalidade única, que supõe ser dotado de superpoderes futebolísticos”.
Nela, sem cerimônias, o português Ronaldo reivindica seu lugar na história do futebol, ainda que, aos 33 anos de idade, por razões físicas inerentes às características do ser humano, sua carreira esteja agora caminhando para o fim.
O português se proclama merecedor da sexta Bola de Ouro” este ano e até elogiou os novos rivais, o atual detentor do prêmio, Modric, além de Salah e Griezmann, mas, para não ficar sem demonstrar a sua egolatria, disse duvidar que qualquer um deles conseguisse ficar no topo por uma década, como ele e o argentino Messi ficaram.
FIM DE PAPO
Cristiano Ronaldo é de fato um tipo de jogador diferente, competitivo, mas não está imune a conflitos que angustiam muitos astros quando a carreira se aproxima do fim, a tal segunda morte preconizada por Falcão. O anonimato não me faz falta. Não tenho vontade de ser qualquer um, normal”, diz ele sem cerimônias.
Existem, sim, várias maneiras de conviver com a condição de ex-jogador famoso, fora dos holofotes, microfones, afagos e até mesmo as vaias das torcidas. Adriano, que chegou a ser o Imperador”, viu sua carreira ser destruída por não conseguir se livrar do vício do álcool. Hoje, vive no subúrbio do Rio de Janeiro cercado dos seus parças”, pois ainda tem dinheiro suficiente para manter, além do vício, estas amizades” coloridas ou nada éticas, que de certa forma o levaram ao fundo do precipício.
O ex-craque Tostão é o que se pode chamar de bom exemplo. Formou-se em Medicina, à qual se dedicou totalmente assim que parou de jogar precocemente, aos 26 anos de idade, vítima de uma contusão no olho. Mas aos poucos foi novamente tomado pela paixão ao futebol e retornou na condição de cronista esportivo, sendo hoje um dos mais importantes e aclamados do país. Humilde, ético, o tricampeão mundial com a Seleção no México e maior ídolo na história do Cruzeiro, mantém uma relação saudável com a passagem do tempo, com a transitoriedade do protagonismo, sem ser piegas ou dissimulado.
Outra maneira é o estilo Maradona de ser, que ainda hoje é tratado como um Deus” da bola por seus compatriotas argentinos. Aos 58 anos de idade, ele ainda não percebeu que seu papel agora é outro e, constantemente, se revolta por não ser mais o centro dos acontecimentos, numa espécie de amargura por ver novos ocupantes no palco que um dia chamou de seu. Maradona cultiva um personagem que precisa causar”, criar polêmica em cada entrevista dada.
Recentemente, sobre Messi, ele disse que não se pode transformar em caudilho quem vai ao banheiro 20 vezes antes de um jogo”. A meu juízo, ele foi desrespeitoso e equivocado com o melhor jogador em atividade no mundo. Mas é fato que, no caso de Maradona, o encantamento produzido em campo não lhe concedeu o atributo da humildade e da razão. Por isso é que relacionar-se bem com o tempo, seja em qualquer profissão, na vida, é uma prova de sabedoria.
O caso recente do jovem zagueiro Cacá, 18 anos, joia da base do Cruzeiro, flagrado com maconha na noite da capital, deve e certamente será tratado com a seriedade e respeito que merece. Uma nova chance deve e lhe será dada, mas ele irá carregar esta mancha para o resto da carreira, que jamais será a mesma promissora de antes. Que sirva de lição para outros jovens não caírem na mesma armadilha. (Fecha o pano!)
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