19 de outubro, de 2018 | 15:29
Reflexões do processo eleitoral 2018
João Costa Aguiar Filho *
"Disseminar verdades ou inverdades é diretiva para criar onda massificadora em torno de um suposto salvador da pátria, para capitanear votos nos processos eleitorais"Grupos econômicos poderosos e interessados nos resultados eleitorais patrocinam uma engenharia psíquica, política e eletrônica, capaz de potencializar a energia negativista conservadora em votos”
Venho refletindo acerca da dificuldade de enfrentar, a partir das forças que o movimento transformador ou progressista” organizado conseguiu acumular, transformando-as em resultado eleitoral, os fenômenos eleitorais tão próprios da baixa tradição e incorporação da democracia em um país como o Brasil.
Os fenômenos eleitorais se caracterizam por uma mobilização espontânea em torno de expectativas e vontades, geralmente articuladas em torno de um senso comum sobre a percepção e as possíveis soluções dos problemas que a sociedade e o país enfrentam em determinada conjuntura política, econômica e social. Discursos unificadores de posicionamentos superficiais ou artificiais para problemas complexos geralmente são a marca que algum grupo ou pessoa busca identificar inicialmente com uma parcela da população no sentido de massificar, ou viralizar, para usar uma palavra da moda.
Os mecanismos atuais de comunicação contribuem para o atingimento de grandes contingentes de pessoas, o que pode definir processos comunicativos e de articulações eleitorais importantes. Se antes eram o rádio e durante muito tempo a televisão, os meios disseminadores, hoje, as mídias sociais, as trocas de informações via celulares, computadores, tablets e outras plataformas são definidores dessa capacidade formativa de opinião. E como processos de intensa mobilização como esses têm o pragmatismo como marca, fabricar e/ou utilizar e disseminar versões de fatos, meias ou nenhumas verdades, são as diretivas para criação de uma onda massificadora em torno de uma pessoa ou um grupo e que se revela num suposto salvador da pátria”, para capitanear votos nos processos eleitorais.
Existem outros, mas citarei alguns fenômenos que considero relevantes para esta análise.
Um episódio marcante de nossa história é a Limpeza” da Vassourinha” que Jânio Quadros utilizou para varrer um mínimo de reflexão crítica a respeito dos rumos do Brasil no início dos anos 1960. A renúncia, seguida de uma tentativa de golpe parlamentarista de Tancredo Neves que se apresentou para ser Primeiro Ministro foi contido pelo plebiscito que garantiu a posse de Jango. Entretanto, não conseguiu segurar o desencadeamento da onda conservadora que resultou no golpe militar de 1964 e nos impôs 21 anos de obscurantismo autoritário e de um empresariado aproveitador das benesses do Estado, geradas pelo artificialismo do Milagre Brasileiro”, que ampliou a miséria e aumentou o fosso que diferencia e aparta ricos dos pobres.
Já na atual redemocratização a Caçada aos Marajás” que bestializou os brasileiros fazendo-os acreditar que desceria do Nordeste um "Cabra Macho" que iria caçar os aproveitadores da República, quando na verdade se tratava de um Playboy de Brasília que, como tantos filhos e netos de sobrenomes conhecidos como Magalhães, Maias, Neves, Barbalhos, Sarneys e outros, viviam nas ondas de sexo, drogas e outras veleidades, se preparando” para assumir o papel de representantes” do povo no Congresso ou no Poder Executivo. Outro fenômeno a ressaltar foi o Plano Real que, até para combinar com o nome do Plano, foi vitorioso para eleger o príncipe” FHC.
Quando se imaginava que o governo iria propor formas para o enfrentamento da dependência”, o nobre presidente colocou o Estado brasileiro a serviço da neoliberalização. Lula e o PT devem ao José Serra uma ação que acabou por impedir mais um fenômeno eleitoral. Com a morte de Luís Eduardo Magalhães, preparado pelo pai, Antonio Carlos Magalhães, o ACM, para ser o presidente do país, morto ao fazer uma caminhada depois de uma noite de esbornia no Lago Paranoá, Roseana Sarney, surgia como um fenômeno feminino, com os componentes políticos de quem viria salvar o país do risco da volta da inflação e de submissão ao FMI que caracteriza o fim melancólico do Governo FHC. O senador tratou de plantar um milhão (em cédulas, não em grãos) no escritório do Murad, ex-marido e coordenador da pré-campanha da filha do Sarney.
Infelizmente, nos dias atuais vivenciamos mais um fenômeno eleitoral no Brasil. Esse mais desqualificado ainda, porque, traz no seu bojo, as questões morais mais retrógradas, o preconceito, a confusão da religião com o Estado e a armamentização como um elemento central do exercício do poder, ou seja, tanto o cidadão pode se armar para enfrentar o bandido (que pode ser seu vizinho, o gay, o negro, o comunista”, etc.), como o Estado utilizará da força para resolver os problemas econômicos e sociais do país?. Certamente seria um desastre. Isso já foi experimentado e não deu certo em lugar algum.
Mas encerro afirmando o quanto é difícil enfrentar os fenômenos” nos processos eleitorais. Eles se espalham como um rastilho de pólvora que ninguém consegue parar. Neste ano de 2018, no Brasil, apresentam-se requintes de sofisticação pela utilização de mecanismos informatizados de capitação de expectativas e de disseminação da opinião à moda do que já testado em nos EUA. Grupos econômicos poderosos e interessados nos resultados dos nossos processos eleitorais estão proporcionando a introdução de uma engenharia psíquica, política e eletrônica, capaz de potencializar a energia negativista conservadora em votos.
As movimentações dos grupos econômicos tendo um banqueiro à frente do arranjo institucional de governo conservador que os indicadores das pesquisas eleitorais até o momento apresentam, com um ex-capitão do Exército brasileiro para impor a suposta austeridade financeira e moral, já dão mostras que a incipiente democracia brasileira tende a sofregar ainda mais.
Mesmo as elites brasileiras que, se veem esse processo com alguma desconfiança, não o enfrentam quando ainda é possível, se apegando no oportunismo da aniquilação das forças populares e de supostas oportunidades de maiores ganhos que sonham ter. Depois, o monstro já adquiriu proporções incontroláveis. Foi assim com Jânio, Collor e outros.
Ressaltem-se os acertos táticos do ex-presidente Lula para esse processo eleitoral face à sua pouca ou nenhuma mobilidade, visto que, a institucionalidade” brasileira o colocou na cadeia para agradar ao mercado que via como risco para os seus interesses numa nova eleição do líder do PT. Contudo, a fragmentação do campo popular e a polarização histórica entre petistas e tucanos, tem favorecido o conservadorismo, o moralismo de proxeneta e as opções fascistas.
Movimentações de combate ao Mito” tendem a fortalecê-lo, porque a bestialização da população alcança todos os extratos sociais. Eu vivi isto em várias eleições no Brasil e, infelizmente, estamos vivenciando novamente agora. E os resultados podem ser destruidores, inclusive no âmbito pessoal. Certamente o dia seguinte à vitória” desse fenômeno fascista no Brasil será marcado por um Macarthismo Tupiniquim que devemos nos preocupar. Se não conseguirmos enfrentar esse monstro, piores tempos virão.
* Advogado
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